Categoria: Publicações Recentes

  • Mesas Executivas de Exportação: O Panorama do Açaí

    Mesas Executivas de Exportação: O Panorama do Açaí

    Um novo estudo do projeto Amazônia 2030 analisa o crescimento, os gargalos e o futuro do setor de beneficiamento e exportação do açaí na região amazônica.  O relatório, intitulado “Mesas Executivas de Exportação: O Panorama do Açaí”, aponta que o fruto símbolo da bioeconomia amazônica vive um momento decisivo, combinando expansão acelerada, valorização internacional e riscos crescentes que exigem coordenação entre produtores, governo e sociedade civil.

    Produzido pelos pesquisadores Salo Coslovsky, Manuele Lima e Amanda Martins, o documento servirá de base para a criação da Mesa Executiva de Beneficiamento do Açaí, iniciativa articulada pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará (Semas-PA).

    Segundo o estudo, o Brasil produziu 1,93 milhão de toneladas de açaí em 2023, um aumento de 68% desde 2015. A produção industrial de polpas cresceu 17 vezes em uma década, refletindo a forte demanda nacional e internacional. As exportações atingiram US$ 140 milhões em 2024, com o produto brasileiro presente em mais de 30 países.

    O Pará responde por 80% da produção nacional, concentrada no entorno de Belém e do arquipélago do Marajó, uma liderança que gera vantagens competitivas, mas também expõe o setor a riscos logísticos, trabalhistas e ambientais.

    Oportunidades e riscos para o futuro do açaí

    A analise aponta três oportunidades estratégicas:

    • Aumentar a produtividade agrícola, que hoje é de 7 toneladas por hectare no Pará, podendo chegar a 15 toneladas com manejo tecnificado;

    • Ampliar a participação nas exportações, que ainda representam apenas 2,5% a 4,5% da produção total;

    • Fortalecer a coordenação entre produtores, reduzindo custos, melhorando a qualidade e protegendo o setor da concorrência nacional e internacional, especialmente de Colômbia, Peru e Equador, que avançam sobre esse mercado.

    O estudo também chama atenção para seis desafios estruturais:

    1. Condições de trabalho, com denúncias que ameaçam o acesso a mercados premium;

    2. Pressões ambientais, ligadas à “açaização” de grandes áreas;

    3. Lacunas regulatórias, que geram insegurança tributária e sanitária;

    4. Falta de monitoramento de safra, que compromete o planejamento produtivo;

    5. Necessidade de inovação tecnológica, do campo ao beneficiamento;

    6. Acesso da população local, pressionado pela alta dos preços do açaí.

     

    “O setor construiu, ao longo das últimas décadas, uma posição de liderança baseada em vantagens naturais e conhecimento acumulado. Mas transformar esse sucesso em uma diferenciação sustentável exige ação coletiva”, afirma Salo Coslovsky. “A Mesa Executiva pode coordenar esforços, definir padrões de qualidade e consolidar o açaí como referência global em produto florestal sustentável.”

  • O Nexo Floresta-Clima Para a Amazônia Brasileira

    O Nexo Floresta-Clima Para a Amazônia Brasileira

    Desenvolvido a partir de um mecanismo criado pelo CPI/PUC-Rio, o novo estudo implementa o Mecanismo de Reversão de Desmatamento (RDM) para restaurar florestas em escala na Amazônia. O RDM foi originalmente concebido após convocação do presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, para um conselho de economistas que contribuísse com as dimensões econômicas da conferência, incluindo o “Roteiro de Baku a Belém para 1,3T” e a Agenda de Ação da COP30.

    A nova análise mostra que o mecanismo poderia gerar US$ 784 bilhões em 30 anos e capturar até 26 gigatoneladas de CO₂ para a Amazônia brasileira, considerando um preço de US$50 por tonelada de CO2, transformando a restauração florestal em motor de desenvolvimento econômico e climático. O RDM remunera toneladas líquidas de carbono recuperadas em áreas desmatadas, criando novas oportunidades econômicas para a região amazônica e para o Brasil.

    Na prática, governos subnacionais ou nacionais firmam acordos de venda de créditos de carbono com compradores públicos ou privados, com base em um preço previamente definido por tonelada de CO₂ removida da atmosfera. O volume de créditos é calculado a partir da restauração florestal líquida, ou seja, descontando eventuais emissões por novos desmatamentos, garantindo integridade ambiental. Os recursos arrecadados podem ser direcionados para conservação, pagamentos por serviços ambientais, modelos de restauração florestal ativa e políticas sociais, criando um ciclo econômico que financia a transição para um modelo de desenvolvimento de baixo carbono na Amazônia.

