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  • Amazônia em Foco: Como Redirecionar Recursos Públicos para o Desenvolvimento Sustentável da Região

    Amazônia em Foco: Como Redirecionar Recursos Públicos para o Desenvolvimento Sustentável da Região

    A Amazônia Legal recebe bilhões de reais por meio de bancos públicos, fundos constitucionais, crédito subsidiado, incentivos fiscais e investimentos em infraestrutura, mas boa parte desses recursos ainda é direcionada para atividades de baixa produtividade, expansão da fronteira e ações de curto prazo. Um novo estudo do Climate Policy Initiative/PUC-Rio (CPI/PUC-Rio) e do projeto Amazônia 2030 defende uma revisão desse modelo, com maior direcionamento dos recursos públicos para atividades capazes de combinar desenvolvimento econômico, melhoria das condições sociais e conservação da floresta.

    O Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO), principal instrumento de financiamento da política de desenvolvimento regional na Amazônia, contratou mais de R$ 70 bilhões entre 2020 e 2025, mas os critérios atuais de priorização reduzem sua capacidade de direcionar recursos para produtores de menor porte, regiões com maior restrição de crédito e atividades mais sustentáveis. Ao mesmo tempo, entre 2020 e 2024, 36% do crédito rural subsidiado foi destinado a propriedades com desmatamento posterior a 2009 e, no Banco da Amazônia (Basa), mais de 70% do crédito subsidiado está associado a propriedades com desmatamento.

    Os dados fazem parte do estudo “Amazônia em Foco: Como Redirecionar Recursos Públicos para o Desenvolvimento Sustentável da Região”, do CPI/PUC-Rio e do projeto Amazônia 2030, assinado por Juliano Assunção, Paulo Barreto, Salo Coslovsky, Beto Veríssimo e Manuele Lima. O relatório analisa instrumentos públicos de financiamento e incentivos econômicos destinados à Amazônia e propõe mudanças para que esses recursos contribuam para aumentar a produtividade, recuperar áreas degradadas, fortalecer atividades de base florestal e melhorar as condições sociais e econômicas da região.

    Entre as recomendações estão restringir o acesso ao crédito subsidiado para produtores que desmatam e, no caso da pecuária, condicionar o financiamento à adoção de assistência técnica, recuperação de áreas degradadas e rastreabilidade, além de concentrar o crédito nas áreas consolidadas e próximas aos frigoríficos. Para o FNO, os pesquisadores defendem a revisão dos critérios de seleção para concentrar os recursos nos produtores de menor porte e ampliar a execução de linhas destinadas a atividades mais sustentáveis, como o FNO-ABC, voltado à agricultura de baixo carbono.

    A análise parte da avaliação de que a discussão sobre o desenvolvimento da Amazônia não deve se limitar à necessidade de ampliar a presença do Estado. Bancos públicos, fundos constitucionais, crédito subsidiado, incentivos fiscais e investimentos em infraestrutura já mobilizam recursos relevantes na região, mas parte desses instrumentos continua associada a um modelo baseado na expansão da fronteira, em atividades de baixa produtividade e em investimentos com pouco impacto sobre a governança territorial e o desenvolvimento de longo prazo.

    A necessidade de rever essa estratégia aparece nos indicadores econômicos, sociais e ambientais da região. Em 2024, a Amazônia Legal respondeu por pouco mais de 9% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e por cerca de 44% das emissões nacionais de gases de efeito estufa, principalmente em razão do desmatamento e das queimadas. Ao mesmo tempo, seus cerca de 28 milhões de habitantes convivem com indicadores de renda, infraestrutura e mercado de trabalho inferiores aos registrados no restante do país.

    Em 2025, por exemplo, 37% da população da Amazônia estava em situação de pobreza, ante 23% no restante do Brasil, enquanto a taxa de informalidade alcançava 47%, contra 39%. O PIB real per capita da região era de R$ 39 mil em 2023, comparado a R$ 56 mil no restante do país. Para os autores, esses indicadores mostram que o volume de políticas e recursos destinados à Amazônia não tem sido suficiente para reduzir as diferenças de desenvolvimento em relação às demais regiões brasileiras.

    Floresta tem papel estratégico para a economia brasileira

    O estudo destaca que a conservação da floresta deve ser incorporada à estratégia econômica do país porque os serviços ambientais prestados pela Amazônia sustentam atividades produtivas dentro e fora da região. A evapotranspiração da floresta contribui para os chamados “rios voadores”, que influenciam o regime de chuvas em áreas agrícolas, reservatórios hidrelétricos, sistemas de abastecimento urbano e hidrovias.

    Os impactos econômicos dessa relação já podem ser dimensionados. Os rios voadores passam por regiões onde estão 17 das 20 maiores hidrelétricas brasileiras, e as usinas de Itaipu e Belo Monte perdem juntas cerca de 3.700 GWh de potencial de geração por ano. Na agropecuária, a escassez hídrica provocou perdas estimadas em R$ 186 bilhões na agricultura e R$ 64 bilhões na pecuária entre 2013 e 2022. A vulnerabilidade é ampliada pelo fato de apenas 13% da área agrícola brasileira contar com irrigação.

    Áreas já abertas podem sustentar aumento da produção

    Na agropecuária, o relatório defende que os recursos públicos sejam utilizados prioritariamente para elevar a produtividade das áreas já abertas, recuperar terras degradadas e ampliar a rastreabilidade, em vez de estimular a expansão da produção sobre novas áreas de floresta. Desde 1975, aproximadamente 86 milhões de hectares de floresta foram perdidos na Amazônia, e parte dessas áreas encontra-se atualmente degradada, abandonada ou subutilizada.

    O relatório também aponta oportunidades na produção de bens compatíveis com a floresta, como açaí, cacau, castanha-do-brasil, pimenta-do-reino, peixes e frutas tropicais. O mercado internacional desses produtos movimenta quase US$ 288 bilhões por ano, mas a Amazônia brasileira captura menos de 0,3% desse valor, indicando espaço para políticas voltadas à produtividade, inovação, promoção comercial e fortalecimento das cadeias produtivas.

    Incentivos fiscais e royalties devem deixar benefícios permanentes

    A análise também aborda a Zona Franca de Manaus (ZFM) e propõe maior conexão dos incentivos fiscais com a economia regional. Como o modelo foi prorrogado até 2073, os autores recomendam associar os benefícios à geração de empregos qualificados, formação profissional, infraestrutura, desenvolvimento da bioeconomia, tecnologia e serviços especializados, além de estabelecer contrapartidas relacionadas à produtividade e à inserção de fornecedores locais.

