Tag: bioeconomia

  • Oportunidades Para Aprimoramento da Cacauicultura na Amazônia Brasileira

    Oportunidades Para Aprimoramento da Cacauicultura na Amazônia Brasileira

    No início da década de 1980, o Brasil era o segundo maior produtor de cacau do mundo. Naquela época, o país produzia entre 350 e 450 mil toneladas de cacau por ano, cerca de 80% das suas amêndoas tinham qualidade superior e a grande maioria era exportada. Em 2020, o Brasil tinha caído para a sétima posição no ranking de produção. Com 270 mil toneladas de amêndoas, o país respondia por menos de 5% da produção mundial, atrás da Costa do Marfim (38%), Gana (14%), Indonesia (13%), Nigéria (6%), Equador (6%) e Camarões (5%). O declínio da cacauicultura brasileira foi causado por uma série de fatores em torno da chegada do fungo Moniliophthora perniciosa, popularmente conhecido como vassoura-de-bruxa, na Bahia, no final dos anos 1980, e sua disseminação na década seguinte.

    Agora, 40 anos depois, uma pesquisa inédita aponta caminhos para impulsionar a produção de cacau e reposicionar o Brasil entre os maiores produtores e exportadores do produto. Trata-se do estudo Oportunidades para aprimoramento da cacauicultura na Amazônia brasileira, que investiga soluções para melhorar o desempenho de produtos compatíveis com a floresta Amazônica. “O cacau é uma das grandes apostas para fortalecer a bioeconomia brasileira. Nativo e bem adaptado a sistemas agroflorestais, onde pode ser cultivado junto com outras espécies, o cacau ajuda a promover a recuperação de áreas degradadas e o desenvolvimento socioeconômico das regiões produtoras. Mas, para que se torne um dos principais expoentes da bioeconomia nacional, os produtores precisam se desvencilhar das amarras que aprisionam a cacauicultura  brasileira num equilíbrio inferior”, afirma Salo Coslovsky, professor associado da Universidade de Nova York, coordenador do Infloresta e pesquisador associado do projeto Amazônia 2030.

    Para que o setor retome o seu papel de destaque, o pesquisador defende que a estratégia mais promissora envolve o investimento em maior produtividade. De acordo com o estudo, hoje os produtores da Bahia e do Pará, estados que lideram a produção no Brasil, produzem em média, respectivamente, algo em torno de 320 quilos por hectares e 950 quilos por hectare, mas em ambos há quem produza mais de 3 mil quilos por hectare. “Investir em produtividade é promissor, pois os produtores podem aprimorar muitas de suas práticas sozinhos, independente do comportamento dos demais produtores. Aos poucos, o aumento da produtividade deve ajudar a ‘endireitar’ várias das distorções que afetam esse mercado desde a crise que derrubou a produção da Bahia nos anos 1980-90. Há riscos, e o aumento drástico da produção nacional deve diminuir o preço da amêndoa no mercado doméstico. Ainda assim, há formas de mitigar esses efeitos negativos e fortalecer o setor, especialmente se houver melhor coordenação de esforços ao longo da cadeia de valor”, afirma.

    Entre outras possibilidades, o levantamento ressalta que o custo-benefício da assistência técnica é bastante favorável. Como indica uma avaliação conduzida pela Fundação Solidaridad em um de seus projetos no Pará, cada real investido em assistência técnica gerou retorno de R$4 a R$9 ao produtor. O problema, no entanto, é que hoje os produtores não conseguem obter a orientação que precisam e nenhuma das entidades que permanecem em cena tem recursos ou interesse para oferecer esse serviço na escala e com a urgência necessárias. No estado do Pará, os órgãos públicos são os principais provedores de assistência técnica, mas apenas 6% dos produtores rurais têm acesso a esse serviço. A Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira, a Ceplac, órgão ligado ao Ministério da Agricultura e Pecuária, já foi uma verdadeira agência de desenvolvimento para o setor, mas encontra-se muito enfraquecida.