    Segundo a análise, o Pará concentra o maior potencial de captura, 9,6 GtCO₂, com receita estimada em US$ 292 bilhões. Na sequência vêm Mato Grosso (7,3 GtCO₂; US$ 221 bilhões) e Rondônia (3,5 GtCO₂; US$ 106 bilhões). Estados com grandes estoques de floresta, como o Amazonas, são estratégicos para mecanismos de conservação.

    No total, 25,8 GtCO₂ poderiam ser removidos da atmosfera, com retornos financeiros equivalentes a quase 40% do PIB anual brasileiro. “A COP30 representa uma oportunidade histórica de colocar as florestas no centro da solução climática global. O Brasil tem a chance de mostrar ao mundo que é possível conciliar desenvolvimento e conservação, oferecendo, por meio da restauração em larga escala, uma resposta concreta à crise do clima e um novo caminho econômico para a região amazônica”, diz Beto Veríssimo, Enviado Especial para Florestas da COP30.

    Na Amazônia, grande parte das áreas mais adequadas para a produção agropecuária já foi desmatada no passado, enquanto as regiões com maior potencial de captura de carbono estão em outros territórios. Isso significa que é possível intensificar a produção em áreas consolidadas e, ao mesmo tempo, restaurar e conservar as áreas estratégicas para o clima, sem perda de produtividade. Em vez de serem atividades excludentes, produção agropecuária e restauração podem coexistir, gerando ganhos econômicos e ambientais simultaneamente. Ou seja, a agropecuária não precisa competir com a reversão do desmatamento.

    “O RDM trata a regeneração florestal como um ativo econômico de alto valor, capaz de gerar receita e benefícios climáticos simultaneamente. Ao alinhar políticas e recursos financeiros, o mecanismo preenche uma lacuna central no financiamento da restauração em larga escala. Com isso, o Brasil tem a chance de se afirmar como líder climático global transformando a restauração da Amazônia em vetor de desenvolvimento e valorização de seu maior patrimônio natural: a floresta”, afirma Juliano Assunção, diretor executivo do CPI/PUC-Rio e um dos autores do estudo.

    Um novo mecanismo financeiro para a floresta

    O Mecanismo de Reversão de Desmatamento (RDM) remunera toneladas líquidas de carbono capturadas por restauração, com possibilidade de integração a mercados internacionais de carbono, incluindo os previstos no Artigo 6 do Acordo de Paris. Ele complementa mecanismos já existentes, como o Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal Jurisdicional (JREDD+), voltado à redução do desmatamento, e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (Tropical Forest Forever Facility – TFFF), que remunera a manutenção da floresta em pé, criando uma arquitetura financeira mais completa, capaz de sustentar tanto proteção quanto restauração em larga escala.
    Somados, os mecanismos representam uma oportunidade econômica sem precedentes: o JREDD+ poderia gerar cerca de US$ 5 bilhões, o TFFF cerca de US$ 26 bilhões, e o RDM até US$ 784 bilhões, ampliando de forma significativa a capacidade de financiar a proteção e a restauração da Amazônia.

    Mas, como esse mecanismo funcionaria na prática?

    O processo começa com a identificação das áreas a serem restauradas e a mensuração da captura líquida de carbono, descontando as emissões de desmatamento e degradação. A partir daí, esses resultados são convertidos em créditos de carbono, que podem ser negociados em mercados nacionais ou internacionais com preço previamente definido por tonelada de CO₂. A receita obtida entra em um fundo jurisdicional, que direciona recursos tanto para ações diretamente ligadas à restauração e conservação. Essa estrutura cria um ciclo financeiro virtuoso, no qual a restauração florestal gera receita, financia sua própria expansão e impulsiona o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

    O Brasil já possui a infraestrutura técnica e institucional necessária para implementar o RDM de forma rápida e eficaz. O país conta com sistemas avançados de monitoramento por satélite, como Deter, Prodes, MapBiomas e SAD/Imazon, que permitem acompanhar com precisão o desmatamento e a regeneração da vegetação. Dispõe também do Cadastro Ambiental Rural (CAR), que viabiliza a vinculação de propriedades rurais ao monitoramento e à fiscalização ambiental. Além disso, tem experiência consolidada em mecanismos de pagamento por resultados, como o Fundo Amazônia e a Estratégia Nacional para REDD+, além de iniciativas subnacionais bem-sucedidas, como o Programa Territórios Sustentáveis, no Pará. Essa base técnica, legal e institucional cria condições concretas para operacionalizar o RDM em escala e com credibilidade internacional.