    No caso da mineração, a recomendação é utilizar os royalties para financiar investimentos capazes de permanecer nos municípios após o esgotamento dos recursos minerais. Em 2025, a Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) arrecadou cerca de R$ 3,4 bilhões na Amazônia Legal, dos quais mais de 92% estavam concentrados no Pará. O estudo propõe priorizar infraestrutura, saúde, educação, planejamento de longo prazo e diversificação econômica, reduzindo a dependência das economias locais em relação à atividade mineral.

    O estudo conclui que o Brasil já dispõe de instrumentos financeiros e institucionais capazes de contribuir para uma mudança na trajetória de desenvolvimento da Amazônia. A proposta é redirecionar bancos públicos, fundos constitucionais, crédito e incentivos fiscais para atividades mais produtivas nas áreas já abertas, restauração, produção agroflorestal e atividades de base florestal, combinando essas medidas com investimentos em infraestrutura urbana, qualificação profissional e segurança territorial.

    Para os autores, reduzir o desmatamento continua sendo uma condição necessária, mas precisa ser acompanhado por uma estratégia econômica que permita transformar as áreas já desmatadas, a floresta remanescente e a força de trabalho da região em fontes de produtividade, renda e emprego, de forma a aproximar desenvolvimento econômico, melhoria das condições sociais e conservação ambiental.

  • Agricultura na Amazônia Legal: Condições de Produtividade, Riscos Climáticos e Propostas para Produzir Melhor em Áreas já Abertas

    Agricultura na Amazônia Legal: Condições de Produtividade, Riscos Climáticos e Propostas para Produzir Melhor em Áreas já Abertas

    A Amazônia Legal pode ampliar sua produção agropecuária sem a necessidade de converter novas áreas de floresta. Essa é a principal conclusão do estudo “Agricultura na Amazônia Legal: condições de produtividade, riscos climáticos e propostas para produzir melhor em áreas já abertas”, de Paulo Barreto, Ritaumaria Pereira e Gabriel Salles Barreto, publicado pelo Amazônia 2030.

    O trabalho demonstra que o principal desafio da agricultura amazônica não é a falta de terras disponíveis, mas a baixa produtividade em grande parte das áreas já abertas. Ao mesmo tempo, os produtores enfrentam um cenário cada vez mais complexo, marcado pelo aumento das secas, incêndios e outros eventos climáticos extremos, além de exigências ambientais mais rigorosas para acesso ao crédito rural e aos mercados internacionais.

    Segundo os autores, esses desafios podem ser enfrentados sem expandir a fronteira agrícola. A experiência de diferentes regiões da Amazônia mostra que, quando produtores têm acesso simultâneo à pesquisa, assistência técnica, crédito, infraestrutura, armazenagem e mercados consumidores, é possível alcançar níveis de produtividade comparáveis aos das regiões mais produtivas do país. Casos como a produção de grãos em Mato Grosso e o aumento da produtividade da mandioca em Rondônia demonstram esse potencial.

    Apesar dessas experiências, a maior parte dos agricultores da Amazônia ainda enfrenta limitações para produzir mais. Apenas 10% dos estabelecimentos rurais da região Norte recebem assistência técnica, enquanto somente 9% dos agricultores familiares conseguem acessar crédito rural. A distância dos mercados consumidores, a deficiência logística e as dificuldades para participar de programas de compras públicas também restringem o desenvolvimento da produção regional.

    O estudo também chama atenção para o impacto crescente das mudanças climáticas sobre a agricultura amazônica. Entre 2021 e 2024, os prejuízos agropecuários registrados na Amazônia Legal alcançaram média anual próxima de R$ 6 bilhões. Secas prolongadas reduzem a produção e dificultam a navegação dos rios; cheias comprometem o transporte e a comercialização; incêndios afetam lavouras, pastagens e a saúde da população. Além disso, o desmatamento reduz a reciclagem de umidade, diminui as chuvas e aumenta os riscos para a própria atividade agropecuária.

    Os pesquisadores destacam ainda que as exigências ambientais passaram a influenciar diretamente a competitividade do setor. Restrições ao crédito rural para imóveis com irregularidades ambientais e novas regras internacionais de rastreabilidade tornam cada vez mais importante conciliar aumento da produtividade com conservação da floresta. Ao mesmo tempo, estudos mostram que a expansão da produção prevista para os próximos anos pode ocorrer nas áreas já desmatadas, especialmente por meio da recuperação de pastagens degradadas.

    Cinco recomendações para uma agricultura mais produtiva e resiliente

    Com base nas evidências reunidas, o estudo apresenta cinco propostas para orientar políticas públicas e investimentos na Amazônia Legal:

    • criar fontes estáveis de financiamento para pesquisa, assistência técnica e adaptação às mudanças climáticas;
    • fortalecer a resiliência dos pequenos produtores por meio de compras públicas, assistência técnica e infraestrutura local;
    • priorizar investimentos em infraestrutura que reduzam custos de produção sem estimular novos desmatamentos;
    • ampliar a pesquisa voltada à adaptação da agricultura amazônica aos riscos climáticos; e
    • tratar a floresta em pé como uma infraestrutura essencial para manter o regime de chuvas, reduzir riscos climáticos e sustentar a produção agropecuária.

    Para os autores, o fortalecimento da agricultura amazônica depende menos da criação de novos instrumentos e mais da coordenação das políticas já existentes. Crédito, pesquisa, assistência técnica, infraestrutura, compras públicas e conservação da floresta produzem melhores resultados quando são implementados de forma integrada. Essa combinação pode elevar a produtividade, aumentar a renda dos produtores, fortalecer a segurança alimentar e reduzir a pressão por novos desmatamentos na Amazônia.

  • Rematamento Produtivo, Conservação e Desenvolvimento Econômico na Amazônia Brasileira

    Rematamento Produtivo, Conservação e Desenvolvimento Econômico na Amazônia Brasileira

    A Amazônia enfrenta um paradoxo. Ao mesmo tempo em que abriga um dos ecossistemas mais importantes do planeta para a estabilidade climática global, a região convive com indicadores de emprego, renda e qualidade de vida inferiores aos do restante do Brasil. Diante da falta de oportunidades econômicas, cresce o apoio local a iniciativas que prometem desenvolvimento, mesmo quando associadas a custos ambientais.

    É a partir desse diagnóstico que o estudo “Rematamento Produtivo, Conservação e Desenvolvimento Econômico na Amazônia Brasileira”, do pesquisador Salo Coslovsky, propõe uma nova estratégia para a região: o rematamento produtivo, conceito que busca transformar áreas já desmatadas e pastagens degradadas em sistemas produtivos baseados em espécies perenes, capazes de gerar empregos, renda e conservar recursos naturais.

