Categoria: Publicações

  • Menos Boi, Mais Carne

    Menos Boi, Mais Carne

    A produção de carne bovina em larga escala na Amazônia brasileira é um fenômeno relativamente recente, consequência de dois fatos que ocorreram no começo do século 21. Primeiro, a rápida evolução do Brasil como país exportador de carne. Segundo, o controle da febre aftosa no cinturão meridional da Amazônia brasileira, o que permitiu a abertura do mercado externo para carne bovina oriunda dessa região.

    A partir da década de 1970 até o final do século 20, a pecuária bovina de corte representou principalmente um instrumento para a ocupação e colonização da Amazônia. Isso ocorreu como resultado de políticas que objetivavam “desenvolvimento” com base no desmatamento, abertura de estradas, incentivos fiscais e crédito subsidiado para agropecuária. Porém, a despeito desses estímulos, a produção de carne bovina teve um desempenho modesto nesse período.

    Essa dinâmica mudou a partir do início do século 21, com a maior participação dos grandes frigoríficos no processamento da carne na Amazônia. Atualmente, a cadeia da carne enfrenta uma série de desafios na região. Primeiro, ainda é muito associada ao desmatamento da pecuária, atividade que é usada muitas vezes para ocupar terras. A pecuária tem ainda uma produtividade média extremamente baixa na Amazônia, a despeito de exemplos de produtores que adotam boas práticas de manejo da pastagem com excelentes resultados. A pecuária é também uma atividade com elevada emissão de gases de efeito estufa por unidade de renda gerada. Tanto pela emissão de carbono resultante do desmatamento, quanto pela emissão do gás metano, entre os mais nocivos para a mudança climática, resultante da alimentação no pasto dos bovinos.

    A partir de 2004, quando políticas governamentais começaram a enfrentar o desmatamento, pecuaristas começaram a adotar práticas que aumentam a produtividade – como o confinamento ou o semiconfinamento – na Amazônia. No entanto, o pesquisador do Imazon Paulo Barreto vê um risco de retrocesso em relação a esses avanços, em razão do atual quadro de tolerância, ou até estímulo, ao desmatamento na região.

    É importante, dessa forma, aprofundar e compreender diferentes indicadores para medir a produtividade da pecuária bovina e/ou da cadeia da carne. Entre eles, a taxa de lotação, que se refere ao número de cabeças de gado por unidade de área de pastagem, e a taxa de desfrute, ou seja, a porcentagem do rebanho que vai ao abate, descontadas as fêmeas retidas para reprodução, que oferece um indicador melhor de produtividade. Mas esse estudo se propõe a ir além disso, pois é fundamental considerar o valor bruto da efetiva produção de carne ao longo da cadeia por hectare destinado à pecuária. Nesse quadro, o objetivo do estudo é resumir a visão de produtores da pecuária, frigoríficos e pesquisadores sobre as transformações e as principais tendências em curso no setor.

    Autores: Roberto Smeraldi
    e
    Manuele Lima dos Santos

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202111.ed21

  • A Saúde na Amazônia Legal: Evolução Recente e Desafios em Perspectiva Comparada

    A Saúde na Amazônia Legal: Evolução Recente e Desafios em Perspectiva Comparada

    A Amazônia Legal cobre cerca de 5 milhões de km2, onde se manifestam de maneira extrema não apenas a fronteira da degradação ambiental no país, como também a da vulnerabilidade social e enormes desafios para o desenho e a implementação de políticas públicas. A população da região é heterogênea e ainda relativamente jovem. São cerca de 25 milhões de habitantes, que permanecem sobrerrepresentados na pobreza apesar da contínua expansão do agronegócio e da fronteira econômica.

    Dentre os maiores desafios para a Amazônia Legal, destacam-se os indicadores de saúde e de acesso a serviços de saúde. Por um lado, o perfil epidemiológico da região é reconhecidamente diverso e desafiador. De acordo com as Tábuas de Mortalidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano anterior ao do início da pandemia da Covid-19, a expectativa de vida ao nascer na Região Norte era a mais baixa do país – cerca de 2,6 anos menor que a do país como um todo e 1 ano inferior à da Região Nordeste. Por outro lado, a entrega de serviços de saúde na região é extremamente complexa por conta de sua geografia, pelo padrão de ocupação do território, dentre inúmeros outros fatores. Ainda, a capacidade de governos locais em financiar e implementar políticas públicas é reconhecidamente limitada pela escassez de recursos de toda ordem.

