Categoria: Pecuária

  • Fatos da Amazônia – 2026

    Fatos da Amazônia – 2026

    O Fatos da Amazônia 2026 reúne e atualiza alguns dos principais indicadores ambientais, sociais e econômicos da Amazônia, oferecendo um panorama amplo das transformações recentes da região. Produzida pelo Projeto Amazônia 2030, a publicação sistematiza dados de diferentes instituições públicas e da sociedade civil sobre temas como território, população, desmatamento, queimadas, produção agropecuária, bioeconomia, segurança pública, progresso social, pobreza e economia. O objetivo é facilitar o acesso a informações essenciais para compreender os desafios e as oportunidades da Amazônia e contribuir para políticas capazes de conciliar desenvolvimento econômico, melhoria da qualidade de vida e conservação dos recursos naturais.

    O Fatos da Amazônia 2026 é de autoria de Daniel Santos, Arthur França, Manuele Lima, Agatha Vilhena e Beto Veríssimo. A nova edição mostra uma Amazônia marcada por contrastes. Indicadores ambientais importantes apresentaram melhora recente, com redução do desmatamento e forte queda dos focos de calor em 2025. Ao mesmo tempo, a região continua enfrentando desafios estruturais relacionados à pobreza, violência e qualidade de vida. A Amazônia Legal possui quase 29 milhões de habitantes, mas apresenta desempenho no Índice de Progresso Social inferior ao restante do país.

    Principais destaques

    • Território e população: a Amazônia Legal ocupa cerca de 5 milhões de km², equivalentes a 59% do território brasileiro, e reúne 28,5 milhões de habitantes em 773 municípios — aproximadamente 13% da população do país.
    • Cinco Amazônias: a região pode ser dividida de acordo com suas características ambientais e de ocupação em Amazônia florestal, que representa 39% do território; florestal sob pressão, 29%; desmatada, 11%; e não florestal, predominantemente Cerrado, 21%. A maior parte da população, 76%, vive em áreas urbanas.
    • Desmatamento: a taxa de perda de floresta primária caiu de 13.038 km² em 2021 para 5.731 km² em 2025, o menor patamar desde 2015. Apesar da redução recente, a Amazônia Legal já perdeu aproximadamente 863 mil km² de floresta, equivalentes a cerca de 21% de sua cobertura florestal original.
    • Queimadas: depois de registrar quase 194 mil focos de calor em 2024, a Amazônia Legal contabilizou 71.276 focos em 2025, uma redução de 63% e o menor número registrado desde 2000.
    • Agricultura e pecuária: a área destinada à agricultura na região passou de pouco mais de 8 milhões de hectares em 2000 para 30 milhões em 2024. No mesmo período, o rebanho bovino cresceu de 47 milhões para 107 milhões de cabeças, fazendo com que a Amazônia Legal concentrasse 45% do rebanho brasileiro em 2024.
    • Bioeconomia: o valor da produção de açaí nativo na Amazônia Legal mais que dobrou em uma década, passando de R$ 480 milhões em 2015 para mais de R$ 1 bilhão em 2024. O Pará permanece como o maior produtor do país.
    • Progresso social: a Amazônia Legal obteve 58,18 pontos no IPS Brasil 2026, abaixo dos 64,21 pontos registrados no restante do Brasil. Palmas (TO), Cuiabá (MT) e Araguainha (MT) aparecem entre os municípios amazônicos com melhores resultados.
    • Desmatamento e qualidade de vida: os municípios que mais desmataram recentemente também apresentam, em geral, baixos níveis de progresso social. Entre os 20 maiores desmatadores entre 2020 e 2025 estão Altamira (PA), São Félix do Xingu (PA), Lábrea (AM), Porto Velho (RO) e Apuí (AM).
    • Pobreza: cerca de 37% da população da Amazônia Legal estava em situação de pobreza em 2025. Pelo critério internacional de Paridade de Poder de Compra de US$ 4,20, quase 14% da população regional permanecia abaixo da linha de pobreza.
    • Violência: a taxa de homicídios caiu do pico de mais de 42 mortes por 100 mil habitantes, registrado em 2018, para 27,7 por 100 mil habitantes em 2024. Apesar da redução, diversos municípios amazônicos ainda registraram taxas superiores a 70 homicídios por 100 mil habitantes.
    • Economia: o PIB real da Amazônia Legal alcançou cerca de R$ 1 trilhão em 2023, representando quase 10% da economia brasileira. Mato Grosso, com R$ 285 bilhões, e Pará, com R$ 266 bilhões, lideram a economia regional.