  • Como a Pecuária Pode Liderar a Ação Climática do Brasil

    Como a Pecuária Pode Liderar a Ação Climática do Brasil

    A pecuária brasileira, hoje responsável pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa do país, pode ser também a principal alavanca para reduzir o desmatamento e acelerar a transição climática no Brasil. Essa é a principal conclusão do novo estudo “Como a Pecuária Pode Liderar a Ação Climática do Brasil”, publicado pelo projeto Amazônia 2030.

    Segundo o levantamento, a criação de gado bovino ocupa 64% da área agropecuária do país — mais de 160 milhões de hectares —, mas gera apenas 17% do valor bruto da produção agropecuária. Na Amazônia Legal, 80% da área agropecuária (75 milhões de hectares) está ocupada por pastagens, das quais 54% estão degradadas. Esse modelo extensivo e de baixa produtividade está associado aos principais vetores de desmatamento da Amazônia e do Cerrado.

    “O estudo mostra que aumentar a produtividade da pecuária nas áreas já abertas, com apoio técnico e crédito bem direcionado, é mais eficiente e barato do que continuar desmatando”, explica Paulo Barreto, pesquisador do Imazon e coautor do estudo. Com políticas bem desenhadas, é possível manter a produção, reduzir emissões e conservar a floresta.

    Três recomendações para uma pecuária mais sustentável

    O estudo apresenta três diretrizes centrais para alinhar a pecuária às metas climáticas e à Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil:

    1. Focar investimentos em zonas de maior impacto — Áreas num raio de até 60 km dos frigoríficos concentram 96% da capacidade de abate e já têm melhor infraestrutura e menos embargos. Priorizar políticas nessas regiões acelera ganhos de produtividade e reduz a pressão sobre a floresta.
    2. Reorientar crédito rural com metas de produtividade e clima — Apenas 30% dos R$ 8,5 bilhões contratados em 2023 na Amazônia foram para ações que aumentam produtividade. Direcionar melhor esses recursos permitiria recuperar 216 mil hectares de pasto por ano, evitando o equivalente à expansão média dos últimos 10 anos e reduzindo em até 74% as emissões diretas por kg de carne.
    3. Eliminar incentivos ao desmatamento especulativo — Destinar cerca de 50 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas (19 milhões federais e 31 milhões estaduais) para conservação, demarcação de terras indígenas e áreas protegidas. Isso atacaria a raiz do desmatamento ilegal e reduziria riscos financeiros para o país.

     

    A pecuária bovina é a principal fonte de emissões do setor agropecuário, que responde por cerca de 75% das emissões de GEE do Brasil. A degradação ambiental tem impacto direto sobre a economia: segundo o Banco Central, a pecuária é o setor mais exposto ao risco de transição climática, com uma carteira de crédito estimada em R$ 130 bilhões (2022). Eventos climáticos extremos já afetam a estabilidade financeira do país e 44% das instituições financeiras relataram impactos em 2024.

    Para os pesquisadores, a COP30, que será realizada em Belém em novembro de 2025, representa uma oportunidade histórica para o Brasil apresentar ao mundo um plano sólido de transição climática ancorada na pecuária de baixo carbono. “A transição para uma pecuária mais eficiente e livre de desmatamento é não apenas possível, mas necessária para o futuro da Amazônia e do clima global”, reforça Barreto.

  • Quando a Fonte Seca: as Ameaças do Desmatamento para a Economia Brasileira

    Quando a Fonte Seca: as Ameaças do Desmatamento para a Economia Brasileira

    A Floresta Amazônica não é apenas um patrimônio ambiental, mas um ativo econômico de valor inestimável para o Brasil. Um novo relatório do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio) e do projeto Amazônia 2030 mostra como o desmatamento da Amazônia impacta os chamados rios voadores — correntes de umidade formadas pela evapotranspiração da floresta — e comprometem água e estabilidade climática em diversas regiões do país.

    De acordo com o estudo, a derrubada da floresta já gera prejuízos anuais bilionários, especialmente no setor elétrico. Somente as hidrelétricas de Itaipu e Belo Monte perderam juntas potencial de gerar 3.700 GWh por ano, o equivalente ao consumo de energia elétrica de todo o estado de Rondônia, o que representa mais de R$ 1 bilhão em perdas anuais.

