Categoria: Desmatamento

  • Amazônia em Foco: Como Redirecionar Recursos Públicos para o Desenvolvimento Sustentável da Região

    Amazônia em Foco: Como Redirecionar Recursos Públicos para o Desenvolvimento Sustentável da Região

    A Amazônia Legal recebe bilhões de reais por meio de bancos públicos, fundos constitucionais, crédito subsidiado, incentivos fiscais e investimentos em infraestrutura, mas boa parte desses recursos ainda é direcionada para atividades de baixa produtividade, expansão da fronteira e ações de curto prazo. Um novo estudo do Climate Policy Initiative/PUC-Rio (CPI/PUC-Rio) e do projeto Amazônia 2030 defende uma revisão desse modelo, com maior direcionamento dos recursos públicos para atividades capazes de combinar desenvolvimento econômico, melhoria das condições sociais e conservação da floresta.

    O Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO), principal instrumento de financiamento da política de desenvolvimento regional na Amazônia, contratou mais de R$ 70 bilhões entre 2020 e 2025, mas os critérios atuais de priorização reduzem sua capacidade de direcionar recursos para produtores de menor porte, regiões com maior restrição de crédito e atividades mais sustentáveis. Ao mesmo tempo, entre 2020 e 2024, 36% do crédito rural subsidiado foi destinado a propriedades com desmatamento posterior a 2009 e, no Banco da Amazônia (Basa), mais de 70% do crédito subsidiado está associado a propriedades com desmatamento.

    Os dados fazem parte do estudo “Amazônia em Foco: Como Redirecionar Recursos Públicos para o Desenvolvimento Sustentável da Região”, do CPI/PUC-Rio e do projeto Amazônia 2030, assinado por Juliano Assunção, Paulo Barreto, Salo Coslovsky, Beto Veríssimo e Manuele Lima. O relatório analisa instrumentos públicos de financiamento e incentivos econômicos destinados à Amazônia e propõe mudanças para que esses recursos contribuam para aumentar a produtividade, recuperar áreas degradadas, fortalecer atividades de base florestal e melhorar as condições sociais e econômicas da região.

    Entre as recomendações estão restringir o acesso ao crédito subsidiado para produtores que desmatam e, no caso da pecuária, condicionar o financiamento à adoção de assistência técnica, recuperação de áreas degradadas e rastreabilidade, além de concentrar o crédito nas áreas consolidadas e próximas aos frigoríficos. Para o FNO, os pesquisadores defendem a revisão dos critérios de seleção para concentrar os recursos nos produtores de menor porte e ampliar a execução de linhas destinadas a atividades mais sustentáveis, como o FNO-ABC, voltado à agricultura de baixo carbono.

    A análise parte da avaliação de que a discussão sobre o desenvolvimento da Amazônia não deve se limitar à necessidade de ampliar a presença do Estado. Bancos públicos, fundos constitucionais, crédito subsidiado, incentivos fiscais e investimentos em infraestrutura já mobilizam recursos relevantes na região, mas parte desses instrumentos continua associada a um modelo baseado na expansão da fronteira, em atividades de baixa produtividade e em investimentos com pouco impacto sobre a governança territorial e o desenvolvimento de longo prazo.

    A necessidade de rever essa estratégia aparece nos indicadores econômicos, sociais e ambientais da região. Em 2024, a Amazônia Legal respondeu por pouco mais de 9% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e por cerca de 44% das emissões nacionais de gases de efeito estufa, principalmente em razão do desmatamento e das queimadas. Ao mesmo tempo, seus cerca de 28 milhões de habitantes convivem com indicadores de renda, infraestrutura e mercado de trabalho inferiores aos registrados no restante do país.

    Em 2025, por exemplo, 37% da população da Amazônia estava em situação de pobreza, ante 23% no restante do Brasil, enquanto a taxa de informalidade alcançava 47%, contra 39%. O PIB real per capita da região era de R$ 39 mil em 2023, comparado a R$ 56 mil no restante do país. Para os autores, esses indicadores mostram que o volume de políticas e recursos destinados à Amazônia não tem sido suficiente para reduzir as diferenças de desenvolvimento em relação às demais regiões brasileiras.

    Floresta tem papel estratégico para a economia brasileira

    O estudo destaca que a conservação da floresta deve ser incorporada à estratégia econômica do país porque os serviços ambientais prestados pela Amazônia sustentam atividades produtivas dentro e fora da região. A evapotranspiração da floresta contribui para os chamados “rios voadores”, que influenciam o regime de chuvas em áreas agrícolas, reservatórios hidrelétricos, sistemas de abastecimento urbano e hidrovias.

    Os impactos econômicos dessa relação já podem ser dimensionados. Os rios voadores passam por regiões onde estão 17 das 20 maiores hidrelétricas brasileiras, e as usinas de Itaipu e Belo Monte perdem juntas cerca de 3.700 GWh de potencial de geração por ano. Na agropecuária, a escassez hídrica provocou perdas estimadas em R$ 186 bilhões na agricultura e R$ 64 bilhões na pecuária entre 2013 e 2022. A vulnerabilidade é ampliada pelo fato de apenas 13% da área agrícola brasileira contar com irrigação.

    Áreas já abertas podem sustentar aumento da produção

    Na agropecuária, o relatório defende que os recursos públicos sejam utilizados prioritariamente para elevar a produtividade das áreas já abertas, recuperar terras degradadas e ampliar a rastreabilidade, em vez de estimular a expansão da produção sobre novas áreas de floresta. Desde 1975, aproximadamente 86 milhões de hectares de floresta foram perdidos na Amazônia, e parte dessas áreas encontra-se atualmente degradada, abandonada ou subutilizada.

    O relatório também aponta oportunidades na produção de bens compatíveis com a floresta, como açaí, cacau, castanha-do-brasil, pimenta-do-reino, peixes e frutas tropicais. O mercado internacional desses produtos movimenta quase US$ 288 bilhões por ano, mas a Amazônia brasileira captura menos de 0,3% desse valor, indicando espaço para políticas voltadas à produtividade, inovação, promoção comercial e fortalecimento das cadeias produtivas.

    Incentivos fiscais e royalties devem deixar benefícios permanentes

    A análise também aborda a Zona Franca de Manaus (ZFM) e propõe maior conexão dos incentivos fiscais com a economia regional. Como o modelo foi prorrogado até 2073, os autores recomendam associar os benefícios à geração de empregos qualificados, formação profissional, infraestrutura, desenvolvimento da bioeconomia, tecnologia e serviços especializados, além de estabelecer contrapartidas relacionadas à produtividade e à inserção de fornecedores locais.

    No caso da mineração, a recomendação é utilizar os royalties para financiar investimentos capazes de permanecer nos municípios após o esgotamento dos recursos minerais. Em 2025, a Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) arrecadou cerca de R$ 3,4 bilhões na Amazônia Legal, dos quais mais de 92% estavam concentrados no Pará. O estudo propõe priorizar infraestrutura, saúde, educação, planejamento de longo prazo e diversificação econômica, reduzindo a dependência das economias locais em relação à atividade mineral.