    Segundo o estudo, o debate amazônico tem sido marcado por um descompasso crescente. De um lado, a sociobioeconomia contribui para a conservação e a valorização de comunidades locais, mas enfrenta dificuldades para alcançar escala. De outro, o financiamento climático tem ampliado os recursos destinados à proteção ambiental, mas nem sempre prioriza a geração de empregos e oportunidades econômicas para a população amazônica.

    “O resultado é uma guerra de desgaste que não entrega plenamente nem conservação ambiental nem prosperidade econômica”, apontam os autores.

    A proposta do rematamento produtivo parte da premissa de que a Amazônia já possui os elementos necessários para impulsionar uma nova economia baseada na recuperação produtiva de áreas abertas. O conceito engloba atividades como sistemas agroflorestais, reflorestamento para produção de fibras, madeira e biomassa, restauração florestal remunerada por créditos de carbono e agricultura de alto valor agregado.

    Diferentemente das estratégias tradicionais de restauração, o rematamento tem como principal métrica de sucesso a geração de emprego e renda.

    Potencial econômico

    O estudo destaca que existe demanda consolidada para produtos associados ao rematamento. Consumidores no Brasil e no exterior movimentam cerca de US$ 230 bilhões por ano em mercados relacionados a produtos como cacau, açaí, óleo de palma e frutas tropicais. Além disso, empreendimentos sediados na Amazônia já movimentam aproximadamente US$ 7,2 bilhões anuais na produção e comercialização dessas mercadorias.

    Outro ponto ressaltado pelos pesquisadores é a disponibilidade de terras. A pesquisa aponta que a intensificação da pecuária em áreas já abertas poderia liberar cerca de 37 milhões de hectares para novos usos produtivos, sem prejuízo à produção de carne.

    O potencial de geração de empregos também é expressivo. Segundo estimativas citadas pelo estudo, a restauração de dois hectares pode gerar, em média, um emprego direto. Em sistemas produtivos permanentes, esse potencial tende a ser ainda maior.

    Conservação com prosperidade

    Além de apresentar uma proposta econômica, o estudo faz um alerta sobre a crescente distância entre as prioridades da população amazônica e a agenda ambiental tradicional.

    Os autores argumentam que grande parte dos moradores da região vê o desenvolvimento econômico como uma necessidade imediata, enquanto temas ambientais costumam aparecer em segundo plano diante de desafios como emprego, renda, segurança e acesso a serviços públicos.

    Nesse contexto, o rematamento produtivo é apresentado como uma estratégia capaz de aproximar objetivos frequentemente tratados como conflitantes: conservar a floresta e gerar prosperidade econômica.

    Quatro frentes para avançar

    Para transformar o rematamento em política pública de escala, o estudo propõe quatro grandes frentes de atuação:

    • Criação de um regime regulatório adaptado à realidade amazônica;

    • Construção de acordos comerciais favoráveis a produtos e serviços associados ao rematamento;

    • Mobilização do sistema nacional de inovação para aumentar produtividade e competitividade;

    • Fortalecimento das Mesas Executivas como espaços de coordenação entre setor público e iniciativa privada.

    Segundo os autores, a Amazônia já dispõe de instituições e instrumentos capazes de impulsionar essa agenda, como Embrapa, BNDES, Plano Safra, Finep, Fundo Clima e EcoInvest. O desafio passa agora por direcionar esses mecanismos para uma estratégia que combine conservação ambiental, competitividade econômica e geração de oportunidades para a população da região.

    “A trajetória recente tem custado à Amazônia sua floresta sem trazer prosperidade. O rematamento produtivo busca justamente romper esse ciclo”, conclui o estudo.

  • O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global – 2ª Edição

    O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global – 2ª Edição

    O agronegócio brasileiro, que já é responsável por grande área de conservação por meio de Reserva Legal, pode ser um dos principais vetores da expansão das florestas no país nas próximas décadas. Essa é uma das conclusões da segunda edição do estudo “O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global”, que traça um panorama completo sobre conservação, restauração florestal e silvicultura no país, com recomendações sobre financiamento e políticas públicas. O documento, que será apresentado este ano nas três Conferências das Partes da ONU (as COPs do Clima, da Biodiversidade e da Desertificação), defende que a produção agropecuária, a conservação e a expansão florestal não são agendas opostas, mas complementares.

    Segundo o estudo, além de parte importante da conservação ambiental brasileira estar dentro das propriedades rurais – por meio das áreas de Reserva Legal e das Áreas de Preservação Permanente (APPs) -, há um volume significativo de áreas privadas pouco aptas para a agricultura ou pecuária que podem ser destinadas à restauração florestal. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por florestas plantadas para a produção de bioenergia.

    A segunda edição da publicação foi realizada por uma coalizão de instituições formada por Instituto Arapyaú, Instituto Itaúsa, Agroicone, Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Instituto Clima e Sociedade (iCS), Imazon, Amazônia 2030, CEBDS e Uma Concertação para a Amazônia. Um dos objetivos é influenciar a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática) para que reconheça as florestas como centrais para remoção e armazenamento de carbono.

    A nova versão recebeu o apoio formal da presidência da COP30. O material também serviu de insumo para as contribuições técnicas das organizações para o Mapa do Caminho para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030, proposto pela presidência brasileira durante a COP30.

    A primeira edição do documento, lançado durante a conferência em Belém, revelou que o Brasil pode inverter a curva do desmatamento e expandir florestas até 2035, passando de 517 milhões para uma cobertura florestal de 525 milhões de hectares em dez anos. O avanço de 8 milhões de hectares, equivalente a duas vezes o território da Suíça, teria impacto direto na ampliação dos estoques de carbono e reforçaria o papel estratégico do país no equilíbrio climático global.

    Com uma visão abrangente das paisagens florestais do país, o documento tem o objetivo de mostrar os desafios e apontar os caminhos para que o Brasil reverta a perda histórica de cobertura vegetal e volte a ampliar suas florestas. A análise está organizada em três frentes (conservação, restauração florestal e silvicultura) e utiliza o conceito de “contínuo florestal”, adotado internacionalmente para compreender diferentes formas de uso e manejo das florestas ao longo do território. Nesse modelo, coexistem desde áreas preservadas e manejo sustentável até sistemas de restauração e florestas plantadas com espécies nativas e exóticas, voltadas à produção econômica. Segundo o estudo, todas essas modalidades podem gerar benefícios ambientais e econômicos, seja pela preservação da biodiversidade e dos recursos hídricos, seja pela captura de carbono e pelo abastecimento de cadeias produtivas.

    Nesta edição, os autores ampliaram o escopo da análise para incorporar informações sobre todos os biomas terrestres brasileiros. Além da Amazônia e da Mata Atlântica, o levantamento inclui Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa e Zona Costeira, pela importância dessas paisagens para remoção de carbono, proteção dos solos, regulação do ciclo hidrológico e conservação da biodiversidade.