    Ainda assim, os produtores de cacau podem financiar assistência técnica com um percentual dos seus ganhos. Isso já foi feito em outras culturas como o café, a laranja e a pecuária – neste caso, contra a febre aftosa – com sucesso. No Pará já existe o Fundo de Desenvolvimento da Cacauicultura do Pará (Funcacau), que pode contribuir com essa missão. “As técnicas para aumentar produtividade já são conhecidas e elas dão retorno financeiro”, completa Salo.

  • Bioeconomia na Amazônia: Análise Conceitual, Regulatória e Institucional

    Bioeconomia na Amazônia: Análise Conceitual, Regulatória e Institucional

    Existem várias visões sobre a bioeconomia e cada uma delas pode ser aplicada aos diferentes recortes da Amazônia, gerando desenvolvimento sustentável, emprego, conhecimento e riqueza. Contudo, a falta de uma estratégia nacional ou regional que aprecie as diferentes formas e visões do tema, e os objetivos que se deseja alcançar, pode fazer o setor se tornar vetor de desmatamento ao invés de alçar o país à potência mundial na bioeconomia.  

    É o que explica o estudo coordenado pelas pesquisadoras do Climate Policy Initiative/Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (CPI/PUC-Rio), Cristina Leme Lopes e Joana Chiavari. A pesquisa “Bioeconomia na Amazônia: análise conceitual, regulatória e institucional” apresenta o estado da arte da bioeconomia no Brasil, com ênfase para aspectos legais e institucionais.

    A pesquisa apresenta a bioeconomia em três visões: biotecnológica, biorrecursos e bioecológica. O documento busca organizar as estratégias, marcos regulatórios, planos e programas dos diferentes atores e instituições nacionais para identificar alinhamentos e conflitos entre as visões. Mais do que isso, o estudo desenha um panorama para a Amazônia em que as diferentes perspectivas de bioeconomia possam coexistir.

    Conforme a pesquisadora Joana Chiavari, a Amazônia possui as maiores oportunidades e também os maiores riscos relacionados à promoção da bioeconomia. Ao mesmo tempo em que a atividade pode ser vista como vetor de desenvolvimento econômico sustentável para a região, se não houver uma preocupação com o impacto de alterações do uso da terra e com a conservação da biodiversidade, ela também pode se tornar em uma ameaça para a floresta, devido ao desmatamento da vegetação nativa para a produção de biomassa.

    “Quando se fala em bioeconomia para a Amazônia, de qual bioeconomia estamos falando? De qual Amazônia estamos falando? Qual é a estrutura de governança e os marcos regulatórios necessários para promover a bioeconomia na região?”, indaga Chiavari.

    De acordo com o estudo, não basta entender as diferentes visões da bioeconomia é necessário entender ainda que há várias Amazônias e cada uma delas contém uma série de peculiaridades em termos de conservação, paisagem e atividade socioeconômica. Para facilitar a análise, a pesquisa trabalha com o conceito de “quatro Amazônias”: a Amazônia florestal, com floresta nativa e habitada em sua maioria por povos e comunidades tradicionais; a Amazônia desmatada, que conta com atividades agropecuárias e áreas degradadas; a Amazônia florestal sob pressão, que possui uma área de transição florestal e fronteira de expansão do desmatamento; e a Amazônia urbana.

    Por exemplo, na Amazônia conservada, tanto atividades extrativistas quanto o uso de  biotecnologia são formas de agregar valor à floresta e aos conhecimentos e modos de vida de povos e comunidades tradicionais. Na Amazônia desmatada, a produção de biomassa pode ser uma alternativa para a restauração de áreas degradadas. Já na Amazônia sob pressão, a produção sustentável de biomassa e outras culturas por meio de sistemas agroflorestais (SAFs) podem ser alternativas econômicas para conter o avanço do desmatamento. Por fim, hubs de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) e polos industriais de setores intensivos em alta tecnologia, como fármacos, cosméticos e química verde podem florescer na Amazônia urbana.