     

    O estudo reforça que não existe uma única Amazônia. A região reúne realidades muito diferentes em termos de conservação florestal, produção econômica, urbanização e condições de vida. Os dados mostram avanços importantes em indicadores ambientais recentes, mas evidenciam que reduzir o desmatamento precisa caminhar ao lado de políticas capazes de gerar prosperidade, segurança e melhores condições sociais para a população amazônica.

  • Agricultura na Amazônia Legal: Condições de Produtividade, Riscos Climáticos e Propostas para Produzir Melhor em Áreas já Abertas

    Agricultura na Amazônia Legal: Condições de Produtividade, Riscos Climáticos e Propostas para Produzir Melhor em Áreas já Abertas

    A Amazônia Legal pode ampliar sua produção agropecuária sem a necessidade de converter novas áreas de floresta. Essa é a principal conclusão do estudo “Agricultura na Amazônia Legal: condições de produtividade, riscos climáticos e propostas para produzir melhor em áreas já abertas”, de Paulo Barreto, Ritaumaria Pereira e Gabriel Salles Barreto, publicado pelo Amazônia 2030.

    O trabalho demonstra que o principal desafio da agricultura amazônica não é a falta de terras disponíveis, mas a baixa produtividade em grande parte das áreas já abertas. Ao mesmo tempo, os produtores enfrentam um cenário cada vez mais complexo, marcado pelo aumento das secas, incêndios e outros eventos climáticos extremos, além de exigências ambientais mais rigorosas para acesso ao crédito rural e aos mercados internacionais.

    Segundo os autores, esses desafios podem ser enfrentados sem expandir a fronteira agrícola. A experiência de diferentes regiões da Amazônia mostra que, quando produtores têm acesso simultâneo à pesquisa, assistência técnica, crédito, infraestrutura, armazenagem e mercados consumidores, é possível alcançar níveis de produtividade comparáveis aos das regiões mais produtivas do país. Casos como a produção de grãos em Mato Grosso e o aumento da produtividade da mandioca em Rondônia demonstram esse potencial.

    Apesar dessas experiências, a maior parte dos agricultores da Amazônia ainda enfrenta limitações para produzir mais. Apenas 10% dos estabelecimentos rurais da região Norte recebem assistência técnica, enquanto somente 9% dos agricultores familiares conseguem acessar crédito rural. A distância dos mercados consumidores, a deficiência logística e as dificuldades para participar de programas de compras públicas também restringem o desenvolvimento da produção regional.

    O estudo também chama atenção para o impacto crescente das mudanças climáticas sobre a agricultura amazônica. Entre 2021 e 2024, os prejuízos agropecuários registrados na Amazônia Legal alcançaram média anual próxima de R$ 6 bilhões. Secas prolongadas reduzem a produção e dificultam a navegação dos rios; cheias comprometem o transporte e a comercialização; incêndios afetam lavouras, pastagens e a saúde da população. Além disso, o desmatamento reduz a reciclagem de umidade, diminui as chuvas e aumenta os riscos para a própria atividade agropecuária.

    Os pesquisadores destacam ainda que as exigências ambientais passaram a influenciar diretamente a competitividade do setor. Restrições ao crédito rural para imóveis com irregularidades ambientais e novas regras internacionais de rastreabilidade tornam cada vez mais importante conciliar aumento da produtividade com conservação da floresta. Ao mesmo tempo, estudos mostram que a expansão da produção prevista para os próximos anos pode ocorrer nas áreas já desmatadas, especialmente por meio da recuperação de pastagens degradadas.

    Cinco recomendações para uma agricultura mais produtiva e resiliente

    Com base nas evidências reunidas, o estudo apresenta cinco propostas para orientar políticas públicas e investimentos na Amazônia Legal:

    • criar fontes estáveis de financiamento para pesquisa, assistência técnica e adaptação às mudanças climáticas;
    • fortalecer a resiliência dos pequenos produtores por meio de compras públicas, assistência técnica e infraestrutura local;
    • priorizar investimentos em infraestrutura que reduzam custos de produção sem estimular novos desmatamentos;
    • ampliar a pesquisa voltada à adaptação da agricultura amazônica aos riscos climáticos; e
    • tratar a floresta em pé como uma infraestrutura essencial para manter o regime de chuvas, reduzir riscos climáticos e sustentar a produção agropecuária.