    Impactos em múltiplos setores

    O relatório revela que os efeitos do desmatamento ameaçam também outros setores,além da energia:

    • Abastecimento de água: sistemas críticos, como o Cantareira (SP), estão no caminho dos rios voadores e podem ter sua oferta comprometida especialmente em períodos de seca.
    • Agropecuária: dependente da chuva, a produção de soja, milho e cana-de-açúcar sofre riscos crescentes; as perdas decorrentes das secas somaram R$ 186 bilhões entre 2013 e 2022.
    • Incêndios: a redução das chuvas diminui a resiliência da vegetação, ampliando os riscos de queimadas que já afetaram mais de 30 milhões de hectares em 2024.
    • Hidrovias: estiagens recordes têm prejudicado o transporte de grãos, potencialmente impactando a competitividade do Brasil no comércio internacional.

    Floresta em pé como estratégia nacional

    Os pesquisadores alertam que, até 2050, até 47% da floresta pode sofrer distúrbios que comprometeriam de forma irreversível a oferta de serviços ecossistêmicos. “A proteção da Amazônia não é apenas uma pauta ambiental, mas um imperativo estratégico para a segurança energética, hídrica e alimentar do Brasil”, afirmam os autores Gustavo Pinto e João Pedro Arbache, do CPI/PUC-Rio

    O estudo reforça que políticas públicas de combate ao desmatamento — como o PPCDAm, responsável por reduzir a taxa de destruição da floresta em cinco vezes entre 2004 e 2014 — são fundamentais para manter o país em rota de crescimento sustentável.

  • Biotecnologia da Biodiversidade: Desafios Regulatórios e Institucionais

    Biotecnologia da Biodiversidade: Desafios Regulatórios e Institucionais

    O Brasil detém a maior biodiversidade do planeta e, na Amazônia, esse patrimônio assume importância estratégica. No entanto, transformar essa riqueza natural em inovação de alto valor agregado ainda é um desafio. Um novo estudo do CPI/PUC-Rio e do Amazônia 2030, assinado por Cristina Leme Lopes, Ana Flávia Corleto e Joana Chiavari, revela que a biotecnologia da biodiversidade pode fortalecer cadeias produtivas, gerar valor econômico e impulsionar a conservação, mas enfrenta barreiras regulatórias e institucionais que limitam seu desenvolvimento.

    As autoras destacam que o Marco Legal de Acesso e Repartição de Benefícios da Biodiversidade (Lei da Biodiversidade) concentra as principais dificuldades para o setor. Mais complexo que outros marcos aplicáveis à biotecnologia, o sistema brasileiro enfrenta gargalos de governança, implementação e segurança jurídica.

    Entre as mensagens centrais do estudo, estão:

    • Repartição de benefícios abaixo das expectativas: embora concebido para apoiar comunidades tradicionais e a conservação, o mecanismo ainda não se consolidou como fonte relevante de recursos.

    • Desafios regulatórios que afastam inovação: a complexidade do SisGen, a demora na aprovação de acordos e as indefinições sobre informações genéticas digitais (DSI) aumentam a insegurança jurídica. Alterações recentes e potenciais mudanças regulatórias reforçam a percepção de instabilidade.

    • Exigências adicionais que comprometem investimento e cooperação internacional: a ausência do Brasil no ABS Clearing-House do Protocolo de Nagoia e a necessidade de autorizações extras para envio de amostras ao exterior dificultam colaborações científicas e reduzem a atratividade para empresas estrangeiras.

    O estudo ressalta ainda que a biotecnologia da biodiversidade tem aplicações em setores sob responsabilidade de diferentes ministérios, mas as políticas públicas seguem lógicas fragmentadas, com pouca coordenação institucional.

    Apesar de avanços recentes na agenda da bioeconomia — que já contempla áreas como sociobiodiversidade e biomassa —, a biotecnologia da biodiversidade permanece subvalorizada e pouco reconhecida como prioridade estratégica. Essa lacuna é particularmente relevante na Amazônia, onde a atividade poderia contribuir para diversificar a economia e reduzir pressões sobre a floresta.

    Nesse contexto, a formulação do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio) representa uma oportunidade para consolidar a biotecnologia da biodiversidade como pilar central da estratégia brasileira de bioeconomia e ampliar sua inserção em políticas nacionais.