    O estudo conclui que o Brasil já dispõe de instrumentos financeiros e institucionais capazes de contribuir para uma mudança na trajetória de desenvolvimento da Amazônia. A proposta é redirecionar bancos públicos, fundos constitucionais, crédito e incentivos fiscais para atividades mais produtivas nas áreas já abertas, restauração, produção agroflorestal e atividades de base florestal, combinando essas medidas com investimentos em infraestrutura urbana, qualificação profissional e segurança territorial.

    Para os autores, reduzir o desmatamento continua sendo uma condição necessária, mas precisa ser acompanhado por uma estratégia econômica que permita transformar as áreas já desmatadas, a floresta remanescente e a força de trabalho da região em fontes de produtividade, renda e emprego, de forma a aproximar desenvolvimento econômico, melhoria das condições sociais e conservação ambiental.

  • Novas Ameaças ao Desmatamento da Amazônia: Impactos Esperados das Rodovias BR-364 e BR-319 e das Ferrovias FICO 1 e Ferrovia Estadual do Mato Grosso

    Novas Ameaças ao Desmatamento da Amazônia: Impactos Esperados das Rodovias BR-364 e BR-319 e das Ferrovias FICO 1 e Ferrovia Estadual do Mato Grosso

    Quatro obras de infraestrutura na Amazônia podem ampliar a conectividade logística de 302 municípios, mas também aumentar a pressão sobre milhões de hectares de floresta e contribuir para o crescimento da criminalidade. O alerta é do novo estudo do Climate Policy Initiative/PUC-Rio (CPI/PUC-Rio) e do Amazônia 2030.

    Pesquisadores analisaram o impacto da modernização da BR-364 em Rondônia, do asfaltamento do trecho do meio da BR-319 no Amazonas, da implantação da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO 1) e da Ferrovia Estadual no Mato Grosso (FMT). Juntas, as obras buscam reduzir custos de transporte para produtores e consumidores.

    Mas, além dos impactos econômicos positivos, o estudo mostra que a área de influência dos quatro projetos engloba 44 milhões de hectares de florestas localizados em glebas públicas sem destinação formal, área equivalente ao estado do Maranhão. Para delimitar a área de influência, os autores do estudo utilizaram a metodologia de acesso a mercado.

    “A metodologia desenvolvida pelo CPI/PUC-Rio define qual é a área de influência de um projeto. Entendemos que os impactos econômicos, sociais e ambientais dos projetos não se restringem ao entorno da obra. A área de influência engloba todos os municípios cujo acesso a mercado é ampliado pelo projeto, o que corresponde a uma área bem maior que a usualmente considerada no planejamento dos projetos.”, diz Gustavo Pinto, gerente de pesquisa do CPI/PUC-Rio e pesquisador do Amazônia 2030.

    Para os autores do estudo, a delimitação da área de influência tem implicações diretas para o planejamento de salvaguardas socioambientais, pois medidas de mitigação restritas ao traçado da obra ou a um buffer de poucos quilômetros não são suficientes para conter todos os efeitos negativos do projeto.

    “Benefícios e custos econômicos, sociais e ambientais precisam ser considerados nos projetos de infraestrutura terrestre para garantir devida proteção dos territórios. De fato, o acesso a mercados pode gerar benefícios econômicos, aumentar a competitividade regional e reduzir custos logísticos. Mas, em áreas de floresta e com governança fundiária frágil, a melhoria na conectividade também pode incentivar a grilagem, o desmatamento e outras atividades ilegais.”, afirma João Pedro Arbache, pesquisador sênior do CPI/PUC-Rio e do Amazônia 2030.

    Arbache explica que direitos de propriedade frágeis associados à baixa capacidade de fiscalização tornam as terras vulneráveis à devastação, à ocupação irregular e à expansão da criminalidade.
    Para ele, “a associação do desmatamento com o crime organizado tem se intensificado na Amazônia. Combater o desmatamento é, assim, uma forma de impedir a expansão da criminalidade. É crucial integrar o planejamento de transportes, ordenamento territorial, políticas de comando e controle, de conservação e de contenção da criminalidade.”

    Os pesquisadores defendem, assim, que seja delimitada e caracterizada a área de influência dos projetos: quanto de cobertura florestal nativa ainda está presente, qual é a densidade demográfica, a produção agrícola, o PIB per capita e o perfil fundiário dos territórios afetados.

    “As áreas de influência dos projetos podem apresentar perfis fundiários e de uso do solo distintos. A caracterização é, assim, crucial para identificarmos os territórios mais vulneráveis e propor medidas para evitar ou mitigar os efeitos negativos compatíveis com os territórios afetados.”, explica Pinto.

    O estudo mostra que as áreas de influência dos quatro projetos têm estágios variados de consolidação da fronteira agrícola. Alguns municípios apresentam processo de conversão de terra avançado e poucos remanescentes de vegetação nativa. Outros municípios situados no Amazonas apresentam extensas coberturas florestais e previsão de expressivos ganhos de acesso a mercado após a conclusão das obras. Para os autores, essas regiões devem ser prioridade para ações de ordenamento territorial, destinação fundiária, monitoramento ambiental, combate à grilagem e ao desmatamento.

    “Medidas de contenção das atividades ilegais e danosas ao meio ambiente e à sociedade precisam ser implementadas em tempo hábil”, diz Pinto. Ele explica que a janela de oportunidade para implementar essas medidas está se fechando rapidamente, uma vez que os quatros projetos já estão em implantação. “Parte dos efeitos sobre ocupação territorial pode ocorrer antes mesmo da conclusão das obras.”, complementa Arbache.

  • Fatos da Amazônia – 2026

    Fatos da Amazônia – 2026

    O Fatos da Amazônia 2026 reúne e atualiza alguns dos principais indicadores ambientais, sociais e econômicos da Amazônia, oferecendo um panorama amplo das transformações recentes da região. Produzida pelo Projeto Amazônia 2030, a publicação sistematiza dados de diferentes instituições públicas e da sociedade civil sobre temas como território, população, desmatamento, queimadas, produção agropecuária, bioeconomia, segurança pública, progresso social, pobreza e economia. O objetivo é facilitar o acesso a informações essenciais para compreender os desafios e as oportunidades da Amazônia e contribuir para políticas capazes de conciliar desenvolvimento econômico, melhoria da qualidade de vida e conservação dos recursos naturais.

    O Fatos da Amazônia 2026 é de autoria de Daniel Santos, Arthur França, Manuele Lima, Agatha Vilhena e Beto Veríssimo. A nova edição mostra uma Amazônia marcada por contrastes. Indicadores ambientais importantes apresentaram melhora recente, com redução do desmatamento e forte queda dos focos de calor em 2025. Ao mesmo tempo, a região continua enfrentando desafios estruturais relacionados à pobreza, violência e qualidade de vida. A Amazônia Legal possui quase 29 milhões de habitantes, mas apresenta desempenho no Índice de Progresso Social inferior ao restante do país.