    Para os autores, o fortalecimento da agricultura amazônica depende menos da criação de novos instrumentos e mais da coordenação das políticas já existentes. Crédito, pesquisa, assistência técnica, infraestrutura, compras públicas e conservação da floresta produzem melhores resultados quando são implementados de forma integrada. Essa combinação pode elevar a produtividade, aumentar a renda dos produtores, fortalecer a segurança alimentar e reduzir a pressão por novos desmatamentos na Amazônia.

  • How Livestock Farming Can Lead Brazil’s Climate Action

    How Livestock Farming Can Lead Brazil’s Climate Action


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    Brazilian cattle ranching — currently responsible for most of the country’s greenhouse gas emissions — can also become the main lever to reduce deforestation and accelerate the climate transition in Brazil. This is the central finding of the new study “How Cattle Ranching Can Lead Brazil’s Climate Action”, published by the Amazônia 2030 project.

    According to the study, cattle ranching occupies 64% of Brazil’s agricultural land — more than 160 million hectares — but generates only 17% of the sector’s gross production value. In the Legal Amazon, 80% of agricultural land (75 million hectares) is covered by pastures, of which 54% are degraded. This extensive, low-productivity model is closely linked to the main drivers of deforestation in both the Amazon and Cerrado biomes.

    “The study shows that increasing cattle productivity in already cleared areas, with proper technical assistance and well-targeted credit, is more efficient and cheaper than continuing to deforest,” explains Paulo Barreto, researcher at Imazon and co-author of the study. With well-designed policies, it is possible to maintain production, reduce emissions, and conserve the forest.

    Three Recommendations for More Sustainable Cattle Ranching

    The study outlines three key guidelines to align cattle ranching with Brazil’s climate goals and its Nationally Determined Contribution (NDC):

    1. Target investments in high-impact zones — Areas within a 60 km radius of slaughterhouses concentrate 96% of processing capacity and already have better infrastructure and fewer embargoes. Prioritizing policies in these regions accelerates productivity gains and reduces pressure on the forest.

    2. Reorient rural credit toward productivity and climate goals — Only 30% of the R$ 8.5 billion contracted in 2023 in the Amazon was allocated to actions that increase productivity. Better allocation of these resources could restore 216,000 hectares of pasture per year, offsetting the average expansion of the past decade and reducing direct emissions per kilogram of beef by up to 74%.

    3. Eliminate incentives for speculative deforestation — Allocate approximately 50 million hectares of undesignated public forests (19 million federal and 31 million state-owned) to conservation, Indigenous territories, and protected areas. This would address the root causes of illegal deforestation and reduce financial risks for the country.

    Cattle ranching is the main source of emissions in the agricultural sector, which accounts for about 75% of Brazil’s greenhouse gas emissions. Environmental degradation has a direct economic impact: according to the Central Bank, cattle ranching is the most exposed sector to climate transition risks, with a credit portfolio estimated at R$ 130 billion (2022). Extreme climate events are already affecting the country’s financial stability, with 44% of financial institutions reporting impacts in 2024.

    For the researchers, COP30, which will take place in Belém in November 2025, represents a historic opportunity for Brazil to present a robust climate transition plan anchored in low-carbon cattle ranching.

    “The transition to more efficient and deforestation-free cattle ranching is not only possible, but necessary for the future of the Amazon and the global climate,” Barreto emphasizes.

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  • Como a Pecuária Pode Liderar a Ação Climática do Brasil

    Como a Pecuária Pode Liderar a Ação Climática do Brasil

    A pecuária brasileira, hoje responsável pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa do país, pode ser também a principal alavanca para reduzir o desmatamento e acelerar a transição climática no Brasil. Essa é a principal conclusão do novo estudo “Como a Pecuária Pode Liderar a Ação Climática do Brasil”, publicado pelo projeto Amazônia 2030.