    Uma estratégia de bioeconomia para a Amazônia

    O Brasil não possui uma estratégia nacional dedicada à bioeconomia. Em contrapartida, possui um amplo conjunto de normas que regulamenta diferentes atividades relacionadas às três visões. Um dos principais desafios é alinhar marcos para as diferentes visões.

    Também não há um órgão central, a governança da  bioeconomia é  atualmente, compartilhada por uma multiplicidade de atores e instituições, sem coordenação e diálogo entre eles. Com relação aos órgãos governamentais, o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Ministério de Minas e Energia, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) se destacam com programas e atividades relacionadas à bioeconomia. Já o Ministério do Meio Ambiente (MMA) se encontra ausente das discussões sobre o tema.

    Mas a atuação de cada ator e instituição é pautada por uma visão, um objetivo específico. A falta de uma estratégia nacional dedicada ao tema, ou mesmo de uma estratégia regional para a Amazônia pode fazer com que uma visão de bioeconomia prevaleça sobre as demais, atrapalhando o desenvolvimento sustentável e gerando danos socioambientais.

    “Existem propostas que não analisam o risco de cultivo de biomassa para a produção de biocombustíveis gerar efeitos ambientais negativos. A conversão de floresta nativa para produção de biomassa pode ocasionar perda de biodiversidade e emissão de gases de efeito estufa, agravando ainda mais as mudanças climáticas, por isso é tão importante analisar a bioeconomia de maneira mais ampla”, afirmou Cristina Leme Lopes, pesquisadora responsável pelo estudo. 

  • Amazon: Food Territories

    Amazon: Food Territories


    Download here

    Companies in the Brazilian Amazon already export 64 forest-compatible products, with an average annual revenue of nearly US$300 million.1 This figure seems impressive but represents only 0.17% of the corresponding global markets. In the more specific case of products linked to food chains, the participation of companies in the Amazon is also modest, including at the domestic level, as can be seen from the scarce presence of Amazonian products and producers on platforms such as Mercado Livre – Produtos da Amazônia, Amazônia Ativa/Americanas and Caras do Brasil/Pão de Açúcar.

    The aim of the Amazon: Food Territories study is to assess how value chains linked to food can serve as leverage to promote regional development. And what conditions are necessary for the assets of the extraordinary Amazonian biodiversity – with its vast application potential in these chains – can be transformed into competitive advantages that strengthen the regional economy.

    The study was carried out based on interviews with 45 representatives from 38 enterprises and institutions that operate in food chains in the Amazon. The selection of interviewees prioritized companies with some degree of success and some experience in the area of sustainability or social entrepreneurship, as determined by the authors. 

    Read the full paper here.

  • Cassava: Between Subsistence And Business

    Cassava: Between Subsistence And Business


    Download here

    Cassava (Manihot esculenta crantz) is a food plant domesticated by indigenous peoples in the Amazon for at least 9,000 years. In the Amazon, there are at least 140 identified native varieties, in addition to several agronomically developed cultivars.

    Rich in carbohydrates, cassava is one of the most important plants for food in developing countries. In poorer regions, cassava is the main source of energy for the diet of more than 700 million people.

    Cassava is a rustic tubercle that can be cultivated in chemically poor soils and, at the same time, withstand prolonged droughts. It is also highly resistant to pests.

    Furthermore, the plant can be stored for a long period in the soil. The combination of these factors makes cassava a key plant for food security.

    Read the full paper here.

  • Flavor or Bulk Cacao: Options For The Amazon

    Flavor or Bulk Cacao: Options For The Amazon


    Download here

    Despite being native to the Amazon, the origin of cacao (Theobroma cacao) is still unknown in global consumer markets and even in national ones. Cacao conquered Europe in the mid-16th century, from varieties planted in Central America and the Caribbean. More recently, cacao has been associated with African countries, which are responsible for approximately two-thirds of its production.1 In Brazil, the product only gained momentum in the second half of the 18th century, with plantations in Bahia.