  • Fatos da Amazônia – Edição COP 30

    Fatos da Amazônia – Edição COP 30

    O Fatos da Amazônia 2025 – Especial COP30 é uma compilação inédita que concentra alguns dos principais achados do Projeto Amazônia 2030, organizada especialmente para marcar a realização da Conferência do Clima da ONU em Belém do Pará. Mais do que um retrato estatístico, a edição busca servir como guia para quem deseja compreender a heterogeneidade e a riqueza da Amazônia, reunindo dados fundamentais sobre território, população, meio ambiente e economia da região em um momento decisivo para o futuro do planeta.

    A COP30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas) reunirá líderes de quase 200 países, além de cientistas e representantes da sociedade civil, para discutir compromissos e ações contra a crise climática. Pela primeira vez, o evento acontece no coração da Amazônia, reforçando a centralidade do bioma para o futuro do planeta.

     

    Principais destaques 

    • Território e população: a Amazônia Legal cobre 59% do Brasil, com 5 milhões de km² e 26,7 milhões de habitantes (13% da população nacional) distribuídos em 773 municípios.

     

    • Cinco Amazônias: o relatório classifica a região em cinco zonas distintas — florestal (39% da área), sob pressão (29%), desmatada (11%), não florestal/cerrado (21%) e urbana (76% da população).

     

    • Desmatamento: em queda desde 2021, mas ainda crítico. O acumulado chegou a 857 mil km² até 2024, o que corresponde a 20,6% da cobertura florestal original. Estados como Maranhão (65,9%), Mato Grosso (35,3%) e Pará (26,4%) perderam parcelas expressivas de sua vegetação.

     

    • Queimadas: em 2024, a região registrou 192,7 mil focos de calor, o maior número desde 2014 — aumento de 52% em relação a 2023, puxado principalmente por Mato Grosso (+133%) e Roraima (+102%).

     

    • Emissões: a Amazônia Legal respondeu por 1,1 bilhão de toneladas de CO₂ em 2023, quase metade das emissões brasileiras. As emissões líquidas foram de 602 milhões de toneladas, equivalentes a 36% das emissões líquidas nacionais.

     

    • Bioeconomia: os 10 principais produtos da região movimentaram bilhões em 2023. O açaí liderou com R$ 8,9 bilhões, seguido por café canephora (R$ 2,5 bi), banana (R$ 2,4 bi), cacau (R$ 2,1 bi) e castanha-do-brasil (R$ 172 mi).

       

     

    • Pobreza: em 2024, cerca de 10 milhões de pessoas estavam em situação de pobreza na região, o equivalente a 36% da população da Amazônia Legal, acima da média nacional.

       

     

    • Violência: a taxa de homicídios segue elevada, alcançando 32,9 por 100 mil habitantes em 2023, ainda acima da média nacional.

    O estudo mostra que a Amazônia não é uma realidade única, mas sim múltiplas Amazônias que combinam diferentes níveis de conservação, uso da terra e condições sociais. Reconhecer essa diversidade é essencial para formular políticas que conciliem conservação ambiental, inclusão social e prosperidade econômica.

    O Fatos da Amazônia Edição COP30 contou com o apoio do Fundo Vale, Instituto Itaúsa, Instituto Clima e Sociedade (iCS) e da Gordon and Betty Moore Foundation.

  • Restauração Florestal na Amazônia: Qual é o Papel das Políticas Públicas Estaduais?

    Restauração Florestal na Amazônia: Qual é o Papel das Políticas Públicas Estaduais?

    A restauração florestal na Amazônia pode ser uma das chaves para conciliar conservação ambiental, desenvolvimento econômico e enfrentamento das mudanças climáticas. Com milhões de hectares desmatados e um alto potencial de regeneração natural, o bioma reúne condições únicas para liderar uma nova economia de base florestal, gerando renda com produtos nativos e créditos de carbono.

    Mas, afinal, como os estados da Amazônia estão contribuindo para transformar esse potencial em realidade?

    Essa foi a pergunta que guiou a nova pesquisa realizada por especialistas do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio) em parceria com o projeto Amazônia 2030. O estudo analisou o conjunto de leis, programas e instrumentos relacionados à restauração florestal nos sete estados onde o bioma amazônico é predominante: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima.

    Principais achados:

    • Protagonismo regional: Estados como Pará e Mato Grosso têm se destacado ao antecipar políticas federais e inovar em programas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e REDD+.