    Principais destaques

    • Território e população: a Amazônia Legal ocupa cerca de 5 milhões de km², equivalentes a 59% do território brasileiro, e reúne 28,5 milhões de habitantes em 773 municípios — aproximadamente 13% da população do país.
    • Cinco Amazônias: a região pode ser dividida de acordo com suas características ambientais e de ocupação em Amazônia florestal, que representa 39% do território; florestal sob pressão, 29%; desmatada, 11%; e não florestal, predominantemente Cerrado, 21%. A maior parte da população, 76%, vive em áreas urbanas.
    • Desmatamento: a taxa de perda de floresta primária caiu de 13.038 km² em 2021 para 5.731 km² em 2025, o menor patamar desde 2015. Apesar da redução recente, a Amazônia Legal já perdeu aproximadamente 863 mil km² de floresta, equivalentes a cerca de 21% de sua cobertura florestal original.
    • Queimadas: depois de registrar quase 194 mil focos de calor em 2024, a Amazônia Legal contabilizou 71.276 focos em 2025, uma redução de 63% e o menor número registrado desde 2000.
    • Agricultura e pecuária: a área destinada à agricultura na região passou de pouco mais de 8 milhões de hectares em 2000 para 30 milhões em 2024. No mesmo período, o rebanho bovino cresceu de 47 milhões para 107 milhões de cabeças, fazendo com que a Amazônia Legal concentrasse 45% do rebanho brasileiro em 2024.
    • Bioeconomia: o valor da produção de açaí nativo na Amazônia Legal mais que dobrou em uma década, passando de R$ 480 milhões em 2015 para mais de R$ 1 bilhão em 2024. O Pará permanece como o maior produtor do país.
    • Progresso social: a Amazônia Legal obteve 58,18 pontos no IPS Brasil 2026, abaixo dos 64,21 pontos registrados no restante do Brasil. Palmas (TO), Cuiabá (MT) e Araguainha (MT) aparecem entre os municípios amazônicos com melhores resultados.
    • Desmatamento e qualidade de vida: os municípios que mais desmataram recentemente também apresentam, em geral, baixos níveis de progresso social. Entre os 20 maiores desmatadores entre 2020 e 2025 estão Altamira (PA), São Félix do Xingu (PA), Lábrea (AM), Porto Velho (RO) e Apuí (AM).
    • Pobreza: cerca de 37% da população da Amazônia Legal estava em situação de pobreza em 2025. Pelo critério internacional de Paridade de Poder de Compra de US$ 4,20, quase 14% da população regional permanecia abaixo da linha de pobreza.
    • Violência: a taxa de homicídios caiu do pico de mais de 42 mortes por 100 mil habitantes, registrado em 2018, para 27,7 por 100 mil habitantes em 2024. Apesar da redução, diversos municípios amazônicos ainda registraram taxas superiores a 70 homicídios por 100 mil habitantes.
    • Economia: o PIB real da Amazônia Legal alcançou cerca de R$ 1 trilhão em 2023, representando quase 10% da economia brasileira. Mato Grosso, com R$ 285 bilhões, e Pará, com R$ 266 bilhões, lideram a economia regional.

     

    O estudo reforça que não existe uma única Amazônia. A região reúne realidades muito diferentes em termos de conservação florestal, produção econômica, urbanização e condições de vida. Os dados mostram avanços importantes em indicadores ambientais recentes, mas evidenciam que reduzir o desmatamento precisa caminhar ao lado de políticas capazes de gerar prosperidade, segurança e melhores condições sociais para a população amazônica.

  • Agricultura na Amazônia Legal: Condições de Produtividade, Riscos Climáticos e Propostas para Produzir Melhor em Áreas já Abertas

    Agricultura na Amazônia Legal: Condições de Produtividade, Riscos Climáticos e Propostas para Produzir Melhor em Áreas já Abertas

    A Amazônia Legal pode ampliar sua produção agropecuária sem a necessidade de converter novas áreas de floresta. Essa é a principal conclusão do estudo “Agricultura na Amazônia Legal: condições de produtividade, riscos climáticos e propostas para produzir melhor em áreas já abertas”, de Paulo Barreto, Ritaumaria Pereira e Gabriel Salles Barreto, publicado pelo Amazônia 2030.

    O trabalho demonstra que o principal desafio da agricultura amazônica não é a falta de terras disponíveis, mas a baixa produtividade em grande parte das áreas já abertas. Ao mesmo tempo, os produtores enfrentam um cenário cada vez mais complexo, marcado pelo aumento das secas, incêndios e outros eventos climáticos extremos, além de exigências ambientais mais rigorosas para acesso ao crédito rural e aos mercados internacionais.

    Segundo os autores, esses desafios podem ser enfrentados sem expandir a fronteira agrícola. A experiência de diferentes regiões da Amazônia mostra que, quando produtores têm acesso simultâneo à pesquisa, assistência técnica, crédito, infraestrutura, armazenagem e mercados consumidores, é possível alcançar níveis de produtividade comparáveis aos das regiões mais produtivas do país. Casos como a produção de grãos em Mato Grosso e o aumento da produtividade da mandioca em Rondônia demonstram esse potencial.

    Apesar dessas experiências, a maior parte dos agricultores da Amazônia ainda enfrenta limitações para produzir mais. Apenas 10% dos estabelecimentos rurais da região Norte recebem assistência técnica, enquanto somente 9% dos agricultores familiares conseguem acessar crédito rural. A distância dos mercados consumidores, a deficiência logística e as dificuldades para participar de programas de compras públicas também restringem o desenvolvimento da produção regional.

    O estudo também chama atenção para o impacto crescente das mudanças climáticas sobre a agricultura amazônica. Entre 2021 e 2024, os prejuízos agropecuários registrados na Amazônia Legal alcançaram média anual próxima de R$ 6 bilhões. Secas prolongadas reduzem a produção e dificultam a navegação dos rios; cheias comprometem o transporte e a comercialização; incêndios afetam lavouras, pastagens e a saúde da população. Além disso, o desmatamento reduz a reciclagem de umidade, diminui as chuvas e aumenta os riscos para a própria atividade agropecuária.

    Os pesquisadores destacam ainda que as exigências ambientais passaram a influenciar diretamente a competitividade do setor. Restrições ao crédito rural para imóveis com irregularidades ambientais e novas regras internacionais de rastreabilidade tornam cada vez mais importante conciliar aumento da produtividade com conservação da floresta. Ao mesmo tempo, estudos mostram que a expansão da produção prevista para os próximos anos pode ocorrer nas áreas já desmatadas, especialmente por meio da recuperação de pastagens degradadas.