    Como superar estes desafios e avançar na saúde? Em particular, como fazer frente aos desafios que ainda estão por vir? Os serviços de saúde estão preparados para lidar com as necessidades que o envelhecimento populacional em breve lhes trará? Responder estas perguntas o quanto antes é fundamental uma vez que o desencontro entre necessidades crescentes e capacidades limitadas pode implicar restrições sérias ao avanço da expectativa de vida na região ao longo do tempo e na ampliação das desigualdades.

    Este estudo tem como objetivo contribuir para o debate ao caracterizar de maneira sistemática a evolução recente e o quadro atual da saúde da população da Amazônia Legal, bem como de sua rede assistencial, a disponibilidade de recursos e de profissionais de saúde, a infraestrutura física e a oferta de serviços, o financiamento e a governança regional. Utilizamos os microdados de alguns dos mais importantes sistemas de informação e bases de dados do Ministério da Saúde, IBGE e Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para caracterizar a evolução de indicadores de saúde populacional, provisão de serviços, disponibilidade de recursos e financiamento em saúde na Amazônia Legal em comparação ao restante do país entre 2010 e 2019.

    A análise qualitativa teve como base pesquisa documental, revisão da literatura acadêmica e entrevistas com diversos atores envolvidos com políticas públicas de saúde na Amazônia Legal. No presente estudo, estas atividades tiveram como objetivo identificar padrões e fenômenos não cobertos pelos sistemas de informação e aumentar a compreensão dos dados levantados na análise quantitativa. Um estudo ainda em andamento reportará em detalhes os resultados da análise qualitativa com base nas entrevistas.

    Autores: Rudi Rocha, Marcela Camargo, Lucas Falcão, Mariana Silveira e Gabriela Thomazinho

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202111.ed20

    Créditos da imagem: Alejandro Zambrana/Sesai

  • Mandioca: Entre Subsistência e Negócio

    Mandioca: Entre Subsistência e Negócio

    A mandioca, um tubérculo domesticado pelas populações indígenas da Amazônia há mais de 9 mil anos, é uma planta-chave para a segurança alimentar. Rica em amido, pode ser cultivada em solos quimicamente pobres e resistir a secas prolongadas. Além disso, a demanda mundial de mandioca cresce ano a ano — em parte motivada pela procura crescente por alimentos sem glúten. Há um consenso de que a mandioca é estratégica para o desenvolvimento da Amazônia. Apesar disso, a cadeia da mandioca na região enfrenta desafios como produtividade média inferior à do resto do Brasil,  agregação de valor ainda incipiente e uma produção insuficiente para atender à demanda da própria região. Como superar esses entraves?

    Uma nova pesquisa, desenvolvida pelo projeto Amazônia 2030, examina a cadeia de produção de mandioca na Amazônia, seus desafios e potencialidades. No relatório Mandioca: entre subsistência e negócio, o chef de cozinha e pesquisador Roberto Smeraldi e a engenheira química e pesquisadora do Centro de Empreendedorismo da Amazônia Manuele Lima conversam com atores fundamentais para o cultivo da mandioca na região: pequenos produtores, processadores, vendedores e cientistas.  A investigação revela que, para disputar mercados mais competitivos, os produtores da Amazônia precisam incorporar tecnologia aos seus cultivos. 

    Apesar da origem amazônica, os cultivos de mandioca mais produtivos estão localizados nas regiões sudeste e sul do Brasil. Na região norte, as exceções são Rondônia e Acre, cuja produtividade média é próxima das registradas no sul e sudeste. A diferença entre esses dois estados e o restante da Amazônia está na tecnologia de adubação que seus produtores empregam, e na introdução de mecanização nos cultivos.

    A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima em aproximadamente 40 toneladas por hectare o rendimento ideal do cultivo da mandioca em condições favoráveis de clima e solo, disponíveis na Amazônia. Apesar dos resultados acima da média, mesmo Rondônia e Acre continuam longe desse patamar ideal: sua produtividade gira em torno de 23 toneladas por hectare. Há largo espaço para implementação de melhorias. 

    Otimismo e planos para o futuro

    Apesar dos problemas e da baixa produtividade, os atores ligados à cadeia da mandioca na Amazônia têm uma visão otimista do futuro, revela o estudo.  A diversidade de produtos que podem ser originados pela mandioca continua despertando interesse de produtores e empresas. A Fundação Amazonas Sustentável tem investido em levar a farinha de Uarini – com processo peculiar de fabricação que resulta num formato oval da granulação – ao mercado através de plataformas virtuais, como é o caso das Lojas Americanas. No Acre, houve investimento ao longo de mais de dez anos na criação e reconhecimento da Indicação Geográfica (IG) para a farinha de mandioca de Cruzeiro do Sul. O reconhecimento da Indicação Geográfica traz benefícios como a padronização do modo de fazer, o que contribui para proteger o conhecimento tradicional e organizar melhor os produtores.