    • Foco no restauro obrigatório: A maioria das políticas estaduais ainda está concentrada na exigência legal de recuperação de áreas degradadas, com pouca atenção e incentivos para o restauro voluntário.

    • Mercado de carbono subaproveitado: Exceto pelo Pará, os estados ainda não incorporaram plenamente o mercado de carbono como estratégia de financiamento da restauração.

    • Silvicultura de espécies nativas emperrada: A atividade, considerada estratégica para unir recuperação ambiental e geração de renda, enfrenta entraves regulatórios e falta de políticas específicas.

    • Fragmentação institucional: Apenas o Pará possui um plano abrangente e integrado de recuperação da vegetação nativa. Nos demais estados, as ações de restauração estão pulverizadas em diferentes políticas, sem articulação efetiva.

    “O protagonismo dos estados é evidente e necessário, mas ainda há desafios importantes de governança, integração e financiamento”, avalia a equipe do estudo. A pesquisa ressalta que um arcabouço regulatório claro, coordenado e voltado para soluções de larga escala é essencial para atrair investimentos, gerar segurança jurídica e impulsionar a economia florestal da região.

    Pará lidera entre os estados
    O Pará é destaque no levantamento: criou o primeiro plano estadual de recuperação da vegetação nativa (PRVN), instituiu concessões florestais para restauração e é o único estado a reconhecer a regeneração natural como estratégia prioritária. O Acre também avança, com a elaboração do seu plano em curso.

    Destravando o futuro
    Para que a restauração florestal decole na Amazônia, o estudo aponta três caminhos urgentes:

    1. Harmonizar a regulação entre os estados;
    2. Ampliar os incentivos para o restauro voluntário e produtivo;
    3. Conectar a agenda de restauração com os mecanismos de mercado, como os créditos de carbono.

    O relatório completo detalha as políticas em vigor, suas limitações e oportunidades para acelerar a recuperação florestal na região.

  • Índice de Progresso Social – Brasil – 2025

    Índice de Progresso Social – Brasil – 2025

    A segunda edição do Índice de Progresso Social, de todos os 5.570 municípios brasileiros com base em 57 indicadores sociais e ambientais. O relatório mostra que apesar de avanços graduais, os desafios para garantir qualidade de vida à população brasileira permanecem grandes e desiguais no país. 

    O IPS também avalia o desempenho médio dos estados brasileiros. São Paulo, Santa Catarina e Paraná foram os mais bem colocados. Na outra ponta, Pará, Maranhão e Amapá apresentaram os piores resultados, evidenciando as desigualdades estruturais e históricas da Amazônia Legal.

    De modo geral, as capitais brasileiras apresentaram desempenho relativamente melhor no IPS, representado pelos tons de azul no mapa, com exceção de Maceió (AL), Porto Velho (RO) e Macapá (AP), que registraram notas mais baixas. Entre as capitais com melhores resultados, destacam-se Curitiba, Campo Grande, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte.

    O índice nacional de 2025 aponta uma pontuação média de 61,96 (numa escala de 0 a 100). A melhor avaliação ficou com a dimensão Necessidades Humanas Básicas, com média 74,79, seguida de Fundamentos do Bem-Estar (65,02). Já a dimensão Oportunidades, que mede inclusão social, acesso à educação superior e respeito a direitos, teve o pior desempenho: 46,07.

    Entre os componentes do índice, Moradia obteve a maior média nacional (87,74), enquanto Direitos Individuais (32,41), Educação Superior (47,39) e Inclusão Social (47,21) ficaram entre os mais baixos. Os piores indicadores estão concentrados nas regiões Norte e Nordeste, com destaque negativo para o componente Qualidade do Meio Ambiente na Amazônia Legal, impactado pelo desmatamento e emissões de gases de efeito estufa. Curiosamente, o relatório também aponta que regiões mais desenvolvidas economicamente, como Sul e Sudeste, apresentam fragilidades em Saúde e Bem-Estar, com altas taxas de obesidade, suicídios e consumo de alimentos ultraprocessados.

    Figura 1. Mapa dos resultados do IPS Brasil 2025

    No site do IPS Brasil, é possível analisar o perfil detalhado de todos os municípios, identificando em quais áreas cada um se destaca e onde há necessidade de melhorias. A plataforma também permite comparar municípios que estão na mesma faixa de PIB per capita, área e população, oferecendo uma ferramenta poderosa para gestores públicos, investidores sociais e a sociedade em geral entenderem melhor as dinâmicas de desenvolvimento local e planejarem ações mais eficazes para promover o progresso social e ambiental.