    Cinco recomendações para uma agricultura mais produtiva e resiliente

    Com base nas evidências reunidas, o estudo apresenta cinco propostas para orientar políticas públicas e investimentos na Amazônia Legal:

    • criar fontes estáveis de financiamento para pesquisa, assistência técnica e adaptação às mudanças climáticas;
    • fortalecer a resiliência dos pequenos produtores por meio de compras públicas, assistência técnica e infraestrutura local;
    • priorizar investimentos em infraestrutura que reduzam custos de produção sem estimular novos desmatamentos;
    • ampliar a pesquisa voltada à adaptação da agricultura amazônica aos riscos climáticos; e
    • tratar a floresta em pé como uma infraestrutura essencial para manter o regime de chuvas, reduzir riscos climáticos e sustentar a produção agropecuária.

    Para os autores, o fortalecimento da agricultura amazônica depende menos da criação de novos instrumentos e mais da coordenação das políticas já existentes. Crédito, pesquisa, assistência técnica, infraestrutura, compras públicas e conservação da floresta produzem melhores resultados quando são implementados de forma integrada. Essa combinação pode elevar a produtividade, aumentar a renda dos produtores, fortalecer a segurança alimentar e reduzir a pressão por novos desmatamentos na Amazônia.

  • The Leading Role of Brazilian Forests in the Global Climate Agenda – 2nd Edition

    The Leading Role of Brazilian Forests in the Global Climate Agenda – 2nd Edition


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    Brazilian agribusiness, which is already responsible for conserving vast areas through Legal Reserves, could become one of the main drivers of forest expansion in the country over the coming decades. This is one of the key conclusions of the second edition of the study Brazilian Forests at the Center of the Global Climate Agenda, which provides a comprehensive overview of forest conservation, restoration, and planted forests in Brazil, along with recommendations on financing and public policies. The document, which will be presented this year at all three United Nations Conferences of the Parties (COPs) — Climate, Biodiversity, and Desertification — argues that agricultural production, conservation, and forest expansion are not competing agendas, but complementary ones.

    According to the study, a significant portion of Brazil’s environmental conservation already takes place within rural properties through Legal Reserves and Permanent Preservation Areas (APPs). In addition, there is a substantial amount of privately owned land with limited suitability for agriculture or livestock production that could be allocated to forest restoration. At the same time, demand for planted forests to supply bioenergy production continues to grow.

    The second edition of the publication was developed by a coalition of institutions including Instituto Arapyaú, Instituto Itaúsa, Agroicone, the Brazilian Tree Industry (Ibá), the Brazil Climate, Forests and Agriculture Coalition, the Climate and Society Institute (iCS), Imazon, Amazônia 2030, CEBDS, and Uma Concertação pela Amazônia. One of its objectives is to influence the UNFCCC (United Nations Framework Convention on Climate Change) to recognize forests as central to carbon removal and storage efforts.

    The new edition has received formal support from the COP30 Presidency. The material also served as an input for the organizations’ technical contributions to the Roadmap to Halt and Reverse Deforestation and Forest Degradation by 2030, proposed by the Brazilian COP30 Presidency.

    The first edition of the report, launched during the conference in Belém, showed that Brazil could reverse the deforestation curve and expand its forests by 2035, increasing forest cover from 517 million to 525 million hectares within ten years. This gain of 8 million hectares — equivalent to twice the size of Switzerland — would directly increase carbon stocks and strengthen the country’s strategic role in global climate stability.

    By offering a broad perspective on Brazil’s forest landscapes, the publication aims to identify challenges and outline pathways for reversing the historical loss of native vegetation and expanding forest cover once again. The analysis is structured around three pillars — conservation, forest restoration, and silviculture — and applies the internationally recognized concept of a “forest continuum,” which captures different forms of forest use and management across landscapes. Under this framework, preserved forests, sustainable forest management, restoration systems, and planted forests with native and exotic species coexist as part of a broader landscape strategy. According to the study, all these approaches can generate environmental and economic benefits, whether through biodiversity and water resource conservation, carbon sequestration, or supplying productive sectors.

    In this edition, the authors expanded the scope of the analysis to include all of Brazil’s terrestrial biomes. In addition to the Amazon and Atlantic Forest, the study covers the Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa, and Coastal Zone, highlighting the importance of these ecosystems for carbon removal, soil protection, water cycle regulation, and biodiversity conservation.

    The report also emphasizes the strategic role of Indigenous Peoples and traditional communities in conserving Brazil’s forests. According to Imazon data, Indigenous Lands accounted for only 3% of all Amazon deforestation between 2012 and 2024, the lowest rate among all monitored territorial categories. The authors argue that strengthening territorial governance and expanding recognition of these populations as forest stewards will be essential for advancing conservation, restoration, and sustainable production.

    Agribusiness and the Forest Transition

    The connection between agribusiness and the forest transition operates through multiple pathways. A significant share of Brazil’s environmental conservation already occurs within private rural properties through Legal Reserves and Permanent Preservation Areas established under the Forest Code. The report reinforces that Brazil has already demonstrated its ability to reduce deforestation without harming agricultural production. Between 2004 and 2012, Amazon deforestation fell by 80%, while agricultural output in the region nearly doubled. During the same period, more than 55 million hectares were protected through conservation units.

    Forests are also essential for maintaining the climatic conditions that sustain Brazilian agriculture, particularly through the so-called “flying rivers” — atmospheric moisture flows that transport rainfall from the Amazon to the country’s Center-South region. The publication cites an international study published in 2026 in Communications Earth & Environment (Nature Portfolio), according to which the Brazilian Legal Amazon generates rainfall worth approximately US$20 billion per year for agriculture.

    Another major opportunity lies in forest restoration. According to the report, there is a substantial amount of privately owned land with limited suitability for agriculture or livestock production — such as highly degraded or steeply sloped areas — that could be dedicated to forest recovery. In addition to generating climate and biodiversity benefits, restoration helps landowners comply with environmental obligations under the Forest Code while creating opportunities for carbon credit generation and new income streams. By 2050, according to projections by the World Resources Institute (WRI), restoration could generate US$141 billion in Brazil through carbon markets, food production, biomaterials, and bioenergy.

    A preliminary assessment conducted by Agroicone in partnership with Floraz — a business-led initiative created to strengthen the forest restoration sector in Brazil — identified millions of hectares with restoration potential on agribusiness-linked lands, particularly degraded pastures. The study combined public and private geospatial datasets to identify areas suitable for restoration with native species, considering criteria such as low agricultural suitability, absence of recent deforestation, property size, and proximity to timber industry hubs. Under a conservative scenario, approximately 2.6 million hectares suitable for restoration were identified across roughly 8,000 rural properties.

    The expansion of corn ethanol production in Brazil has also increased, in some regions, the demand for forest biomass — especially eucalyptus and pine — used to generate thermal energy in processing plants, strengthening the connection between silviculture, bioenergy, and decarbonization strategies. During the 2024/2025 harvest season, corn ethanol accounted for 22% of total ethanol production in Brazil, reaching 8.2 million cubic meters. The Mato Grosso Institute of Agricultural Economics (Imea) projects this figure could reach 22.55 million cubic meters by 2034/2035.