    Por fim, há grande expectativa em relação ao tucupi — um subproduto da mandioca com grande aceitação entre chefes de cozinha e mercados consumidores fora da Amazônia. Uma das empresas que atuam na região, a Manioca chegou a desenvolver um tucupi de prateleira, que não precisa de refrigeração e é acondicionado em uma embalagem desenhada especificamente para venda no grande varejo.

    Os casos examinados sugerem que um dos caminhos desejáveis para a cadeia da mandioca na Amazônia envolve explorar para usos especializados a diversidade de variedades nativas e cultivares desenvolvidos. Para isso dar certo, no entanto, o aumento da produtividade é fator crítico. “A cadeia da mandioca como negócio requer o estabelecimento de indústrias, a diversificação de variedades aptas para diferentes produtos e o processamento especializado de subprodutos. Para tanto, é crítico que a região se torne autossuficiente em termos de consumo e ainda possa garantir um excedente expressivo”, escrevem os autores. 

    Autores: Roberto Smeraldi e Manuele Lima dos Santos

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202111.ed19

  • Cacau Fino ou Commodity: Opções para a Amazônia

    Cacau Fino ou Commodity: Opções para a Amazônia

    Apesar de ser nativo da Amazônia, o cacau foi, por muito tempo, associado a outras regiões do planeta. O fruto dominou o mercado europeu a partir de plantações na América Central e no Caribe. Mais recentemente, passou a ser associado a países Africanos. A Amazônia brasileira, um dos berços da fruta, tinha pouca participação no mercado global — e respondia por uma parcela ínfima da produção brasileira. O quadro mudou e, desde 2019,  o Pará se tornou o maior produtor brasileiro do fruto, respondendo por aproximadamente metade do cacau nacional. Como garantir que o Cacau da Amazônia conquiste mais mercados?

    No artigo Cacau fino ou commodity: opções para a Amazônia, o chef de cozinha e jornalista Roberto Smeraldi e a engenheira química e pesquisadora do Centro de Empreendedorismo da Amazônia Manuele Lima examinam as razões para o recente boom do cacau amazônico — e fazem um diagnóstico dos principais desafios enfrentados pelos empreendedores do setor para crescer. 

    Em 2021, o Pará deve produzir em torno de 140 mil toneladas de cacau. A maior parte desse conjunto é de cacau do tipo commodity.  O sucesso do cacau no estado não foi resultado somente do aumento da produção, explicam os autores. A região se beneficiou de um trunfo único: a grande variedade genética do fruto naquela área. Calcula-se que existam mais de 20 mil variedades de cacau na Amazônia, um elemento fundamental para a qualidade do produto. 

    De acordo com os autores, um dos maiores desafios dessa década é o de valorizar as diferentes variedades de cacau que a Amazônia hospeda. Isso permitiria aos produtores aproveitar melhor uma vantagem já existente — e ser mais bem remunerados pelo cacau vendido. Além disso, a valorização dessa diversidade pode levar a uma malha de indicações geográficas e de origem e servir para dar sustentabilidade e resiliência ao cultivo do cacau mundialmente, frente às ameaças da mudança climática e a proliferação de pragas e doenças.

    O diagnóstico está alinhado a uma tendência global. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores da Holanda – principal importador e processador de cacau no mundo – é possível identificar nove tendências estratégicas do mercado de cacau para a atual década: 

    1. Foco crescente sobre origem do cacau e do chocolate;
    2. Narrativa (storytelling) cada vez mais importante;
    3. Crescente demanda por chocolate bean-to-bar (com cultivo e processamento unificados);
    4. Encurtamento da cadeia devido a comércio direto;
    5. Aumento da preocupação com saúde e bem-estar;
    6. Controles devidos à regulação europeia sobre presença de cádmio;
    7. Aumento da influência das multinacionais que entram também no segmento de cacaus
      especiais;
    8. Sustentabilidade da produção em alta na agenda internacional;
    9. Programas de sustentabilidade cada vez mais comuns no setor privado.

    Para avançar e conquistar maior número de mercados, sugere o estudo, os produtores de cacau da Amazônia precisam de investimento em treinamento e profissionalização. 

    Leia o estudo completo aqui.