    Acesse o site do IPS e confira o perfil de todos os municípios brasileiros: ipsbrasil.org.br

    O que o IPS Brasil 2025 avalia
    O Progresso Social foi definido por um grupo de especialistas acadêmicos e sintetizado pelo SPI como “a capacidade da sociedade em satisfazer as necessidades humanas básicas, estabelecer as estruturas que garantam qualidade de vida aos cidadãos e dar oportunidades para que todos os indivíduos possam atingir seu potencial máximo”.
    A partir desse conceito, o IPS Brasil 2025 é formulado com base em 57 indicadores divididos em três dimensões: Necessidades Humanas Básicas; Fundamentos do Bem-Estar e Oportunidades.

    Desenvolvido através de uma parceria entre o Imazon, Fundação Avina, iniciativa Amazônia 2030, Anattá, Centro de Empreendedorismo da Amazônia e Social Progress Imperative., o IPS Brasil é baseado exclusivamente em dados públicos e atualizado anualmente. A ferramenta permite acompanhar tendências e medir a efetividade de políticas públicas em tempo real.

    A construção do IPS Brasil 2025 segue uma metodologia rigorosa baseada no padrão internacional do índice. A escolha dos 57 indicadores usados no cálculo obedece a critérios como relevância social ou ambiental, foco em resultados, uso de dados públicos e confiáveis, atualizados e disponíveis para, pelo menos, 95% dos municípios do país. Cada dado passa por uma modelagem estatística detalhada, que inclui normalização, verificação de qualidade, definição de valores de referência e aplicação de pesos definidos por Análise de Componentes Principais (ACP). O resultado final é um índice que varia de zero (pior cenário) a 100 (melhor cenário), refletindo a média simples dos desempenhos nas três dimensões do progresso social. As fontes utilizadas vão de bases consolidadas como DataSUS, CadÚnico e Anatel até iniciativas como o MapBiomas e o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde.

    Diferentemente de índices econômicos como o PIB (Produto Interno Bruto) e IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), o IPS mede diretamente resultados sociais e ambientais, funcionando como bússola para gestores públicos, investidores sociais e organizações da sociedade civil. “O IPS permite visualizar desigualdades que não são explicadas apenas por indicadores econômicos. Municípios com PIB semelhante apresentam, muitas vezes, desempenhos muito distintos no índice, o que reforça a importância de políticas públicas voltadas ao bem-estar social de forma integrada. Com o IPS, é possível identificar onde as políticas públicas estão funcionando e onde é necessário intervir com mais urgência. Ele transforma dados complexos em um retrato claro e comparável entre municípios e estados”, afirma Melissa Wilm, coordenadora do IPS Brasil.

    A edição 2025 traz uma atualização importante no seu conjunto de dados: foram incluídos novos indicadores que enriquecem o diagnóstico territorial: Consumo de Alimentos Ultraprocessados, Resposta ao Benefício Previdenciário, Resposta a Processos Familiares, Índice de Vulnerabilidade das Famílias e Famílias em Situação de Rua.
    Principais resultados

    A produção do IPS Brasil 2025 contou com apoio técnico e institucional de uma ampla rede de instituições comprometidas com o desenvolvimento sustentável do país. Contribuíram para essa edição Centro de Empreendedorismo da Amazônia (CEA), Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Eneva, especialistas independentes, Fundação Itaú, Fundação Roberto Marinho, Hydro, Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Instituto Floresta Viva, Instituto Igarapé, Instituto Itaúsa, Instituto Soberania e Clima (iCS), MapBiomas Brasil, Ministério Público Federal (MPF), Not Another Boring Company, O Mundo que Queremos, Projeto Saúde e Alegria, Social Progress Imperative, Universidade de São Paulo (USP) e Vale.

  • Fatos da Amazônia – 2025

    Fatos da Amazônia – 2025

    O estudo Fatos da Amazônia 2025 apresenta um retrato abrangente e atualizado da Amazônia Legal com base em dados públicos e confiáveis sobre o território, a população, o meio ambiente e a economia da região. A publicação mostra que a Amazônia Legal concentra 59% do território brasileiro, abriga 26,7 milhões de habitantes e enfrenta desafios urgentes ligados ao desmatamento, pobreza, urbanização precária e violência.