    Segundo o levantamento, a criação de gado bovino ocupa 64% da área agropecuária do país — mais de 160 milhões de hectares —, mas gera apenas 17% do valor bruto da produção agropecuária. Na Amazônia Legal, 80% da área agropecuária (75 milhões de hectares) está ocupada por pastagens, das quais 54% estão degradadas. Esse modelo extensivo e de baixa produtividade está associado aos principais vetores de desmatamento da Amazônia e do Cerrado.

    “O estudo mostra que aumentar a produtividade da pecuária nas áreas já abertas, com apoio técnico e crédito bem direcionado, é mais eficiente e barato do que continuar desmatando”, explica Paulo Barreto, pesquisador do Imazon e coautor do estudo. Com políticas bem desenhadas, é possível manter a produção, reduzir emissões e conservar a floresta.

    Três recomendações para uma pecuária mais sustentável

    O estudo apresenta três diretrizes centrais para alinhar a pecuária às metas climáticas e à Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil:

    1. Focar investimentos em zonas de maior impacto — Áreas num raio de até 60 km dos frigoríficos concentram 96% da capacidade de abate e já têm melhor infraestrutura e menos embargos. Priorizar políticas nessas regiões acelera ganhos de produtividade e reduz a pressão sobre a floresta.
    2. Reorientar crédito rural com metas de produtividade e clima — Apenas 30% dos R$ 8,5 bilhões contratados em 2023 na Amazônia foram para ações que aumentam produtividade. Direcionar melhor esses recursos permitiria recuperar 216 mil hectares de pasto por ano, evitando o equivalente à expansão média dos últimos 10 anos e reduzindo em até 74% as emissões diretas por kg de carne.
    3. Eliminar incentivos ao desmatamento especulativo — Destinar cerca de 50 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas (19 milhões federais e 31 milhões estaduais) para conservação, demarcação de terras indígenas e áreas protegidas. Isso atacaria a raiz do desmatamento ilegal e reduziria riscos financeiros para o país.

     

    A pecuária bovina é a principal fonte de emissões do setor agropecuário, que responde por cerca de 75% das emissões de GEE do Brasil. A degradação ambiental tem impacto direto sobre a economia: segundo o Banco Central, a pecuária é o setor mais exposto ao risco de transição climática, com uma carteira de crédito estimada em R$ 130 bilhões (2022). Eventos climáticos extremos já afetam a estabilidade financeira do país e 44% das instituições financeiras relataram impactos em 2024.

    Para os pesquisadores, a COP30, que será realizada em Belém em novembro de 2025, representa uma oportunidade histórica para o Brasil apresentar ao mundo um plano sólido de transição climática ancorada na pecuária de baixo carbono. “A transição para uma pecuária mais eficiente e livre de desmatamento é não apenas possível, mas necessária para o futuro da Amazônia e do clima global”, reforça Barreto.

  • Lessons From The Expansion of Cattle Ranching in Brazil (2000–2023) For Sustainable And Efficient Production

    Lessons From The Expansion of Cattle Ranching in Brazil (2000–2023) For Sustainable And Efficient Production


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    Cattle ranching occupies 64% of Brazil’s agricultural area but contributes only 17% of the sector’s gross production value, reflecting inefficient land use and structural challenges. An unprecedented study by the Amazônia 2030 project analyzes the expansion of cattle ranching between 2000 and 2023 and points to pathways to transform the sector, ensuring greater productivity and sustainability.

    The survey highlights that 64% of pastures (105 million hectares) are of low or intermediate quality and that the sector was responsible for 51% of the country’s greenhouse gas emissions, mainly due to deforestation. Between 2000 and 2023, Brazilian cattle ranching made important gains in productivity, driven by economic incentives and environmental pressures, but it still faces structural bottlenecks.

    The study, conducted by researchers Paulo Barreto, Arthur José da Silva Rocha, Amintas Brandão, Ritaumaria Pereira, and Gabriel Salles Barreto, notes that policies such as the Action Plan for the Prevention and Control of Deforestation in the Legal Amazon (PPCDAm) and the Soy Moratorium reduced deforestation by about 80% between 2003 and 2012, encouraging more productive practices. However, the growth of the activity still pressures the forest: for every hectare of pasture rehabilitated in Brazil, one hectare of forest was cleared; in the Amazon, that number rises to 2.35 hectares. By contrast, only 0.2% of degraded pastures were rehabilitated.