    Adaptation: Forests Beyond Carbon

    The global forest agenda is beginning to shift its focus. While recent years have centered on carbon sequestration and the generation of tradable carbon credits, the physical impacts of climate change are increasingly placing adaptation at the center of economic discussions.

    The authors highlight that prolonged droughts, forest fires, extreme weather events, and water crises are already directly affecting productive sectors, infrastructure, and public finances. As a result, forests are increasingly viewed as a form of “natural infrastructure” capable of reducing climate risks, regulating rainfall patterns, protecting soils, and providing stability for agricultural, energy, and logistics systems.

    According to the report, the economic value of forests extends far beyond carbon and is increasingly linked to their capacity to ensure resilience and economic continuity in a world facing growing climate instability.

    However, the authors warn that financing for the forest agenda remains far below global needs. Despite growing recognition of forests’ strategic importance for climate stability, water security, and biodiversity, private capital continues to concentrate in markets perceived as less risky, leaving forest projects chronically underfunded. The publication argues that increasing financial flows alone will not be sufficient without structural changes in how the forest agenda is financed.

    The report advocates for blended finance models that combine public and private resources, as well as de-risking mechanisms, financial guarantees, and project-finance-inspired structures to make forest investments more attractive. A particularly important trend is the growing attention given to funds directed toward Indigenous Peoples and local communities, which are increasingly recognized as essential actors in achieving long-term environmental outcomes.

    The report concludes that the future of forest finance will depend on the intelligent combination of these instruments, rather than reliance on any single solution.

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  • The Leading Role of Brazilian Forests in the Global Climate Agenda

    The Leading Role of Brazilian Forests in the Global Climate Agenda


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    Brazil has the most favorable conditions on the planet to lead the global climate agenda through forest conservation, restoration, and forestry. This is the main conclusion of the study The Leadership of Brazilian Forests in the Global Climate Agenda, which presents consolidated data on the strategic role of Brazil’s forests in addressing the climate crisis.

    According to the report, forests are among the most scalable and cost-effective climate solutions currently available, absorbing approximately one-third of annual global greenhouse gas emissions generated by human activities. Without conserved, sustainably managed, and restored forests, achieving the goals of the Paris Agreement becomes impossible.

    Brazil occupies a central position in this context. The country is home to the world’s largest continuous area of tropical forests and holds the greatest global potential for forest restoration. Today, Brazil has approximately 500 million hectares of native forests, equivalent to nearly 60% of its national territory.

    Two Scenarios for 2035

    The study projects two scenarios for 2035. Under the baseline scenario, assuming average deforestation levels continue, the country would experience an estimated 1% loss in the carbon stock of its forest ecosystems.

    Under the potential scenario, with illegal deforestation reduced to near zero by 2030, expanded forest restoration, and growth in commercial forestry, Brazil could achieve a net gain of approximately 1% in forest carbon stocks, reversing the historical trend of forest loss.

    This progress could be achieved without competing with food production. The study indicates that vast areas of underutilized deforested land are available to support agricultural expansion while simultaneously enabling forest restoration and commercial tree planting.

    Forest Code and Market-Based Instruments

    Brazil already has a robust legal framework for forest protection, particularly through the Forest Code, which safeguards Permanent Preservation Areas (APPs) and Legal Reserves on rural properties. It is estimated that 215 million hectares are currently conserved or reforested within agricultural lands dedicated to food production.

    The report also highlights promising financial mechanisms to scale up conservation efforts, such as the Tropical Forests Forever Facility (TFFF) and Jurisdictional REDD+. Alongside these instruments, command-and-control policies combined with territorial planning have already demonstrated their effectiveness. Between 2004 and 2012, for example, deforestation in the Amazon was reduced by 80%.

    Expanding Forest Restoration and Commercial Forestry

    Forest restoration using native species is emerging as a new economic frontier, attracting private investment and potentially reaching millions of hectares by 2035.

    Meanwhile, commercial forestry based on exotic species—considered among the most competitive in the world—is expected to expand from 4 million hectares to as much as 6.2 million hectares over the next decade, primarily on previously degraded lands.

    Beyond carbon sequestration, Brazil’s forests play a crucial role in regulating rainfall patterns, ensuring water security, supporting agricultural production, and conserving biodiversity.

    According to the authors, consolidating Brazil’s leadership will require a combination of effective protection against illegal deforestation, expanded restoration efforts, strengthened bioeconomy initiatives, and the creation of financial mechanisms capable of transforming natural capital into a strategic asset for sustainable development.

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  • O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global – 2ª Edição

    O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global – 2ª Edição

    O agronegócio brasileiro, que já é responsável por grande área de conservação por meio de Reserva Legal, pode ser um dos principais vetores da expansão das florestas no país nas próximas décadas. Essa é uma das conclusões da segunda edição do estudo “O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global”, que traça um panorama completo sobre conservação, restauração florestal e silvicultura no país, com recomendações sobre financiamento e políticas públicas. O documento, que será apresentado este ano nas três Conferências das Partes da ONU (as COPs do Clima, da Biodiversidade e da Desertificação), defende que a produção agropecuária, a conservação e a expansão florestal não são agendas opostas, mas complementares.

    Segundo o estudo, além de parte importante da conservação ambiental brasileira estar dentro das propriedades rurais – por meio das áreas de Reserva Legal e das Áreas de Preservação Permanente (APPs) -, há um volume significativo de áreas privadas pouco aptas para a agricultura ou pecuária que podem ser destinadas à restauração florestal. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por florestas plantadas para a produção de bioenergia.

    A segunda edição da publicação foi realizada por uma coalizão de instituições formada por Instituto Arapyaú, Instituto Itaúsa, Agroicone, Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Instituto Clima e Sociedade (iCS), Imazon, Amazônia 2030, CEBDS e Uma Concertação para a Amazônia. Um dos objetivos é influenciar a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática) para que reconheça as florestas como centrais para remoção e armazenamento de carbono.

    A nova versão recebeu o apoio formal da presidência da COP30. O material também serviu de insumo para as contribuições técnicas das organizações para o Mapa do Caminho para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030, proposto pela presidência brasileira durante a COP30.

    A primeira edição do documento, lançado durante a conferência em Belém, revelou que o Brasil pode inverter a curva do desmatamento e expandir florestas até 2035, passando de 517 milhões para uma cobertura florestal de 525 milhões de hectares em dez anos. O avanço de 8 milhões de hectares, equivalente a duas vezes o território da Suíça, teria impacto direto na ampliação dos estoques de carbono e reforçaria o papel estratégico do país no equilíbrio climático global.