    Segundo o estudo, o desmatamento acumulado até 2024 já atinge 857 mil km², ou 21% da cobertura florestal original do Bioma Amazônia. No mesmo período, foram registrados cerca de 2 milhões de focos de calor, com destaque para os estados do Pará e Mato Grosso, que lideram os registros de queimadas.

    As emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE) da região ultrapassaram 600 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2022.

    A publicação também destaca o peso da Amazônia na produção de alimentos e produtos da bioeconomia. Em 2023, a produção de açaí gerou R$ 8,9 bilhões em valor, seguida pelo cacau (R$ 2,1 bilhões) e castanha-do-brasil (R$ 173 milhões). No mesmo ano, o rebanho bovino na região chegou a 106,7 milhões de cabeças, e as pastagens ocuparam 76,8 milhões de hectares — mais do que o dobro da área plantada com agricultura.

    Problemas ambientais persistem, como a mineração ilegal, que já ocupa 246 mil hectares, com forte presença em áreas sensíveis como a Terra Indígena Yanomami. Além disso, a superfície de água da região encolheu quase 9% entre 2022 e 2024, impactada por eventos extremos como secas severas.

    Em termos sociais, a Amazônia Legal concentra 36,2% da população em situação de pobreza, acima da média nacional. Embora a maioria da população (76%) viva em cidades, o acesso a infraestrutura básica ainda é limitado: apenas 19,3% das moradias cadastradas no CadÚnico contam com rede de esgoto, contra 60,2% no restante do Brasil.

    A violência também é uma preocupação crescente. A taxa de homicídios na região chegou a 32,9 por 100 mil habitantes em 2023, permanecendo acima da média nacional, mesmo após leve recuo em relação ao pico de 2017.

    O relatório propõe que, diante da diversidade e complexidade amazônica, é necessário compreender as múltiplas “Amazônias” que revelam diferentes níveis de conservação e uso da terra.

  • A Amazônia no Novo PAC: Recomendações Para Impulsionar a Infraestrutura Sustentável

    A Amazônia no Novo PAC: Recomendações Para Impulsionar a Infraestrutura Sustentável

    O governo federal lançou, em agosto de 2023, a nova edição do Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), com a promessa de impulsionar a economia nacional por meio de investimentos em infraestrutura alinhados ao Plano de Transformação Ecológica. No entanto, uma nova análise do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio), em colaboração com o projeto Amazônia 2030, alerta que o programa corre o risco de repetir erros do passado e ampliar desigualdades se não incorporar uma visão estratégica e específica para a Amazônia.

    Produzido pelos pesquisadores Joana Chiavari (Diretora de Pesquisa, CPI/PUC-Rio), Gabriel Cozendey e Luiza Antonaccio (Analistas Legais Seniores, CPI/PUC-Rio), o estudo avalia como os investimentos previstos no Novo PAC impactam a região amazônica em quatro setores cruciais: logística, conectividade, saneamento e energia.

    A pesquisa aponta que, apesar da ampla presença de projetos na Amazônia Legal, a distribuição dos investimentos não reflete as reais necessidades da população local. Estados como o Acre e o Amapá, que figuram entre os piores indicadores de infraestrutura, são pouco contemplados pelo programa. Além disso, há uma desconexão entre o Novo PAC e as metas nacionais de redução do desmatamento previstas no Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm).

    Conforme o estudo, o Novo PAC ainda repete uma lógica de investimentos pensada fora da Amazônia e para fora da Amazônia. “É preciso desenvolver infraestrutura que respeite a diversidade regional e que contribua para melhorar a vida da população local” aponta a análise.

    O estudo também critica a inclusão de projetos de alto impacto ambiental, como a Ferrogrão e o asfaltamento da BR-319, em áreas de floresta preservada, sem considerar alternativas menos danosas e mais alinhadas ao uso eficiente da terra e à promoção da bioeconomia. Os autores defendem que os planos de longo prazo, como o Plano Nacional de Logística (PNL), passem a incorporar critérios socioambientais e uma visão estratégica para a região.

    Entre as recomendações apresentadas estão a criação de um plano de desenvolvimento específico para a Amazônia, com soluções sob medida para os diferentes contextos da região — como a Amazônia Florestal, Desmatada e Sob Pressão —, e a maior transparência e qualificação dos processos de tomada de decisão dos investimentos públicos.

    Segundo os pesquisadores, alinhar o Novo PAC às metas de sustentabilidade e às necessidades reais da Amazônia não é apenas uma questão de justiça social e ambiental, mas uma condição fundamental para o sucesso do programa no longo prazo.