    The research also shows that while the supply of rural credit has grown, it remains poorly distributed. In 2023, only 23% of resources were applied to productivity—such as pasture recovery and artificial insemination—while most was directed to cattle purchases, without robust environmental or productivity targets.

    With a stock of R$ 1 trillion in subsidized private credit without sustainability requirements, the study underscores that there is enormous potential to leverage more responsible practices in the sector.

    Recommendations for a more sustainable sector
    The study proposes a set of recommendations to reverse this situation, including:

    – Strengthening efforts to combat deforestation and ensuring the proper allocation of public lands;
    – Conditioning rural credit on productivity and sustainability targets, with technical assistance for small and medium producers;
    – Directing infrastructure and incentives to priority areas where pasture recovery is more feasible;
    – Expanding transparency in the supply chain, ensuring traceability of cattle origin and greater commitment from meatpackers and investors to sustainable practices.

    “Over the past 23 years, the expansion of cattle ranching shows that it is possible to increase productivity while reducing deforestation through practical incentives and environmental enforcement. However, failures in public and private policies have prevented faster, broader, and longer-lasting progress in best practices. As a result, nearly half of pastures are degraded while deforestation for cattle ranching continues. In the face of an intensifying climate crisis, especially reduced rainfall, opportunities for the productive use of degraded pastures tend to shrink dramatically. Global warming follows immutable physical laws: the higher the greenhouse gas emissions, the faster and more intense climate change will be. Therefore, politicians and business leaders cannot hesitate. Only through robust and committed collaboration will it be possible to mitigate the environmental impacts of cattle ranching and promote sustainable development in territories where the activity still operates with low productivity,” the study emphasizes.

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  • Lições da Expansão da Pecuária Bovina no Brasil (2000-2023) Para Uma Produção Sustentável e Eficiente

    Lições da Expansão da Pecuária Bovina no Brasil (2000-2023) Para Uma Produção Sustentável e Eficiente

    A pecuária ocupa 64% da área agropecuária do Brasil, mas contribui com apenas 17% do valor bruto da produção do setor, refletindo um uso ineficiente da terra e desafios estruturais. Um estudo inédito do projeto Amazônia 2030 analisa a expansão da pecuária entre 2000 e 2023 e aponta caminhos para transformar o setor, garantindo maior produtividade e sustentabilidade.

    O levantamento destaca que 64% das pastagens (105 milhões de hectares) apresentam qualidade baixa ou intermediária e que o setor foi responsável por 51% das emissões de gases de efeito estufa do país, principalmente devido ao desmatamento. Entre 2000 e 2023, a pecuária brasileira passou por avanços importantes no que tange a sua produtividade, impulsionada por incentivos econômicos e pressões ambientais, mas ainda enfrenta entraves estruturais.

    O estudo, conduzido pelos pesquisadores Paulo Barreto, Arthur José da Silva Rocha, Amintas Brandão, Ritaumaria Pereira e Gabriel Salles Barreto, destaca que políticas como o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) e a Moratória da Soja reduziram o desmatamento em cerca de 80% entre 2003 e 2012, favorecendo práticas mais produtivas. No entanto, o crescimento da atividade ainda pressiona a floresta: para cada hectare de pastagem reformado no Brasil, um hectare de floresta foi derrubado, e na Amazônia esse número sobe para 2,35 hectares. Em contra partida, apenas 0,2% dos pastos degradados foram reformados.

    A pesquisa também aponta que a oferta de crédito rural cresceu, mas permanece mal distribuída. Em 2023, apenas 23% dos recursos foram aplicados em produtividade, como recuperação de pastagens e inseminação artificial, enquanto a maior parte foi direcionada à compra de gado, sem metas ambientais ou produtivas robustas.

    Com um estoque de R$ 1 trilhão em crédito privado subsidiado sem exigências sustentáveis, o estudo destaca que há um enorme potencial para alavancar práticas mais responsáveis no setor.

    Recomendações para um setor mais sustentável

    O estudo propõe um conjunto de recomendações para reverter esse quadro, incluindo:

    • Fortalecer o combate ao desmatamento e garantir a destinação correta de terras públicas;
    • Condicionar o crédito rural a metas de produtividade e sustentabilidade, com assistência técnica para pequenos e médios produtores;
    • Direcionar infraestrutura e incentivos para áreas prioritárias, onde a recuperação de pastagens é mais viável;
    • Ampliar a transparência na cadeia produtiva, garantindo rastreamento da origem do gado e maior comprometimento de frigoríficos e investidores com práticas sustentáveis.