    O relatório também destaca o papel estratégico dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na conservação das florestas brasileiras. Segundo dados do Imazon, as terras indígenas registraram apenas 3% de todo o desmatamento da Amazônia entre 2012 e 2024, o menor índice entre os diferentes tipos de territórios monitorados. Para os autores, fortalecer a governança territorial e ampliar o reconhecimento dessas populações como guardiãs das florestas será fundamental para avançar em conservação, restauração e produção sustentável.

    Agronegócio e transição florestal 

    A conexão entre o agronegócio e a transição florestal se dá por muitos caminhos. Parte importante da conservação ambiental brasileira, por exemplo, está dentro das propriedades rurais privadas, por meio das áreas de Reserva Legal e das Áreas de Preservação Permanente (APPs) previstas no Código Florestal. A publicação reforça que o Brasil já demonstrou capacidade de reduzir o desmatamento sem prejudicar a produção agropecuária. Entre 2004 e 2012, a taxa de desmatamento da Amazônia caiu 80%, enquanto a produção agropecuária da região praticamente dobrou. No período, mais de 55 milhões de hectares foram protegidos por unidades de conservação.

    As florestas também são essenciais para manter as condições climáticas que sustentam a agricultura brasileira, especialmente por meio dos chamados “rios voadores”, correntes de umidade que levam chuvas da Amazônia para o Centro-Sul do país. A publicação cita um estudo internacional divulgado em 2026 na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, segundo o qual a Amazônia Legal brasileira gera precipitações avaliadas em cerca de US$20 bilhões por ano para a agricultura.

    Outra oportunidade para a produção agropecuária está na restauração florestal. Segundo o documento, há um volume significativo de áreas privadas pouco aptas para a agricultura ou pecuária – como terrenos muito inclinados ou degradados – que podem ser destinadas à recuperação florestal. Além de gerar benefícios para o clima e para a biodiversidade, a restauração ajuda produtores rurais a regularizar passivos ambientais previstos no Código Florestal e ainda cria oportunidades de geração de créditos de carbono e novas fontes de renda no campo. Até 2050, de acordo com uma projeção feita pela WRI, a restauração pode gerar US$141 bilhões no Brasil, montante que inclui carbono, alimentos, biomateriais e bioenergia.

    Um levantamento preliminar conduzido pela Agroicone em parceria com o movimento Floraz, iniciativa empresarial criada para estruturar o setor de restauração florestal no Brasil, identificou milhões de hectares com potencial para projetos de restauro em áreas ligadas ao agronegócio, especialmente em pastagens degradadas. O estudo cruzou bases públicas e privadas de dados geoespaciais para mapear regiões aptas à recuperação com espécies nativas, considerando critérios como baixa aptidão agrícola, ausência de desmatamento recente, tamanho das propriedades e distância de polos industriais de madeira. Em um cenário mais conservador, o trabalho identificou cerca de 2,6 milhões de hectares aptos para restauração distribuídos em aproximadamente 8 mil propriedades rurais.

    O avanço do etanol de milho no Brasil tem aumentado, em algumas regiões, a demanda por biomassa florestal — especialmente eucalipto e pinus — utilizada para geração de energia térmica nas usinas, fortalecendo a interface entre silvicultura, bioenergia e estratégias de descarbonização. Na safra 2024/2025, a produção de etanol de milho representou 22% da produção total de etanol do país, alcançando 8,2 milhões de metros cúbicos. A previsão do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) é de que o volume chegue a 22,55 milhões de metros cúbicos até 2034/2035.

    Adaptação: florestas para além do carbono

    A agenda florestal global começa a passar por uma mudança de foco. Se nos últimos anos o debate esteve concentrado na captura de carbono e na geração de créditos negociáveis, agora os impactos físicos das mudanças climáticas colocam a adaptação no centro da discussão econômica. Os autores destacam que secas prolongadas, incêndios florestais, eventos extremos e crises hídricas já afetam diretamente cadeias produtivas, infraestrutura e finanças públicas. Por isso, as florestas passam a ser vistas como uma espécie de “infraestrutura natural”, capaz de reduzir riscos climáticos, regular regimes de chuva, proteger solos e dar estabilidade à produção agrícola, energética e logística. Segundo o documento, o valor econômico das florestas vai além do carbono e está cada vez mais ligado à capacidade de garantir resiliência e continuidade econômica em um cenário de maior instabilidade climática.

    Os autores alertam, no entanto, que o financiamento da agenda florestal ainda está muito aquém da necessidade global. Embora exista um maior reconhecimento sobre o papel estratégico das florestas para estabilidade climática, segurança hídrica e biodiversidade, o capital privado ainda se concentra em mercados considerados menos arriscados, deixando projetos florestais subfinanciados. A publicação aponta que ampliar o fluxo de recursos não será suficiente sem mudanças estruturais na forma de financiar a agenda florestal.

    O documento defende modelos de blended finance (que combinam recursos públicos e privados), além de mecanismos de “de-risking”, garantias financeiras e estruturas inspiradas em project finance para tornar os projetos mais atrativos aos investidores. Um destaque importante é a crescente atenção a fundos destinados a povos indígenas e comunidades locais, reconhecidos como atores centrais para resultados ambientais duradouros. O relatório aponta que o futuro do financiamento florestal dependerá da combinação inteligente desses instrumentos, e não da aposta em uma única solução.

  • Índice de Progresso Social – Brasil – 2026

    Índice de Progresso Social – Brasil – 2026

    Nascer, viver ou trabalhar em determinados municípios brasileiros ainda faz enorme diferença na qualidade de vida das pessoas. A edição 2026 do Índice de Progresso Social (IPS Brasil), que avaliou os 5.570 municípios do país com base em 57 indicadores sociais e ambientais, mostra que as desigualdades territoriais seguem sendo uma das principais marcas do desenvolvimento brasileiro. Pelo terceiro ano consecutivo, Gavião Peixoto (SP) alcançou a melhor classificação do país, com 73,10 pontos em uma escala de 0 a 100. Entre as capitais, a liderança ficou com Curitiba (PR), seguida por Brasília (DF), São Paulo (SP), Campo Grande (MS) e Belo Horizonte (MG).

    Figura 1. Mapa dos resultados do IPS Brasil 2026

    O Progresso Social é definido como a capacidade da sociedade de atender às necessidades humanas básicas, garantir qualidade de vida e ampliar oportunidades para que todos os indivíduos possam atingir seu potencial. Para calcular o índice, o IPS  leva em consideração 57 indicadores sociais ou ambientais, com foco em resultados, uso de dados públicos confiáveis, atualizados e com ampla cobertura territorial. “Ou seja, o IPS mede resultados e não volume de investimentos, ou riquezas, nos interessa saber se os serviços públicos estão, de fato”, sendo entregues aos cidadãos”, afirma Melissa Wilm, coordenadora do IPS Brasil.