    Autores: Roberto Smeraldi e Manuele Lima dos Santos

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202111.ed18

  • A Década do Açaí

    A Década do Açaí

    Nos últimos 20 anos o açaí, uma palmeira típica das várzeas da Amazônia, experimentou um boom de popularidade. Em 2019, o mercado global do produto chegou a US$ 720 milhões — e a previsão é de que alcance US$ 2,1 bilhões até 2025. Apesar do prognóstico positivo, os produtores de açaí da Amazônia enfrentam dificuldades para se tornar competitivos. Faltam recursos importantes para o seu desenvolvimento: os desafios vão da falta de tecnologia para processamento e embalagem do produto à dificuldade de seguir padrões de qualidade que atendam intermediários e importadores. Conforme surgem plantios de açaí em outras regiões tropicais, essa escassez de recursos pode fazer com que os produtores de açaí da Amazônia fiquem para trás na disputa pelo mercado global do produto.

    Esse quadro é descrito no relatório “Amazônia: territórios da comida — a década do Açaí”. O estudo, realizado no âmbito do projeto Amazônia 2030, foi conduzido pelo chef de cozinha e jornalista Roberto Smeraldi, e pela engenheira química e pesquisadora do Centro de Empreendedorismo da Amazônia Manuele Lima. Os pesquisadores entrevistaram empreendedores que atuam na cadeia do açaí, de modo a analisar quais os principais desafios que, hoje, afetam o setor, e apontar caminhos possíveis para superá-los. 

    O trabalho mostra que a cadeia do açaí na Amazônia enfrenta dois grandes desafios. Primeiro, existe a perspectiva de concorrência com o açaí plantado em outros países tropicais, como é o caso da Indonésia e do sudeste asiático. Segundo,  ainda não há garantia de que a oferta de açaí na Amazônia crescerá sem pressionar a floresta: existem riscos de que o açaí plantado de terra firme acabe pressionando o desmatamento de novas áreas.

    Para superar essas incertezas, o estudo sugere que é preciso agregar valor ao produto.  O açaí tem potencial para ampliar sua participação na economia regional. Porém, é preciso avançar com adoção de um tripé de medidas:  melhorar os níveis de industrialização, educar o mercado quanto à variedade genética do produto e a diferenciação de origem, e afirmar padrões de qualidade, incluindo aspectos sanitários e socioambientais.

    Os entrevistados apontam que é essencial trabalhar para construir a reputação do açaí da Amazônia, permitindo o reconhecimento de indicações geográficas. Como disse um dos empreendedores consultados, é possível estabelecer “um Grand Cru de açaí Curralinho, Açaí do Baixo Tocantins, Açaí do Amapá”. 

    É possível, ainda, incorporar avanços tecnológicos. Na industrialização do açaí, tendência prevista por alguns é que haja uma revolução no processamento do fruto. Isso porque o açaí é um fruto muito perecível e que sofre oxidação entre colheita, transporte e processamento. Novas tecnologias, já disponíveis, permitiriam transformar o açaí em um produto de prateleira, que dispensa refrigeração.

    Além disso, conforme a produção de açaí cresce, é necessário garantir que ela ocorra segundo padrões compatíveis com a floresta. Para isso, certificações de produção orgânica e selos socioambientais são importantes.  

    Segundo os autores do trabalho, para garantir tais avanços — que são onerosos para um produtor individual, ao mesmo tempo em que são benéficos para todo o setor — os empreendedores da cadeia do açaí podem se associar em arranjos pré-competitivos: acordos segundo os quais empresas concorrentes se unem para prover recursos de uso comum, sem, no entanto, deixar de competir entre si. 

    Autores: Roberto Smeraldi e Manuele Lima

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202111.ed17

  • Amazônia: Territórios da Comida

    Amazônia: Territórios da Comida

    Nos últimos anos, o cenário de negócios relacionados à comida na Amazônia Legal se expandiu. Surgiram startups e produtores que se modernizaram para suprir, com qualidade, mercados exigentes. Lar de algo entre 10% e 15% de toda a biodiversidade do planeta, a Amazônia reúne mais de 2 mil variedades de cacau, 140 variedades de mandioca, 114 tipos de mel de abelhas nativas, dentre centenas de outros itens de uma lista extensa. A combinação dessa biodiversidade rica com negócios dispostos a crescer tem potencial para desenvolver a economia da região. Como tornar isso possível?