    Com uma visão abrangente das paisagens florestais do país, o documento tem o objetivo de mostrar os desafios e apontar os caminhos para que o Brasil reverta a perda histórica de cobertura vegetal e volte a ampliar suas florestas. A análise está organizada em três frentes (conservação, restauração florestal e silvicultura) e utiliza o conceito de “contínuo florestal”, adotado internacionalmente para compreender diferentes formas de uso e manejo das florestas ao longo do território. Nesse modelo, coexistem desde áreas preservadas e manejo sustentável até sistemas de restauração e florestas plantadas com espécies nativas e exóticas, voltadas à produção econômica. Segundo o estudo, todas essas modalidades podem gerar benefícios ambientais e econômicos, seja pela preservação da biodiversidade e dos recursos hídricos, seja pela captura de carbono e pelo abastecimento de cadeias produtivas.

    Nesta edição, os autores ampliaram o escopo da análise para incorporar informações sobre todos os biomas terrestres brasileiros. Além da Amazônia e da Mata Atlântica, o levantamento inclui Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa e Zona Costeira, pela importância dessas paisagens para remoção de carbono, proteção dos solos, regulação do ciclo hidrológico e conservação da biodiversidade.

    O relatório também destaca o papel estratégico dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na conservação das florestas brasileiras. Segundo dados do Imazon, as terras indígenas registraram apenas 3% de todo o desmatamento da Amazônia entre 2012 e 2024, o menor índice entre os diferentes tipos de territórios monitorados. Para os autores, fortalecer a governança territorial e ampliar o reconhecimento dessas populações como guardiãs das florestas será fundamental para avançar em conservação, restauração e produção sustentável.

    Agronegócio e transição florestal 

    A conexão entre o agronegócio e a transição florestal se dá por muitos caminhos. Parte importante da conservação ambiental brasileira, por exemplo, está dentro das propriedades rurais privadas, por meio das áreas de Reserva Legal e das Áreas de Preservação Permanente (APPs) previstas no Código Florestal. A publicação reforça que o Brasil já demonstrou capacidade de reduzir o desmatamento sem prejudicar a produção agropecuária. Entre 2004 e 2012, a taxa de desmatamento da Amazônia caiu 80%, enquanto a produção agropecuária da região praticamente dobrou. No período, mais de 55 milhões de hectares foram protegidos por unidades de conservação.

    As florestas também são essenciais para manter as condições climáticas que sustentam a agricultura brasileira, especialmente por meio dos chamados “rios voadores”, correntes de umidade que levam chuvas da Amazônia para o Centro-Sul do país. A publicação cita um estudo internacional divulgado em 2026 na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, segundo o qual a Amazônia Legal brasileira gera precipitações avaliadas em cerca de US$20 bilhões por ano para a agricultura.

    Outra oportunidade para a produção agropecuária está na restauração florestal. Segundo o documento, há um volume significativo de áreas privadas pouco aptas para a agricultura ou pecuária – como terrenos muito inclinados ou degradados – que podem ser destinadas à recuperação florestal. Além de gerar benefícios para o clima e para a biodiversidade, a restauração ajuda produtores rurais a regularizar passivos ambientais previstos no Código Florestal e ainda cria oportunidades de geração de créditos de carbono e novas fontes de renda no campo. Até 2050, de acordo com uma projeção feita pela WRI, a restauração pode gerar US$141 bilhões no Brasil, montante que inclui carbono, alimentos, biomateriais e bioenergia.

    Um levantamento preliminar conduzido pela Agroicone em parceria com o movimento Floraz, iniciativa empresarial criada para estruturar o setor de restauração florestal no Brasil, identificou milhões de hectares com potencial para projetos de restauro em áreas ligadas ao agronegócio, especialmente em pastagens degradadas. O estudo cruzou bases públicas e privadas de dados geoespaciais para mapear regiões aptas à recuperação com espécies nativas, considerando critérios como baixa aptidão agrícola, ausência de desmatamento recente, tamanho das propriedades e distância de polos industriais de madeira. Em um cenário mais conservador, o trabalho identificou cerca de 2,6 milhões de hectares aptos para restauração distribuídos em aproximadamente 8 mil propriedades rurais.

    O avanço do etanol de milho no Brasil tem aumentado, em algumas regiões, a demanda por biomassa florestal — especialmente eucalipto e pinus — utilizada para geração de energia térmica nas usinas, fortalecendo a interface entre silvicultura, bioenergia e estratégias de descarbonização. Na safra 2024/2025, a produção de etanol de milho representou 22% da produção total de etanol do país, alcançando 8,2 milhões de metros cúbicos. A previsão do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) é de que o volume chegue a 22,55 milhões de metros cúbicos até 2034/2035.

    Adaptação: florestas para além do carbono

    A agenda florestal global começa a passar por uma mudança de foco. Se nos últimos anos o debate esteve concentrado na captura de carbono e na geração de créditos negociáveis, agora os impactos físicos das mudanças climáticas colocam a adaptação no centro da discussão econômica. Os autores destacam que secas prolongadas, incêndios florestais, eventos extremos e crises hídricas já afetam diretamente cadeias produtivas, infraestrutura e finanças públicas. Por isso, as florestas passam a ser vistas como uma espécie de “infraestrutura natural”, capaz de reduzir riscos climáticos, regular regimes de chuva, proteger solos e dar estabilidade à produção agrícola, energética e logística. Segundo o documento, o valor econômico das florestas vai além do carbono e está cada vez mais ligado à capacidade de garantir resiliência e continuidade econômica em um cenário de maior instabilidade climática.

    Os autores alertam, no entanto, que o financiamento da agenda florestal ainda está muito aquém da necessidade global. Embora exista um maior reconhecimento sobre o papel estratégico das florestas para estabilidade climática, segurança hídrica e biodiversidade, o capital privado ainda se concentra em mercados considerados menos arriscados, deixando projetos florestais subfinanciados. A publicação aponta que ampliar o fluxo de recursos não será suficiente sem mudanças estruturais na forma de financiar a agenda florestal.

    O documento defende modelos de blended finance (que combinam recursos públicos e privados), além de mecanismos de “de-risking”, garantias financeiras e estruturas inspiradas em project finance para tornar os projetos mais atrativos aos investidores. Um destaque importante é a crescente atenção a fundos destinados a povos indígenas e comunidades locais, reconhecidos como atores centrais para resultados ambientais duradouros. O relatório aponta que o futuro do financiamento florestal dependerá da combinação inteligente desses instrumentos, e não da aposta em uma única solução.

  • O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global

    O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global

    O Brasil reúne as condições mais favoráveis do planeta para liderar a agenda climática global por meio da conservação, restauração florestal e silvicultura. Essa é a principal conclusão do estudo O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global, que apresenta dados consolidados sobre o papel estratégico das florestas brasileiras no enfrentamento da crise climática.