    Entre os 20 melhores resultados, há forte predominância de cidades do Sudeste, especialmente do estado de São Paulo, com destaque para Gavião Peixoto (SP), que lidera o ranking nacional, seguido por municípios como Jundiaí (SP), Osvaldo Cruz (SP) e Pompéia (SP). Também aparecem cidades do Sul e Sudeste, como Curitiba (PR), Nova Lima (MG) e Maringá (PR), indicando maior concentração de altos níveis de progresso social nessas regiões. Na outra ponta, os 20 municípios com piores desempenhos concentram-se majoritariamente na região Norte, especialmente no estado do Pará, além de municípios de Roraima, Acre, Tocantins e Maranhão. Uiramutã (RR) ocupa a última posição do ranking, seguido por cidades como Jacareacanga (PA) e Alto Alegre (RR). 

    Capitais

    O ranking das capitais no IPS Brasil 2026 mostra diferenças relevantes nos níveis de qualidade de vida entre grandes centros urbanos do país. Curitiba (PR) lidera com 71,29 pontos, seguida por Brasília (DF), com 70,73, e São Paulo (SP), com 70,64. Na sequência aparecem Campo Grande (MS), com 69,77, e Belo Horizonte (MG), com 69,66. Na faixa intermediária, capitais como Rio de Janeiro (RJ) registram 67,00 pontos, Porto Alegre (RS) 66,94 e Natal (RN) 66,82. Já entre os menores resultados estão Salvador (BA), com 62,18, Maceió (AL), com 61,96, Macapá (AP), com 59,65, e Porto Velho (RO), com 58,59. A diferença entre a capital mais bem colocada e a última ultrapassa 12 pontos, evidenciando a variação nos níveis de progresso social entre as capitais brasileiras.

    “Apesar do bom desempenho das capitais, todas apresentam sérias dificuldades no componente de inclusão social, com altos índices de violência contra minorias, famílias em situação de rua e baixa paridade de gênero e raça nas câmaras municipais”,afirmou Melissa Wilm.

    Quadro 2. Pontuações das capitais no IPS Brasil 2026 e sua classificação entre os 9 grupos.

     

    Estados

    O IPS também também avalia o desempenho médio dos estados brasileiros. Distrito Federal, São Paulo e Santa Catarina foram os mais bem colocados. Na outra ponta, Pará, Maranhão e Acre. No ranking dos estados do IPS Brasil 2026, o Distrito Federal (1º), São Paulo (2º) e Santa Catarina (3º) apresentam as melhores pontuações, destacando-se no mapa com os níveis mais elevados de progresso social. Na outra ponta, os menores desempenhos concentram-se nas regiões Norte e Nordeste, com Acre (25º), Maranhão (26º) e Pará (27º) ocupando as últimas posições do ranking. Considerando as regiões geográficas, o Distrito Federal lidera no Centro-Oeste, São Paulo no Sudeste e Santa Catarina no Sul, enquanto a Paraíba se destaca no Nordeste e Tocantins apresenta o melhor desempenho entre os estados da região Norte.

    Figura 2. Resultados do IPS Brasil 2026 para as unidades federativas.

    Quadro 2. Pontuação do IPS Brasil 2026 para as unidades federativas

    Resultados gerais 

    O Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026 mostra que o país alcançou pontuação média de 63,40, em uma escala de 0 a 100, indicando uma evolução sutil em relação ao ano anterior. Entre as dimensões do índice, Necessidades Humanas Básicas apresentou o melhor desempenho, com média de 74,58, seguida por Fundamentos do Bem-estar, com 68,81. Já a dimensão Oportunidades registrou o menor resultado, com 46,82, mantendo o padrão observado desde as edições anteriores.

    Na análise dos 12 componentes que compõem o índice, Moradia obteve a maior pontuação média (87,95), seguida por Acesso à Informação e Comunicação (79,81), que também apresentou o maior avanço percentual em relação ao ano anterior. Em contrapartida, os piores resultados concentram-se na dimensão de Oportunidades, com destaque para Direitos Individuais (39,14), Acesso à Educação Superior (45,97) e Inclusão Social (47,22).

    O componente de Inclusão Social mantém trajetória de queda desde 2024, refletindo desafios persistentes como a baixa representatividade de mulheres e pessoas negras nas câmaras municipais e os altos índices de violência contra minorias. Ao mesmo tempo, parte da região Nordeste apresenta desempenhos relativamente melhores nesse tema.

    Os resultados também evidenciam desafios regionais. Estados da Amazônia Legal apresentam desempenho mais baixo no componente de Qualidade do Meio Ambiente, influenciados pelo desmatamento acumulado e pela concentração de emissões de gases de efeito estufa. Já o componente de Saúde e Bem-estar aponta fragilidades especialmente nas regiões Sul e Sudeste, associadas a taxas elevadas de obesidade, suicídio e mortalidade por doenças crônicas não transmissíveis.

    O estudo classifica os municípios brasileiros em nove grupos de desempenho, representados no mapa nacional por diferentes tonalidades. O Grupo 1, com melhores resultados, reúne 706 municípios, enquanto o Grupo 9, com piores desempenhos, concentra apenas 23 municípios. Entre 2025 e 2026, 754 municípios avançaram para grupos de melhor desempenho, enquanto o número de cidades nas faixas mais baixas foi reduzido em 500 municípios, indicando mudanças importantes na distribuição do progresso social no país.

    O grupo com melhores resultados concentra a maioria das capitais e grande parte dos municípios mais populosos, com mais de 200 mil habitantes. Já os municípios com piores desempenhos tendem a apresentar baixa densidade demográfica e maior distância dos grandes centros urbanos.

    O que o IPS Brasil 2026 avalia

    O Progresso Social é definido pelo Social Progress Imperative como a capacidade da sociedade de atender às necessidades humanas básicas, garantir qualidade de vida e ampliar oportunidades para que todos os indivíduos possam atingir seu potencial. Com base nesse conceito, o IPS Brasil 2026 é formulado a partir de 57 indicadores sociais e ambientais, organizados em três dimensões: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-estar e Oportunidades.

    No site do IPS Brasil, é possível analisar o perfil detalhado de todos os municípios, identificando em quais áreas cada um se destaca e onde há necessidade de melhorias. A plataforma também permite comparar municípios com características semelhantes, como PIB per capita, população e território, oferecendo uma ferramenta prática para gestores públicos, investidores sociais e a sociedade em geral compreenderem melhor as dinâmicas de desenvolvimento local e planejarem ações mais eficazes para promover o progresso social e ambiental.