    “Nos últimos 23 anos, a expansão da pecuária revela que é possível aumentar a produtividade e, ao mesmo tempo, reduzir o desmatamento por meio de incentivos práticos e controle ambiental. No entanto, falhas nas políticas públicas e privadas têm impedido um avanço mais rápido, amplo e duradouro das melhores práticas. Assim, quase metade dos pastos estão degradados enquanto o desmatamento para pecuária continua. Diante da intensificação da crise climática, especialmente da redução das chuvas, as oportunidades para o aproveitamento produtivo de pastagens degradadas tendem a se reduzir drasticamente. O aquecimento global segue leis físicas imutáveis: quanto maiores as emissões de gases do efeito estufa, mais rápidas e intensas serão as mudanças climáticas. Portanto, políticos e líderes empresariais não podem hesitar. Apenas por meio de uma colaboração robusta e comprometida será possível mitigar os impactos ambientais da pecuária e promover o desenvolvimento sustentável em territórios onde a atividade ainda opera com baixa produtividade”, destaca o estudo.

  • Da “Escassez” à Abundância: O Caso da Pecuária Bovina na Amazônia

    Da “Escassez” à Abundância: O Caso da Pecuária Bovina na Amazônia

    A pecuária bovina na Amazônia Legal abrange mais de 75 milhões de hectares, porém, 54% dos pastos (40 milhões de hectares) se encontram com algum grau de degradação, está área equivale a duas vezes o território do Paraná. Um panorama que revela uma preocupante realidade,  uma imensa área mal utilizada e que não se reflete em qualidade de vida e indicadores socioeconômicos para a região.

    Neste estudo, os pesquisadores Paulo Barreto, Ritaumaria Pereira e Arthur José da Silva Rocha, investigam como a ineficiência no uso da terra reflete em baixos indicadores socioeconômicos e quais políticas podem gerar mais produtividade, melhorar a qualidade de vida e também promover a conservação da Amazônia Legal.

    Segundo o estudo, o rendimento médio dos trabalhadores da pecuária é 34% inferior à média salarial da região. Segundo os pesquisadores, mesmo diante de tecnologias e crédito rural disponíveis para impulsionar uma pecuária mais produtiva, o desperdício persiste devido a políticas que incentivam o desmatamento e à escassez de fatores essenciais para promover o uso sustentável da terra.

    Nesse contexto, um o estudo recomenda políticas que visem tornar a pecuária mais produtiva, almejando benefícios socioeconômicos e a redução do impacto ambiental. Como a necessidade crucial de assegurar a execução efetiva do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAM), uma iniciativa fundamental para induzir a adoção de práticas mais produtivas.

    O estudo aponta que para efetivamente aumentar a produtividade, os fazendeiros precisam aprimorar o cultivo e manejo dos pastos, bem como o cuidado sanitário dos animais, além de investir no treinamento de pessoal. Adotar essas práticas pode elevar a produtividade média do gado bovino de 80 kg/hectare/ano para 300 kg por hectare/ano, gerando ganhos significativos.

    O governo, por sua vez, precisa direcionar políticas que facilitem e acelerem a adoção dessas melhores práticas na pecuária. A análise recomenda ainda a concentração de esforços nas zonas próximas aos frigoríficos, uma vez que fazendeiros nessas áreas demonstram maior propensão a adotar inovações. O crédito rural e outros fatores essenciais, como assistência técnica e educação, devem ser focalizados nessas regiões, visando uma reforma significativa de 15 milhões de hectares de pastos degradados em até cinco anos.
    Principais Recomendações:

