A Amazônia Legal pode ampliar sua produção agropecuária sem a necessidade de converter novas áreas de floresta. Essa é a principal conclusão do estudo “Agricultura na Amazônia Legal: condições de produtividade, riscos climáticos e propostas para produzir melhor em áreas já abertas”, de Paulo Barreto, Ritaumaria Pereira e Gabriel Salles Barreto, publicado pelo Amazônia 2030.
O trabalho demonstra que o principal desafio da agricultura amazônica não é a falta de terras disponíveis, mas a baixa produtividade em grande parte das áreas já abertas. Ao mesmo tempo, os produtores enfrentam um cenário cada vez mais complexo, marcado pelo aumento das secas, incêndios e outros eventos climáticos extremos, além de exigências ambientais mais rigorosas para acesso ao crédito rural e aos mercados internacionais.
Segundo os autores, esses desafios podem ser enfrentados sem expandir a fronteira agrícola. A experiência de diferentes regiões da Amazônia mostra que, quando produtores têm acesso simultâneo à pesquisa, assistência técnica, crédito, infraestrutura, armazenagem e mercados consumidores, é possível alcançar níveis de produtividade comparáveis aos das regiões mais produtivas do país. Casos como a produção de grãos em Mato Grosso e o aumento da produtividade da mandioca em Rondônia demonstram esse potencial.
Apesar dessas experiências, a maior parte dos agricultores da Amazônia ainda enfrenta limitações para produzir mais. Apenas 10% dos estabelecimentos rurais da região Norte recebem assistência técnica, enquanto somente 9% dos agricultores familiares conseguem acessar crédito rural. A distância dos mercados consumidores, a deficiência logística e as dificuldades para participar de programas de compras públicas também restringem o desenvolvimento da produção regional.
O estudo também chama atenção para o impacto crescente das mudanças climáticas sobre a agricultura amazônica. Entre 2021 e 2024, os prejuízos agropecuários registrados na Amazônia Legal alcançaram média anual próxima de R$ 6 bilhões. Secas prolongadas reduzem a produção e dificultam a navegação dos rios; cheias comprometem o transporte e a comercialização; incêndios afetam lavouras, pastagens e a saúde da população. Além disso, o desmatamento reduz a reciclagem de umidade, diminui as chuvas e aumenta os riscos para a própria atividade agropecuária.
Os pesquisadores destacam ainda que as exigências ambientais passaram a influenciar diretamente a competitividade do setor. Restrições ao crédito rural para imóveis com irregularidades ambientais e novas regras internacionais de rastreabilidade tornam cada vez mais importante conciliar aumento da produtividade com conservação da floresta. Ao mesmo tempo, estudos mostram que a expansão da produção prevista para os próximos anos pode ocorrer nas áreas já desmatadas, especialmente por meio da recuperação de pastagens degradadas.
Cinco recomendações para uma agricultura mais produtiva e resiliente
Com base nas evidências reunidas, o estudo apresenta cinco propostas para orientar políticas públicas e investimentos na Amazônia Legal:
- criar fontes estáveis de financiamento para pesquisa, assistência técnica e adaptação às mudanças climáticas;
- fortalecer a resiliência dos pequenos produtores por meio de compras públicas, assistência técnica e infraestrutura local;
- priorizar investimentos em infraestrutura que reduzam custos de produção sem estimular novos desmatamentos;
- ampliar a pesquisa voltada à adaptação da agricultura amazônica aos riscos climáticos; e
- tratar a floresta em pé como uma infraestrutura essencial para manter o regime de chuvas, reduzir riscos climáticos e sustentar a produção agropecuária.
Para os autores, o fortalecimento da agricultura amazônica depende menos da criação de novos instrumentos e mais da coordenação das políticas já existentes. Crédito, pesquisa, assistência técnica, infraestrutura, compras públicas e conservação da floresta produzem melhores resultados quando são implementados de forma integrada. Essa combinação pode elevar a produtividade, aumentar a renda dos produtores, fortalecer a segurança alimentar e reduzir a pressão por novos desmatamentos na Amazônia.