    O índice é desenvolvido por meio de uma parceria entre o Imazon, Fundação Avina, iniciativa Amazônia 2030, Centro de Empreendedorismo da Amazônia e Social Progress Imperative, sendo baseado exclusivamente em dados públicos e atualizado anualmente. A ferramenta permite acompanhar tendências e apoiar o planejamento, a avaliação de políticas públicas e o direcionamento de investimentos sociais.

    Cada indicador passa por um processo de validação e modelagem estatística, incluindo normalização, verificação de qualidade e definição de pesos por meio da Análise de Componentes Principais (ACP). O resultado final varia de 0 a 100, refletindo o desempenho dos municípios nas três dimensões do progresso social.

    Diferentemente de indicadores econômicos como o PIB e o IDH, o IPS mede diretamente resultados na vida da população, permitindo identificar desigualdades e comparar territórios de forma mais precisa. O índice evidencia que municípios com níveis semelhantes de renda podem apresentar desempenhos muito distintos em qualidade de vida, reforçando o papel das políticas públicas e da gestão na transformação de recursos em bem-estar.

  • As Portas de Entrada do Emprego Formal na Amazônia

    As Portas de Entrada do Emprego Formal na Amazônia

    A Amazônia Legal concentra 13% da população brasileira, mas responde por apenas 9% dos empregos formais do país, revelando um mercado de trabalho mais restrito e com forte dependência do setor público para gerar oportunidades de maior qualidade. O dado faz parte do estudo “As portas de entrada do emprego formal na Amazônia”, do projeto Amazônia 2030, que analisa a estrutura do mercado formal na região. A analise revela que o setor público é a principal porta de entrada para o emprego formal de maior qualificação na Amazônia Legal. Entre trabalhadores com ensino superior completo, 67,4% estão no setor público na região, frente a 42,4% no restante do Brasil.

    O levantamento dos economistas Gustavo Gonzaga e Vinícius de Sá, do Departamento de Economia da PUC-Rio, analisa a estrutura do mercado formal com base na Relação Anual de Informações Sociais, a Rais, utilizando como referência o ano de 2018. O objetivo é compreender onde estão as ocupações formais de maior qualidade na região e como elas se comparam ao restante do país

    Os dados mostram que a Amazônia Legal concentra 13% da população brasileira, mas responde por apenas 9% dos empregos formais do país. Apenas 18,7% da população da região tinha um emprego formal em 2018, contra 28,4% no restante do Brasil. A diferença está associada sobretudo à menor presença do setor privado formal na Amazônia.

    Peso dos governos estaduais

    O estudo identifica ainda um protagonismo particular dos governos estaduais na absorção de trabalhadores qualificados. Entre os empregados com ensino superior no setor público da Amazônia Legal, 42,5% estão vinculados aos governos estaduais, frente a 33,1% no restante do Brasil.

    Além disso, há uma concentração mais elevada de servidores estaduais em funções administrativas. Entre os servidores estaduais com ensino superior na Amazônia, 29,2% atuam em serviços administrativos, proporção quase três vezes maior do que no restante do país, onde o percentual é de 10,2%. 

    Diferença salarial amplia atratividade do setor público

    O estudo também aponta que a maior presença do setor público entre trabalhadores qualificados está associada a diferenciais salariais expressivos.

    Na Amazônia Legal, o salário mediano de trabalhadores com ensino superior no setor público é 60,6% superior ao do setor privado formal, R$ 4.808 contra R$ 2.994 em valores de 2018. No restante do Brasil, essa diferença é de 27,5%.

    Mesmo após controlar fatores como experiência, escolaridade, gênero, raça, setor de atividade e localização, o prêmio salarial do setor público permanece elevado. Entre trabalhadores com ensino superior, o setor público paga, em média, 46,0% a mais do que o setor privado na Amazônia Legal, frente a 28,6% no restante do país.

    No caso específico dos governos estaduais, o diferencial é ainda mais expressivo: o prêmio salarial estadual em relação ao setor privado chega a 55,7% na Amazônia Legal, contra 12,7% no restante do Brasil. 

    Implicações para o desenvolvimento regional

    Para os autores, os resultados indicam que as ocupações formais de maior qualificação e remuneração na Amazônia Legal estão fortemente ancoradas no setor público, especialmente nos governos estaduais. Esse padrão sugere limitações na capacidade do setor privado formal de absorver trabalhadores qualificados na região.

    O estudo ressalta que os dados se referem exclusivamente ao emprego formal registrado na Rais e não capturam formas alternativas de inserção no mercado de trabalho, como empreendedorismo e trabalho por conta própria. Ainda assim, o diagnóstico oferece evidências importantes para o debate sobre desenvolvimento regional, qualificação profissional e o papel do setor público e do setor privado na geração de oportunidades na Amazônia.

  • Da Exploração Ilegal de Recursos Naturais ao Tráfico Internacional de Cocaína: Padrões de Violência na Amazônia Brasileira

    Da Exploração Ilegal de Recursos Naturais ao Tráfico Internacional de Cocaína: Padrões de Violência na Amazônia Brasileira

    Nas últimas duas décadas, a violência nos municípios pequenos da Amazônia Legal tomou um rumo diferente do restante do país. Entre 1999 e 2023, a região acumulou 18.755 homicídios a mais do que teria registrado se tivesse seguido a mesma trajetória dos demais municípios de pequeno porte do Brasil, revelando um descolamento persistente e preocupante em relação ao padrão nacional.

    O dado é um dos principais resultados do relatório Da exploração ilegal de recursos naturais ao tráfico internacional de cocaína: padrões de violência na Amazônia brasileira, do projeto Amazônia 2030, que analisa a evolução dos homicídios e sua relação com diferentes atividades ilegais ao longo do tempo.

    No início dos anos 2000, os municípios com menos de 100 mil habitantes da Amazônia e do restante do Brasil apresentaram taxas semelhantes, cerca de 10 homicídios por 100 mil habitantes. A partir de 2005, porém, as trajetórias passaram a divergir. Em 2023, os municípios pequenos da Amazônia registraram 30 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto os demais municípios pequenos do país ficaram em torno de 20 por 100 mil.

    Ao estimar a contribuição de quatro fatores de risco: exploração ilegal de madeira; grilagem de terras; mineração ilegal de ouro; e presença de facções ligadas ao tráfico, o estudo calcula que 18.367 homicídios poderiam ter sido evitados entre 1999 e 2023 caso esses fatores não estivessem presentes.