    Cacao production in the Brazilian Amazon was not very expressive until the beginning of this century. In the 1990s, Pará participated with only 10% of the national cacao production.3 This situation changed strongly and, in 2019, Pará became the largest producer of the fruit, accounting for approximately half of the national cacao.

    The cacao boom in the Brazilian Amazon is a result not only of the increase in production, but also of the good quality of the fruit. In 2019, cacao produced in the Amazon contributed to Brazil being recognized by the International Cocoa Organization (ICCO) as a producer of flavor cacao, which brings opportunities and challenges.

    Read the full paper here.

  • Understanding The Food System in The Amazon

    Understanding The Food System in The Amazon


    Download here

    The food production system – a set of pre-production, production and post-production activities related to food – is a strategic theme worldwide due to its repercussions in different spheres: in the economy, in particular, with the generation of income and employment; socially, related to food security; and the climate agenda, interfering with greenhouse gas emissions. This set came to be called the Food System by bodies such as the United Nations Food and Agriculture Agency (FAO) and the World Bank, which includes food production, processing, distribution, consumption, and disposal.

    The objective of this study is to present a profile of the Food System in the Legal Amazon.1 Therefore, we analyze indicators of occupation and income in order to better understand the peculiarities of this system and propose more effective approaches with regard to public policies.

    The Food System has a considerable weight in the region’s labor market. There are now more than 3.5 million people – or a third of all employed people – who work in it. This result is higher than the proportion in the rest of Brazil, where those employed in the system represent 23% of the total. In rural Amazonian areas, the Food System employs 69% of the workforce.

    Read the full paper here.

  • How Did Bolivia Take Over The Global Brazil Nut Market?

    How Did Bolivia Take Over The Global Brazil Nut Market?


    Download here

    For centuries, Brazilian companies dominated the Brazil nut (BN) market to the point that, in many languages, the product still bears the country’s name. In a surprising turnaround, in 2019, Brazilian companies accounted for only 11% of this market while companies in Bolivia maintained a 74% share. This despite operating in a country with more political turmoil, fewer
    economic resources, and more structural obstacles than its South American neighbor. This article examines how Bolivian companies managed to overcome these difficulties and prevail in the global Brazil nut market.

    The article identifies the decision of the European Union (EU) in 1998 to impose stricter sanitary import standards, especially those related to aflatoxin contamination, as the turning point in the industry’s trajectory in both Bolivia and Brazil.

    Soon after this decision, both Brazilians and Bolivians pleaded for exemption from the new rules, arguing that the requirements would decimate the industry, harm traditional communities dedicated to forest extraction, and allow for an increase in deforestation. European authorities listened to these requests but made no exceptions.

    Bolivian companies responded to this new reality effectively and immediately. First, the Bolivian government required exporters to submit negative tests for aflatoxin before receiving an export license. Second, companies located in Riberalta (Bolivia) have rehabilitated their business association and equipped it with a laboratory capable of checking the content of aflatoxins in nuts. The association found it could cover its expenses if it charged US$105 per test. However, it decided to set the price at US$300, an amount US$80 less than that charged by a commercial laboratory in La Paz, but which generated a surplus to help finance its operations.

    Taking advantage of its political representation and its financial autonomy, the association also acquired technical competence by hiring foreign consultants specialized in aflatoxin control. Finally, it used its resources to help local companies renovate their factories, develop new equipment, purchase supplies, train their staff, and adopt new management methods aimed at ensuring food quality and phytosanitary health. Thanks to these initiatives, the Bolivian industry maintained unrestricted access to the European market, and, in subsequent years, it began to expand its participation in other markets as well.