    Segundo o documento, as florestas estão entre as soluções climáticas mais escaláveis e custo-efetivas disponíveis atualmente, sendo responsáveis por absorver cerca de um terço das emissões globais anuais de gases de efeito estufa provenientes da atividade humana. Sem florestas conservadas, manejadas e restauradas, o cumprimento das metas do Acordo de Paris torna-se inviável.

    O Brasil ocupa posição central nesse cenário. O país detém a maior área contínua de florestas tropicais do mundo e concentra o maior potencial global de restauração florestal. Atualmente, são cerca de 500 milhões de hectares de florestas nativas, o equivalente a quase 60% do território nacional.

    Dois cenários para 2035

    O estudo projeta dois cenários para 2035. No cenário base, mantidos níveis médios de desmatamento, o país registraria perda aproximada de 1% no estoque de carbono das formações florestais.

    No cenário potencial, com desmatamento ilegal próximo de zero até 2030, expansão da restauração e crescimento da silvicultura, o Brasil poderia gerar um ganho líquido de aproximadamente 1% no estoque de carbono, revertendo a curva histórica de perda florestal.

    Esse avanço seria possível sem competir com a produção de alimentos. O levantamento indica que há extensas áreas desmatadas subutilizadas aptas a atender a expansão agropecuária e, simultaneamente, permitir a restauração florestal e o plantio comercial de árvores.

    Código Florestal e instrumentos de mercado

    O país já dispõe de arcabouço legal robusto para proteção das florestas, com destaque para o Código Florestal, que assegura Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais em propriedades rurais. Estima-se que 215 milhões de hectares estejam conservados ou reflorestados em imóveis rurais voltados à produção de alimentos.

    O estudo também aponta mecanismos financeiros promissores para escalar a conservação, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, TFFF, e o REDD+ Jurisdicional. Ao lado desses instrumentos, políticas de comando e controle combinadas com ordenamento territorial já demonstraram eficácia histórica, como ocorreu entre 2004 e 2012, quando o desmatamento na Amazônia foi reduzido em 80%.

    Restauração e silvicultura em expansão

    A restauração florestal com espécies nativas desponta como nova fronteira econômica, atraindo capital privado e podendo alcançar milhões de hectares até 2035.

    Já a silvicultura de espécies exóticas, considerada a mais competitiva do mundo, deve expandir sua área plantada de 4 milhões para até 6,2 milhões de hectares na próxima década, sobretudo em áreas anteriormente degradadas.

    Além da captura de carbono, as florestas brasileiras exercem papel crucial na regulação do regime de chuvas, na segurança hídrica, na produção agrícola e na conservação da biodiversidade.

    Para os autores, consolidar o protagonismo brasileiro exige combinar proteção efetiva contra o desmatamento ilegal, ampliação da restauração, fortalecimento da bioeconomia e criação de mecanismos financeiros capazes de transformar o capital natural em ativo estratégico para o desenvolvimento sustentável.

  • The Forest-Climate Nexus for the Brazilian Amazon

    The Forest-Climate Nexus for the Brazilian Amazon


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    Developed from a mechanism created by CPI/PUC-Rio, the new study implements the Deforestation Reversal Mechanism (RDM) to restore forests at scale in the Amazon. The RDM was originally conceived after COP30 President, Ambassador André Corrêa do Lago, convened a council of economists to contribute to the economic dimensions of the conference, including the “Baku to Belém Roadmap for 1.3T” and the COP30 Action Agenda.

    The new analysis shows that the mechanism could generate US$784 billion over 30 years and capture up to 26 gigatons of CO₂ in the Brazilian Amazon, assuming a carbon price of US$50 per ton. This would turn forest restoration into a powerful driver of both economic growth and climate action. The RDM remunerates net tons of carbon recovered in deforested areas, creating new economic opportunities for the Amazon region and for Brazil.

    In practice, subnational or national governments sign carbon credit purchase agreements with public or private buyers, based on a pre-agreed price per ton of CO₂ removed from the atmosphere. The volume of credits is calculated from net forest restoration—i.e., after discounting any emissions from new deforestation—ensuring environmental integrity. The revenues can then be allocated to conservation, payments for ecosystem services, active forest restoration models, and social policies, creating an economic cycle that funds the transition toward a low-carbon development model in the Amazon.

    According to the analysis, Pará has the greatest potential, with 9.6 GtCO₂ and an estimated revenue of US$292 billion, followed by Mato Grosso (7.3 GtCO₂; US$221 billion) and Rondônia (3.5 GtCO₂; US$106 billion). States with large forest stocks, such as Amazonas, play a strategic role in conservation mechanisms. In total, 25.8 GtCO₂ could be removed from the atmosphere, generating financial returns equivalent to nearly 40% of Brazil’s annual GDP.

    “COP30 represents a historic opportunity to place forests at the center of the global climate solution. Brazil has the chance to show the world that development and conservation can go hand in hand, offering—through large-scale restoration—a concrete response to the climate crisis and a new economic pathway for the Amazon region,” said Beto Veríssimo, Special Envoy for Forests at COP30.

    In the Amazon, much of the land best suited for agricultural production has already been deforested in the past, while areas with the greatest carbon capture potential are located elsewhere. This means it is possible to intensify production in consolidated areas while restoring and conserving strategic climate zones—without sacrificing productivity. Instead of being mutually exclusive, agricultural production and restoration can coexist, generating economic and environmental benefits simultaneously. In other words, agriculture does not need to compete with deforestation reversal.

    “The RDM treats forest regeneration as a high-value economic asset, capable of generating revenue and delivering climate benefits simultaneously. By aligning policies and financial resources, the mechanism fills a central gap in large-scale restoration finance. This gives Brazil the opportunity to position itself as a global climate leader—turning Amazon restoration into a driver of development and of the valorization of its greatest natural asset: the forest,” said Juliano Assunção, Executive Director of CPI/PUC-Rio and one of the study’s authors.

    A New Financial Mechanism for the Forest

    The Deforestation Reversal Mechanism (RDM) remunerates net tons of carbon captured through restoration, with the potential to integrate into international carbon markets, including those under Article 6 of the Paris Agreement. It complements existing mechanisms such as Jurisdictional REDD+ (JREDD+), which focuses on reducing deforestation, and the Tropical Forest Forever Facility (TFFF), which rewards forest conservation. Together, these mechanisms form a more complete financial architecture capable of supporting both protection and large-scale restoration.

    Combined, these mechanisms represent an unprecedented economic opportunity:

    • JREDD+ could generate around US$5 billion;

    • TFFF, around US$26 billion;

    • RDM, up to US$784 billion — significantly expanding the capacity to finance Amazon protection and restoration.

    How the Mechanism Works in Practice

    The process begins with identifying areas for restoration and measuring net carbon capture, discounting emissions from deforestation and degradation. These results are then converted into carbon credits, which can be traded in national or international markets at a pre-defined price per ton of CO₂.

    The resulting revenue is channeled into a jurisdictional fund, which allocates resources to restoration and conservation activities. This structure creates a virtuous financial cycle in which forest restoration generates revenue, funds its own expansion, and drives sustainable development in the Amazon.