    Padrão de violência

    O estudo mostra que até meados dos anos 2000, os homicídios estavam mais associados à exploração ilegal de madeira. Nos anos seguintes, cresceram os conflitos ligados à grilagem de terras e à mineração ilegal de ouro.
    A partir da segunda metade da década de 2010, sobretudo após 2018, ocorre uma inflexão clara: a presença de facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas passa a desempenhar papel central na dinâmica dos homicídios.

    Até 2017, apenas 29% das mortes associadas a fatores de risco estavam relacionadas à presença de facções criminosas. Entre 2018 e 2023, esse percentual sobe para 56%, indicando a crescente centralidade do tráfico na explicação da violência na região.

    No período mais recente, entre 2018 e 2023, a contribuição conjunta dos quatro fatores de risco explica cerca de 60% do excesso de homicídios, o equivalente a aproximadamente 5.500 mortes adicionais associadas a esses fatores.
    O relatório também mostra que o acúmulo de riscos agrava o cenário. A partir de 2014, municípios expostos simultaneamente a três ou quatro fatores de risco registraram crescimentos mais intensos nas taxas de homicídio. Municípios com quatro fatores apresentaram, em média, aumento aproximado de 30 homicídios por 100 mil habitantes em relação aos municípios sem fatores de risco no período de referência.

    Violência se interioriza e se torna mais complexa

    Os dados indicam um processo de interiorização da violência. Municípios que, no início dos anos 2000, registravam níveis praticamente nulos de homicídios passaram a apresentar taxas elevadas nas décadas seguintes.
    Além do aumento quantitativo, houve uma transformação qualitativa. A violência, antes predominantemente ligada a disputas locais por recursos naturais, passou a se integrar a redes do crime organizado, com disputas por rotas e controle territorial ligadas ao tráfico.

    O relatório conclui que o enfrentamento do problema exige estratégias mais integradas. Medidas tradicionais, como regularização fundiária e fiscalização ambiental, podem ser insuficientes diante da consolidação do crime organizado. A resposta, segundo o estudo, precisa articular governança territorial, políticas ambientais, segurança pública e controle de fronteiras em um contexto de dinâmica criminal mais complexa.

  • O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global

    O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global

    O Brasil reúne as condições mais favoráveis do planeta para liderar a agenda climática global por meio da conservação, restauração florestal e silvicultura. Essa é a principal conclusão do estudo O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global, que apresenta dados consolidados sobre o papel estratégico das florestas brasileiras no enfrentamento da crise climática.

    Segundo o documento, as florestas estão entre as soluções climáticas mais escaláveis e custo-efetivas disponíveis atualmente, sendo responsáveis por absorver cerca de um terço das emissões globais anuais de gases de efeito estufa provenientes da atividade humana. Sem florestas conservadas, manejadas e restauradas, o cumprimento das metas do Acordo de Paris torna-se inviável.

    O Brasil ocupa posição central nesse cenário. O país detém a maior área contínua de florestas tropicais do mundo e concentra o maior potencial global de restauração florestal. Atualmente, são cerca de 500 milhões de hectares de florestas nativas, o equivalente a quase 60% do território nacional.

    Dois cenários para 2035

    O estudo projeta dois cenários para 2035. No cenário base, mantidos níveis médios de desmatamento, o país registraria perda aproximada de 1% no estoque de carbono das formações florestais.

    No cenário potencial, com desmatamento ilegal próximo de zero até 2030, expansão da restauração e crescimento da silvicultura, o Brasil poderia gerar um ganho líquido de aproximadamente 1% no estoque de carbono, revertendo a curva histórica de perda florestal.

    Esse avanço seria possível sem competir com a produção de alimentos. O levantamento indica que há extensas áreas desmatadas subutilizadas aptas a atender a expansão agropecuária e, simultaneamente, permitir a restauração florestal e o plantio comercial de árvores.

    Código Florestal e instrumentos de mercado

    O país já dispõe de arcabouço legal robusto para proteção das florestas, com destaque para o Código Florestal, que assegura Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais em propriedades rurais. Estima-se que 215 milhões de hectares estejam conservados ou reflorestados em imóveis rurais voltados à produção de alimentos.

    O estudo também aponta mecanismos financeiros promissores para escalar a conservação, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, TFFF, e o REDD+ Jurisdicional. Ao lado desses instrumentos, políticas de comando e controle combinadas com ordenamento territorial já demonstraram eficácia histórica, como ocorreu entre 2004 e 2012, quando o desmatamento na Amazônia foi reduzido em 80%.

    Restauração e silvicultura em expansão

    A restauração florestal com espécies nativas desponta como nova fronteira econômica, atraindo capital privado e podendo alcançar milhões de hectares até 2035.

    Já a silvicultura de espécies exóticas, considerada a mais competitiva do mundo, deve expandir sua área plantada de 4 milhões para até 6,2 milhões de hectares na próxima década, sobretudo em áreas anteriormente degradadas.

    Além da captura de carbono, as florestas brasileiras exercem papel crucial na regulação do regime de chuvas, na segurança hídrica, na produção agrícola e na conservação da biodiversidade.

    Para os autores, consolidar o protagonismo brasileiro exige combinar proteção efetiva contra o desmatamento ilegal, ampliação da restauração, fortalecimento da bioeconomia e criação de mecanismos financeiros capazes de transformar o capital natural em ativo estratégico para o desenvolvimento sustentável.

  • Combate ao Desmatamento Reduz a Criminalidade na Amazônia

    Combate ao Desmatamento Reduz a Criminalidade na Amazônia

    Combater o desmatamento não só protege a floresta, como também salva vidas, é o que aponta o novo estudo do projeto Amazônia 2030, “Combater o desmatamento reduz a criminalidade na Amazônia“. A pesquisa mostra que o fortalecimento da fiscalização ambiental, especialmente a partir do sistema de monitoramento por satélite DETER, implementado em 2006, reduziu em cerca de 15% o número de homicídios na região, o equivalente a 1.477 mortes evitadas por ano. Os resultados indicam que políticas ambientais eficazes funcionam também como políticas de segurança pública, com impacto direto sobre conflitos fundiários, expansão de mercados ilegais e atuação do crime organizado nas fronteiras do desmatamento.

    Enquanto o Brasil reduziu suas taxas de homicídio na última década, a Amazônia seguiu trajetória oposta. De 2006 a 2016, os municípios amazônicos viram a violência explodir: a taxa de homicídios subiu de 33,1 para 52,1 por 100 mil habitantes, aumento de 57,3%, muito acima do restante do país. O estudo explica que essa violência tem características próprias: ocorre majoritariamente em áreas rurais, próximas a frentes de desmatamento, garimpo ilegal, grilagem e exploração madeireira, territórios onde o Estado historicamente exerce pouca presença.