    In contrast, the Brazilian government was slow to act, Brazilian processors and exporters were unable to cooperate with each other and continued to ship contaminated batches to the EU. In response, European authorities increased the frequency of inspections until it reached 100% of the loads of shelled Brazil nuts. Finally, these conditions were so onerous and shipping cargo to Europe became so risky that Brazilian exporters gave up on this market.

    Today, Bolivia’s dominance is so extensive that its companies buy shelled (i.e., raw) nuts from Brazil at a negligible price, process and export them as unshelled nuts at much higher prices to the rest of the world. Since 2010, Bolivia has exported between US$ 1 million and US$ 2 million per year of shelled nuts to Brazil itself.

  • Mandioca: Entre Subsistência e Negócio

    Mandioca: Entre Subsistência e Negócio

    A mandioca, um tubérculo domesticado pelas populações indígenas da Amazônia há mais de 9 mil anos, é uma planta-chave para a segurança alimentar. Rica em amido, pode ser cultivada em solos quimicamente pobres e resistir a secas prolongadas. Além disso, a demanda mundial de mandioca cresce ano a ano — em parte motivada pela procura crescente por alimentos sem glúten. Há um consenso de que a mandioca é estratégica para o desenvolvimento da Amazônia. Apesar disso, a cadeia da mandioca na região enfrenta desafios como produtividade média inferior à do resto do Brasil,  agregação de valor ainda incipiente e uma produção insuficiente para atender à demanda da própria região. Como superar esses entraves?

    Uma nova pesquisa, desenvolvida pelo projeto Amazônia 2030, examina a cadeia de produção de mandioca na Amazônia, seus desafios e potencialidades. No relatório Mandioca: entre subsistência e negócio, o chef de cozinha e pesquisador Roberto Smeraldi e a engenheira química e pesquisadora do Centro de Empreendedorismo da Amazônia Manuele Lima conversam com atores fundamentais para o cultivo da mandioca na região: pequenos produtores, processadores, vendedores e cientistas.  A investigação revela que, para disputar mercados mais competitivos, os produtores da Amazônia precisam incorporar tecnologia aos seus cultivos. 

    Apesar da origem amazônica, os cultivos de mandioca mais produtivos estão localizados nas regiões sudeste e sul do Brasil. Na região norte, as exceções são Rondônia e Acre, cuja produtividade média é próxima das registradas no sul e sudeste. A diferença entre esses dois estados e o restante da Amazônia está na tecnologia de adubação que seus produtores empregam, e na introdução de mecanização nos cultivos.

    A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima em aproximadamente 40 toneladas por hectare o rendimento ideal do cultivo da mandioca em condições favoráveis de clima e solo, disponíveis na Amazônia. Apesar dos resultados acima da média, mesmo Rondônia e Acre continuam longe desse patamar ideal: sua produtividade gira em torno de 23 toneladas por hectare. Há largo espaço para implementação de melhorias. 

    Otimismo e planos para o futuro

    Apesar dos problemas e da baixa produtividade, os atores ligados à cadeia da mandioca na Amazônia têm uma visão otimista do futuro, revela o estudo.  A diversidade de produtos que podem ser originados pela mandioca continua despertando interesse de produtores e empresas. A Fundação Amazonas Sustentável tem investido em levar a farinha de Uarini – com processo peculiar de fabricação que resulta num formato oval da granulação – ao mercado através de plataformas virtuais, como é o caso das Lojas Americanas. No Acre, houve investimento ao longo de mais de dez anos na criação e reconhecimento da Indicação Geográfica (IG) para a farinha de mandioca de Cruzeiro do Sul. O reconhecimento da Indicação Geográfica traz benefícios como a padronização do modo de fazer, o que contribui para proteger o conhecimento tradicional e organizar melhor os produtores.