    1. Concentração de Incentivos: os produtores próximos aos mercados são mais propensos a adotar inovações. O estudo recomenda concentrar incentivos próximo aos polos de comercialização, acelerando ganhos de produtividade.
    2. Educação e Assistência Técnica: investir em educação rural é crucial. O governo deve incluir o Ministério da Educação no Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas. A assistência técnica deve incluir acompanhamento contínuo.
    3. Crédito Rural Focado: Priorizar o crédito rural para melhorias nos pastos é essencial. Em 2023, o Governo Federal instituiu o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas, visando recuperar 40 milhões de hectares de pastagens de baixa produtividade.
    4. Melhoria da Infraestrutura: Investir na manutenção de estradas, acesso à energia e comunicação nas regiões próximas aos frigoríficos é fundamental para facilitar a adoção de tecnologias produtivas.
    5. Combate à Especulação Fundiária: A efetiva cobrança do Imposto Territorial sobre a Propriedade Rural (ITR) pode incentivar o aumento da produtividade. Recomendamos atualizar índices de produtividade e utilizar dados de mercado para evitar reduções injustificadas nos valores.
    6. Apoio à Restauração Florestal: Aumentar a produtividade permitirá liberar 37 milhões de hectares de terras. Recomendamos priorizar a regularização fundiária e concessões de terras públicas para projetos de restauração florestal.

    A adoção dessas recomendações pode não apenas aumentar a produtividade da pecuária, mas também gerar benefícios socioeconômicos e ambientais significativos .

  • Como Impedir a Grilagem nas Florestas Públicas Federais?

    Como Impedir a Grilagem nas Florestas Públicas Federais?

    Quase um terço da Amazônia é formado por terras públicas sem destinação e, por isso, ameaçadas pela grilagem. Parte destas florestas, inclusive, já estão sob risco eminente de privatização ilegal. Um estudo inédito do projeto Amazônia 2030, iniciativa de pesquisadores brasileiros em prol do desenvolvimento sustentável da Amazônia Legal, revela como impedir a grilagem de terras nestes territórios e proteger as florestas públicas com a atual legislação do país.

    Conforme o estudo conduzido pela pesquisadora Brenda Brito, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o atual arcabouço jurídico brasileiro já é suficiente para proteger boa parte dos 143 milhões de hectares de terras da União, Estados e municípios que ainda não se transformaram em terras indígenas, quilombolas, reservas extrativistas ou unidades de conservação e sofrem com a pressão pelo desmatamento. Mas, para isso são necessários ajustes em decretos.

    Desde 2009, a legislação federal veda expressamente a emissão de títulos de terra e concessão de direito real de uso para regularização fundiária em florestas públicas, contudo o processo de destinação de terras seguido pelo governo federal tem desconsiderado esta lei. Segundo a pesquisadora, estas florestas têm sido alvo de desmatamento, ocupações ilegais e pressão pela privatização, ou seja, para que os governos emitam títulos de terra para legalizar essas ocupações. Estas invasões muitas vezes envolvem conflitos violentos com povos indígenas e populações tradicionais que ainda não tiveram seu direito prioritário à terra reconhecido pelo poder público.

    “O aumento de violência e degradação ambiental na região tem reduzido investimentos no país e aumentado boicotes contra produtos agropecuários. Por isso, o poder público deve, com urgência, garantir a proteção de suas terras públicas, garantindo a conservação e uso sustentável das florestas públicas, que servem como uma infraestrutura verde e assegura água para outras regiões do país”, afirma trecho do estudo.

    Do total de áreas sem informação fundiária, 57,9 milhões de hectares são florestas públicas não destinadas identificadas e inseridas no Cadastro Nacional de Florestas Públicas (CNFP), que pertencem ao governo federal (25,6 milhões de hectares) e estaduais (32,3 milhões de hectares). Desde 2013, a decisão sobre o que fazer com as terras federais passa pela Câmara Técnica de Destinação (CTD), composta por diferentes órgãos federais com alguma atribuição fundiária. Porém, estudos sobre as decisões tomadas pela CTD apontaram uma série de problemas, como a alocação de florestas públicas para regularização fundiária. Na esfera estadual, apenas o Pará previu a criação de uma câmara similar, mas até o momento não foi instalada.

    Para assegurar que as florestas públicas federais sejam destinadas de forma compatível com sua conservação, uso sustentável e redução de desmatamento, é necessário alterar as regras de funcionamento da CTD no decreto n.º 10.592/2020, além de revisar e revogar decisões tomadas pela câmara em desrespeito à legislação. Esta revisão permitirá que o Ministério do Meio Ambiente institua Áreas de Limitações Administrativas Provisórias (ALAP) para acelerar a efetiva destinação formal de áreas com prioridade para criação de UCs. As ALAPs são áreas nas quais a administração pública impõe restrições temporárias ao uso e ocupação do solo para garantir a proteção e preservação de recursos naturais.