    Brazil already has the technical and institutional infrastructure to implement the RDM swiftly and effectively. The country has advanced satellite monitoring systems—such as Deter, Prodes, MapBiomas, and SAD/Imazon—that enable accurate tracking of deforestation and vegetation regeneration.

    It also has the Rural Environmental Registry (CAR), which allows rural properties to be linked to environmental monitoring and enforcement. Additionally, Brazil has consolidated experience with results-based payment mechanisms, including the Amazon Fund, the National REDD+ Strategy, and successful subnational initiatives like Pará’s Sustainable Territories Program.

    This strong technical, legal, and institutional foundation provides the conditions to operationalize the RDM at scale—with international credibility.

    Read the full paper here.

  • O Nexo Floresta-Clima Para a Amazônia Brasileira

    O Nexo Floresta-Clima Para a Amazônia Brasileira

    Desenvolvido a partir de um mecanismo criado pelo CPI/PUC-Rio, o novo estudo implementa o Mecanismo de Reversão de Desmatamento (RDM) para restaurar florestas em escala na Amazônia. O RDM foi originalmente concebido após convocação do presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, para um conselho de economistas que contribuísse com as dimensões econômicas da conferência, incluindo o “Roteiro de Baku a Belém para 1,3T” e a Agenda de Ação da COP30.

    A nova análise mostra que o mecanismo poderia gerar US$ 784 bilhões em 30 anos e capturar até 26 gigatoneladas de CO₂ para a Amazônia brasileira, considerando um preço de US$50 por tonelada de CO2, transformando a restauração florestal em motor de desenvolvimento econômico e climático. O RDM remunera toneladas líquidas de carbono recuperadas em áreas desmatadas, criando novas oportunidades econômicas para a região amazônica e para o Brasil.

    Na prática, governos subnacionais ou nacionais firmam acordos de venda de créditos de carbono com compradores públicos ou privados, com base em um preço previamente definido por tonelada de CO₂ removida da atmosfera. O volume de créditos é calculado a partir da restauração florestal líquida, ou seja, descontando eventuais emissões por novos desmatamentos, garantindo integridade ambiental. Os recursos arrecadados podem ser direcionados para conservação, pagamentos por serviços ambientais, modelos de restauração florestal ativa e políticas sociais, criando um ciclo econômico que financia a transição para um modelo de desenvolvimento de baixo carbono na Amazônia.

    Segundo a análise, o Pará concentra o maior potencial de captura, 9,6 GtCO₂, com receita estimada em US$ 292 bilhões. Na sequência vêm Mato Grosso (7,3 GtCO₂; US$ 221 bilhões) e Rondônia (3,5 GtCO₂; US$ 106 bilhões). Estados com grandes estoques de floresta, como o Amazonas, são estratégicos para mecanismos de conservação.

    No total, 25,8 GtCO₂ poderiam ser removidos da atmosfera, com retornos financeiros equivalentes a quase 40% do PIB anual brasileiro. “A COP30 representa uma oportunidade histórica de colocar as florestas no centro da solução climática global. O Brasil tem a chance de mostrar ao mundo que é possível conciliar desenvolvimento e conservação, oferecendo, por meio da restauração em larga escala, uma resposta concreta à crise do clima e um novo caminho econômico para a região amazônica”, diz Beto Veríssimo, Enviado Especial para Florestas da COP30.

    Na Amazônia, grande parte das áreas mais adequadas para a produção agropecuária já foi desmatada no passado, enquanto as regiões com maior potencial de captura de carbono estão em outros territórios. Isso significa que é possível intensificar a produção em áreas consolidadas e, ao mesmo tempo, restaurar e conservar as áreas estratégicas para o clima, sem perda de produtividade. Em vez de serem atividades excludentes, produção agropecuária e restauração podem coexistir, gerando ganhos econômicos e ambientais simultaneamente. Ou seja, a agropecuária não precisa competir com a reversão do desmatamento.

    “O RDM trata a regeneração florestal como um ativo econômico de alto valor, capaz de gerar receita e benefícios climáticos simultaneamente. Ao alinhar políticas e recursos financeiros, o mecanismo preenche uma lacuna central no financiamento da restauração em larga escala. Com isso, o Brasil tem a chance de se afirmar como líder climático global transformando a restauração da Amazônia em vetor de desenvolvimento e valorização de seu maior patrimônio natural: a floresta”, afirma Juliano Assunção, diretor executivo do CPI/PUC-Rio e um dos autores do estudo.

    Um novo mecanismo financeiro para a floresta

    O Mecanismo de Reversão de Desmatamento (RDM) remunera toneladas líquidas de carbono capturadas por restauração, com possibilidade de integração a mercados internacionais de carbono, incluindo os previstos no Artigo 6 do Acordo de Paris. Ele complementa mecanismos já existentes, como o Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal Jurisdicional (JREDD+), voltado à redução do desmatamento, e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (Tropical Forest Forever Facility – TFFF), que remunera a manutenção da floresta em pé, criando uma arquitetura financeira mais completa, capaz de sustentar tanto proteção quanto restauração em larga escala.
    Somados, os mecanismos representam uma oportunidade econômica sem precedentes: o JREDD+ poderia gerar cerca de US$ 5 bilhões, o TFFF cerca de US$ 26 bilhões, e o RDM até US$ 784 bilhões, ampliando de forma significativa a capacidade de financiar a proteção e a restauração da Amazônia.

    Mas, como esse mecanismo funcionaria na prática?

    O processo começa com a identificação das áreas a serem restauradas e a mensuração da captura líquida de carbono, descontando as emissões de desmatamento e degradação. A partir daí, esses resultados são convertidos em créditos de carbono, que podem ser negociados em mercados nacionais ou internacionais com preço previamente definido por tonelada de CO₂. A receita obtida entra em um fundo jurisdicional, que direciona recursos tanto para ações diretamente ligadas à restauração e conservação. Essa estrutura cria um ciclo financeiro virtuoso, no qual a restauração florestal gera receita, financia sua própria expansão e impulsiona o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

    O Brasil já possui a infraestrutura técnica e institucional necessária para implementar o RDM de forma rápida e eficaz. O país conta com sistemas avançados de monitoramento por satélite, como Deter, Prodes, MapBiomas e SAD/Imazon, que permitem acompanhar com precisão o desmatamento e a regeneração da vegetação. Dispõe também do Cadastro Ambiental Rural (CAR), que viabiliza a vinculação de propriedades rurais ao monitoramento e à fiscalização ambiental. Além disso, tem experiência consolidada em mecanismos de pagamento por resultados, como o Fundo Amazônia e a Estratégia Nacional para REDD+, além de iniciativas subnacionais bem-sucedidas, como o Programa Territórios Sustentáveis, no Pará. Essa base técnica, legal e institucional cria condições concretas para operacionalizar o RDM em escala e com credibilidade internacional.