    Por fim, há grande expectativa em relação ao tucupi — um subproduto da mandioca com grande aceitação entre chefes de cozinha e mercados consumidores fora da Amazônia. Uma das empresas que atuam na região, a Manioca chegou a desenvolver um tucupi de prateleira, que não precisa de refrigeração e é acondicionado em uma embalagem desenhada especificamente para venda no grande varejo.

    Os casos examinados sugerem que um dos caminhos desejáveis para a cadeia da mandioca na Amazônia envolve explorar para usos especializados a diversidade de variedades nativas e cultivares desenvolvidos. Para isso dar certo, no entanto, o aumento da produtividade é fator crítico. “A cadeia da mandioca como negócio requer o estabelecimento de indústrias, a diversificação de variedades aptas para diferentes produtos e o processamento especializado de subprodutos. Para tanto, é crítico que a região se torne autossuficiente em termos de consumo e ainda possa garantir um excedente expressivo”, escrevem os autores. 

    Autores: Roberto Smeraldi e Manuele Lima dos Santos

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202111.ed19

  • Cacau Fino ou Commodity: Opções para a Amazônia

    Cacau Fino ou Commodity: Opções para a Amazônia

    Apesar de ser nativo da Amazônia, o cacau foi, por muito tempo, associado a outras regiões do planeta. O fruto dominou o mercado europeu a partir de plantações na América Central e no Caribe. Mais recentemente, passou a ser associado a países Africanos. A Amazônia brasileira, um dos berços da fruta, tinha pouca participação no mercado global — e respondia por uma parcela ínfima da produção brasileira. O quadro mudou e, desde 2019,  o Pará se tornou o maior produtor brasileiro do fruto, respondendo por aproximadamente metade do cacau nacional. Como garantir que o Cacau da Amazônia conquiste mais mercados?

    No artigo Cacau fino ou commodity: opções para a Amazônia, o chef de cozinha e jornalista Roberto Smeraldi e a engenheira química e pesquisadora do Centro de Empreendedorismo da Amazônia Manuele Lima examinam as razões para o recente boom do cacau amazônico — e fazem um diagnóstico dos principais desafios enfrentados pelos empreendedores do setor para crescer. 

    Em 2021, o Pará deve produzir em torno de 140 mil toneladas de cacau. A maior parte desse conjunto é de cacau do tipo commodity.  O sucesso do cacau no estado não foi resultado somente do aumento da produção, explicam os autores. A região se beneficiou de um trunfo único: a grande variedade genética do fruto naquela área. Calcula-se que existam mais de 20 mil variedades de cacau na Amazônia, um elemento fundamental para a qualidade do produto. 

    De acordo com os autores, um dos maiores desafios dessa década é o de valorizar as diferentes variedades de cacau que a Amazônia hospeda. Isso permitiria aos produtores aproveitar melhor uma vantagem já existente — e ser mais bem remunerados pelo cacau vendido. Além disso, a valorização dessa diversidade pode levar a uma malha de indicações geográficas e de origem e servir para dar sustentabilidade e resiliência ao cultivo do cacau mundialmente, frente às ameaças da mudança climática e a proliferação de pragas e doenças.

    O diagnóstico está alinhado a uma tendência global. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores da Holanda – principal importador e processador de cacau no mundo – é possível identificar nove tendências estratégicas do mercado de cacau para a atual década: 

    1. Foco crescente sobre origem do cacau e do chocolate;
    2. Narrativa (storytelling) cada vez mais importante;
    3. Crescente demanda por chocolate bean-to-bar (com cultivo e processamento unificados);
    4. Encurtamento da cadeia devido a comércio direto;
    5. Aumento da preocupação com saúde e bem-estar;
    6. Controles devidos à regulação europeia sobre presença de cádmio;
    7. Aumento da influência das multinacionais que entram também no segmento de cacaus
      especiais;
    8. Sustentabilidade da produção em alta na agenda internacional;
    9. Programas de sustentabilidade cada vez mais comuns no setor privado.