    O estudo conduzido pelos pesquisadores Rafael Araujo, Vítor Possebom e Gabriela Sett, identificou um elo direto entre fiscalização ambiental e queda da violência. Com monitoramento em tempo real e aplicação rápida de multas ambientais, a presença do Estado aumenta, elevando custos para atividades ilegais e reduzindo o espaço de atuação de redes criminosas. O estudo mostra que cada multa aplicada reduz, no ano seguinte, 0,73 homicídio por 100 mil habitantes, e que municípios mais fiscalizados apresentam menor probabilidade de registrar violência letal.

    Além disso, a pesquisa estima que os benefícios sociais da violência evitada chegam a 2,3 bilhões de dólares por ano, enquanto o custo operacional dos órgãos responsáveis pelo DETER gira em torno de US$ 622 milhões. O retorno social é de 3,7 vezes o investimento, sem contar ganhos ambientais, como redução de emissões de carbono e proteção da biodiversidade.

    Para os autores, os resultados deixam claro que políticas ambientais eficazes devem ser tratadas também como políticas de segurança pública. Eles recomendam integrar ações de conservação e de combate ao crime, especialmente em territórios críticos onde desmatamento, mercados ilegais e violência avançam juntos. Isso inclui fortalecer operações coordenadas entre órgãos ambientais, forças policiais e estruturas locais de governança, priorizando regiões com maior incidência de conflitos e pressão de atividades ilegais.

    O estudo destaca ainda a necessidade de reforçar a capacidade operacional do Ibama, ICMBio e órgãos estaduais, ampliando equipes, tecnologia e presença territorial. Investir em fiscalização ambiental, mostram os autores, é investir em estabilidade institucional, redução de homicídios e desenvolvimento sustentável. Políticas de monitoramento, comando e controle têm potencial para interromper ciclos de violência rural e consolidar a presença do Estado em áreas historicamente vulneráveis.

    A análise confirma uma mensagem central: proteger a floresta é também proteger vidas. Em uma região marcada por fragilidade institucional e redes ilegais, o monitoramento e a ação do Estado têm capacidade comprovada de reduzir homicídios, conter mercados ilícitos e promover desenvolvimento sustentável.

  • Para Proteger a Floresta Amazônica, Precisamos Rematar as Áreas Desmatadas

    Para Proteger a Floresta Amazônica, Precisamos Rematar as Áreas Desmatadas

    A conversão de áreas já desmatadas em sistemas produtivos sustentáveis pode gerar empregos verdes, ampliar a renda regional e reduzir a pressão sobre a floresta, aponta um novo estudo que revela que a Amazônia possui 35 milhões de hectares disponíveis para rematamento e hoje captura apenas 3% de um mercado global de US$ 233 bilhões em produtos da floresta. Assinado por Salo Coslovsky e Beto Veríssimo, o trabalho do projeto Amazônia 2030 detalha como essa estratégia pode reconciliar proteção ambiental e desenvolvimento econômico, propondo um programa nacional baseado em coordenação estatal, tecnologia e segurança fundiária.

    A Notas de Políticas Públicas (Policy Brief), “Para proteger a floresta amazônica, precisamos rematar as áreas desmatadas”, apresenta uma proposta ampla e factível para enfrentar simultaneamente dois desafios históricos da região: a falta de oportunidades econômicas e a fragilidade da conservação ambiental. O estudo mostra que o rematamento produtivo, a recuperação de áreas já abertas e hoje subutilizadas por meio de sistemas agroflorestais, silvicultura e restauração, pode gerar empregos de qualidade, ampliar a renda dos amazônidas e reduzir o avanço de atividades ilegais que pressionam a floresta.

    Entre as principais mensagens do documento estão:

    • Rematar áreas degradadas é a chave para quebrar o impasse entre desenvolvimento e conservação.
    • A Amazônia tem cerca de 35 milhões de hectares disponíveis para rematamento, sem necessidade de novo desmatamento.
    • A região movimenta US$ 7,2 bilhões por ano com produtos compatíveis com a floresta, mas isso representa apenas 3% de um mercado total de US$ 233 bilhões.
    • Sem empregos verdes, a proteção ambiental é frágil, e retrocessos recentes mostram que só conservar não é suficiente.
    • Um programa nacional de rematamento produtivo pode gerar renda, capturar carbono, restaurar ecossistemas e fortalecer cadeias produtivas já consolidadas.

     

    O estudo destaca que, entre 2013 e 2024, a Amazônia perdeu 4,6 milhões de hectares a mais de floresta do que teria perdido se o desmatamento tivesse permanecido no piso histórico de 2012. A criação de áreas protegidas estagnou e a grilagem de terras públicas voltou a crescer, enquanto legisladores federais e estaduais enfraqueceram mecanismos de proteção.

    Esse cenário é agravado pela escassez de empregos e negócios verdes, que leva parte da população a depender de atividades predatórias como garimpo, grilagem e pecuária extensiva. Para os autores, não haverá conservação duradoura sem prosperidade local, e a saída está nas áreas já abertas.

    Por que o rematamento produtivo funciona

    O estudo demonstra que o rematamento produtivo reúne as condições necessárias para ser implementado em grande escala:

    • Existe demanda real e crescente por produtos como açaí, cacau, banana, mandioca, fibras e palmáceas.
    • A agricultura moderna se tornou intensiva em tecnologia, gerando empregos qualificados no campo e nas cidades.
    • O mercado de restauração florestal e captura de carbono está em expansão, oferecendo novas fontes de renda.
    • A Amazônia já tem empreendedores experientes nessas cadeias e exemplos concretos de sucesso.
    • O país acumulou lições importantes sobre como desenhar políticas produtivas eficazes.

     

    Os autores propõem um Programa Nacional de Rematamento Produtivo estruturado em cinco pilares:

     

    1. Resolver a questão fundiária, protegendo florestas públicas e regularizando áreas antigas de desmatamento.
    2. Ampliar o financiamento de longo prazo, usando contratos futuros, inclusive de carbono, como garantia.
    3. Desenvolver tecnologia e capacitação local, com foco em operações rurais tecnificadas e agroflorestais.
    4. Reorientar políticas de desenvolvimento produtivo para apoiar cadeias já consolidadas e competitivas.
    5. Coordenar a ação estatal, garantindo previsibilidade, escala e metas claras.

     

    O Brasil tem condições de avançar rapidamente em um programa com impacto econômico, social e ambiental simultâneo. “O rematamento produtivo aumenta a produtividade, gera empregos verdes e fortalece a conservação. A Amazônia pode prosperar sem derrubar mais floresta, e o país precisa agir agora”, afirmam os pesquisadores.