    Além disso, é necessário revogar pedidos de regularização fundiária sobrepostos a florestas públicas e instituir regras vedando inscrições no Cadastro Ambiental Rural (CAR) nestas áreas. Estas duas orientações podem ser adotadas pelo estados mesmo que não possuam câmaras técnicas de destinação de terras estaduais. O estudo ainda recomenda a reinstalação de comitê previsto na Lei n.º 11.952/2009, desativado desde 2019, para ampliar a transparência sobre ações de regularização fundiária federal.

  • Policies to Develop Cattle Ranching in The Amazon Without Deforestation

    Policies to Develop Cattle Ranching in The Amazon Without Deforestation


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    Imagine that a presidential candidate asks for help in drawing up his/her agricultural development plan for the Amazon. He/she asks: Is it possible to develop agriculture without deforesting the Amazon? If so, how?

    This report answers the questions of this imaginary politician. In it, we show that it is possible to develop agriculture in the Amazon without deforesting using tried-and-true policies and techniques. Therefore, the government should coordinate policies and maintain the discipline to carry them out in the same way that it was and is necessary to control inflation.

    In drafting a government plan, politicians must consider the forces that encourage deforestation and the barriers to the adoption of best agricultural practices. This report focuses on cattle ranching, as pastures cover about 90% of the deforested areas in the Amazon biome.

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  • Menos Boi, Mais Carne

    Menos Boi, Mais Carne

    A produção de carne bovina em larga escala na Amazônia brasileira é um fenômeno relativamente recente, consequência de dois fatos que ocorreram no começo do século 21. Primeiro, a rápida evolução do Brasil como país exportador de carne. Segundo, o controle da febre aftosa no cinturão meridional da Amazônia brasileira, o que permitiu a abertura do mercado externo para carne bovina oriunda dessa região.

    A partir da década de 1970 até o final do século 20, a pecuária bovina de corte representou principalmente um instrumento para a ocupação e colonização da Amazônia. Isso ocorreu como resultado de políticas que objetivavam “desenvolvimento” com base no desmatamento, abertura de estradas, incentivos fiscais e crédito subsidiado para agropecuária. Porém, a despeito desses estímulos, a produção de carne bovina teve um desempenho modesto nesse período.

    Essa dinâmica mudou a partir do início do século 21, com a maior participação dos grandes frigoríficos no processamento da carne na Amazônia. Atualmente, a cadeia da carne enfrenta uma série de desafios na região. Primeiro, ainda é muito associada ao desmatamento da pecuária, atividade que é usada muitas vezes para ocupar terras. A pecuária tem ainda uma produtividade média extremamente baixa na Amazônia, a despeito de exemplos de produtores que adotam boas práticas de manejo da pastagem com excelentes resultados. A pecuária é também uma atividade com elevada emissão de gases de efeito estufa por unidade de renda gerada. Tanto pela emissão de carbono resultante do desmatamento, quanto pela emissão do gás metano, entre os mais nocivos para a mudança climática, resultante da alimentação no pasto dos bovinos.

    A partir de 2004, quando políticas governamentais começaram a enfrentar o desmatamento, pecuaristas começaram a adotar práticas que aumentam a produtividade – como o confinamento ou o semiconfinamento – na Amazônia. No entanto, o pesquisador do Imazon Paulo Barreto vê um risco de retrocesso em relação a esses avanços, em razão do atual quadro de tolerância, ou até estímulo, ao desmatamento na região.

    É importante, dessa forma, aprofundar e compreender diferentes indicadores para medir a produtividade da pecuária bovina e/ou da cadeia da carne. Entre eles, a taxa de lotação, que se refere ao número de cabeças de gado por unidade de área de pastagem, e a taxa de desfrute, ou seja, a porcentagem do rebanho que vai ao abate, descontadas as fêmeas retidas para reprodução, que oferece um indicador melhor de produtividade. Mas esse estudo se propõe a ir além disso, pois é fundamental considerar o valor bruto da efetiva produção de carne ao longo da cadeia por hectare destinado à pecuária. Nesse quadro, o objetivo do estudo é resumir a visão de produtores da pecuária, frigoríficos e pesquisadores sobre as transformações e as principais tendências em curso no setor.

    Autores: Roberto Smeraldi
    e
    Manuele Lima dos Santos

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202111.ed21