    Para avançar e conquistar maior número de mercados, sugere o estudo, os produtores de cacau da Amazônia precisam de investimento em treinamento e profissionalização. 

    Leia o estudo completo aqui.

    Autores: Roberto Smeraldi e Manuele Lima dos Santos

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202111.ed18

  • A Década do Açaí

    A Década do Açaí

    Nos últimos 20 anos o açaí, uma palmeira típica das várzeas da Amazônia, experimentou um boom de popularidade. Em 2019, o mercado global do produto chegou a US$ 720 milhões — e a previsão é de que alcance US$ 2,1 bilhões até 2025. Apesar do prognóstico positivo, os produtores de açaí da Amazônia enfrentam dificuldades para se tornar competitivos. Faltam recursos importantes para o seu desenvolvimento: os desafios vão da falta de tecnologia para processamento e embalagem do produto à dificuldade de seguir padrões de qualidade que atendam intermediários e importadores. Conforme surgem plantios de açaí em outras regiões tropicais, essa escassez de recursos pode fazer com que os produtores de açaí da Amazônia fiquem para trás na disputa pelo mercado global do produto.

    Esse quadro é descrito no relatório “Amazônia: territórios da comida — a década do Açaí”. O estudo, realizado no âmbito do projeto Amazônia 2030, foi conduzido pelo chef de cozinha e jornalista Roberto Smeraldi, e pela engenheira química e pesquisadora do Centro de Empreendedorismo da Amazônia Manuele Lima. Os pesquisadores entrevistaram empreendedores que atuam na cadeia do açaí, de modo a analisar quais os principais desafios que, hoje, afetam o setor, e apontar caminhos possíveis para superá-los. 

    O trabalho mostra que a cadeia do açaí na Amazônia enfrenta dois grandes desafios. Primeiro, existe a perspectiva de concorrência com o açaí plantado em outros países tropicais, como é o caso da Indonésia e do sudeste asiático. Segundo,  ainda não há garantia de que a oferta de açaí na Amazônia crescerá sem pressionar a floresta: existem riscos de que o açaí plantado de terra firme acabe pressionando o desmatamento de novas áreas.

    Para superar essas incertezas, o estudo sugere que é preciso agregar valor ao produto.  O açaí tem potencial para ampliar sua participação na economia regional. Porém, é preciso avançar com adoção de um tripé de medidas:  melhorar os níveis de industrialização, educar o mercado quanto à variedade genética do produto e a diferenciação de origem, e afirmar padrões de qualidade, incluindo aspectos sanitários e socioambientais.

    Os entrevistados apontam que é essencial trabalhar para construir a reputação do açaí da Amazônia, permitindo o reconhecimento de indicações geográficas. Como disse um dos empreendedores consultados, é possível estabelecer “um Grand Cru de açaí Curralinho, Açaí do Baixo Tocantins, Açaí do Amapá”. 

    É possível, ainda, incorporar avanços tecnológicos. Na industrialização do açaí, tendência prevista por alguns é que haja uma revolução no processamento do fruto. Isso porque o açaí é um fruto muito perecível e que sofre oxidação entre colheita, transporte e processamento. Novas tecnologias, já disponíveis, permitiriam transformar o açaí em um produto de prateleira, que dispensa refrigeração.

    Além disso, conforme a produção de açaí cresce, é necessário garantir que ela ocorra segundo padrões compatíveis com a floresta. Para isso, certificações de produção orgânica e selos socioambientais são importantes.  

    Segundo os autores do trabalho, para garantir tais avanços — que são onerosos para um produtor individual, ao mesmo tempo em que são benéficos para todo o setor — os empreendedores da cadeia do açaí podem se associar em arranjos pré-competitivos: acordos segundo os quais empresas concorrentes se unem para prover recursos de uso comum, sem, no entanto, deixar de competir entre si. 

    Autores: Roberto Smeraldi e Manuele Lima

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202111.ed17