    Um novo estudo do projeto Amazônia 2030 tenta responder essa questão. No relatório “Territórios da Comida”, o professor associado da Universidade de Nova York Salo Coslovsky, o chef de cozinha e jornalista Roberto Smeraldi, e a engenheira química e pesquisadora do Centro de Empreendedorismo da Amazônia Manuele Lima avaliam a possibilidade de a Amazônia tornar-se uma marca associada a ingredientes novos, capaz de pautar tendências gastronômicas no Brasil e no mundo. Um lugar capaz de abrigar aquilo que os pesquisadores batizaram de “territórios da comida”: regiões capaze de inovar e de gerar riqueza e qualidade de vida para seus habitantes, mantendo a floresta em pé. 

    Para isso acontecer, sugere o estudo, é preciso garantir que os empreendedores da Amazônia tenham acesso a bens e recursos que, hoje, são escassos na região — como bons fornecedores, mão-de-obra qualificada para realização de atividades específicas e conhecimentos sobre técnicas de produção. Itens que os pesquisadores batizaram de Recursos Compartilhados Setoriais. (ReCS)  (veja mais no gráfico ao final do texto)

    Dificuldade para crescer

    Há indícios fortes de que a Amazônia pode abrigar territórios da comida. Análises anteriores do grupo revelaram a importância econômica do chamado “sistema comida” para a região: mais de 33% dos profissionais ocupados na Amazônia Legal trabalham em atividades ligadas a produção, processamento, comercialização ou descarte de alimentos. Em termos relativos, trata-se de um contingente muito maior do que o verificado no restante do Brasil — que emprega cerca de tantos 24% da força de trabalho no setor comida.

    Além disso, a Amazônia já exporta 64 artigos — muitos deles, gêneros alimentícios — que podem ser produzidos de maneira compatível com a floresta e que movimentam um mercado global avaliado em US$ 176 bi anuais. 

    A criação de territórios da comida foi uma estratégia adotada com sucesso por países como Itália e França. No Peru, lembram os pesquisadores, campanhas bem-sucedidas transformaram a cozinha do país em referência para o mundo. 

    Para investigar se as cadeias associadas à comida poderiam alavancar a economia amazônica, os pesquisadores conduziram entrevistas aprofundadas com 45 empreendedores já atuantes na Amazônia. São empresários do sistema comida cujos negócios experimentam relativo sucesso.

    As conversas revelam que todos têm planos de expansão. É o caso, por exemplo: 

    1-Das empresas que produzem chocolate, seja com cacau nativo (De Mendes, Na Floresta), seja plantado (Cacauway), e que planejam ampliar sua capacidade produtiva ou rede de distribuição.

    2- Da Combu, uma empresa que distribui produtos amazônicos em São Paulo e região Sudeste, tem planos de entrar no ramo de comidas prontas para bares e restaurantes.

    3- Da Manioca, que passou a abastecer as gôndolas das principais redes de varejo do Brasil com produtos amazônicos, e segue ampliando seu leque de produtos.

    4- Da Nossa Fruits, que comercializa açaí para a França e pretende abrir sua própria planta industrial  processadora de açaí na Ilha do Marajó (PA). A empresa planeja usar o mesmo maquinário para processar outros produtos (óleos e extratos) para a indústria de cosméticos.

    Apesar do otimismo dos entrevistados, existem entraves ao crescimento desses negócios. Hoje, os empreendedores da comida que atuam na Amazônia desempenham uma espécie de duplo papel. Além de tocar os próprios empreendimentos, muitos ainda se encarregam de financiar Recursos Compartilhados Setoriais (ReCS). Artigos que são importantes para os seus negócios mas que, uma vez disponíveis, beneficiam também seus concorrentes. “É o caso de uma campanha publicitária para promover uma certa variedade de farinha”, exemplifica o chef Smeraldi. “O investimento pode ser feito por uma única empresa. Mas todos os produtores do artigo saem ganhando”. 

    Na avaliação dos pesquisadores, prover ReCS é uma tarefa “ingrata”. A disponibilidade de ReCs pode definir o sucesso futuro —ou o fracasso — desses empreendimentos.  “Os recursos compartilhados setoriais são peça-chave para entender o que está acontecendo ou o que pode acontecer na Amazônia”, afirma Coslovsky.

    Na impossibilidade de o Estado preencher essa lacuna, a pesquisa aponta que uma saída possível é a criação de Arranjos Pré-Competitivos. Acordos estabelecidos entre empresas concorrentes de um mesmo setor, que se unem para prover recursos compartilhados sem deixar de competir entre si.

    Negócios do encontro

    Outra característica marcante dos empreendimentos na Amazônia diz respeito à maneira como esses negócios costumam começar. A maioria dos casos analisados surgiu a partir do encontro entre um amazônida — que conhece a região, seus ingredientes e cultura — e uma pessoa de fora da Amazônia, ou que passou algum tempo distante da região. “Muitos amazônidas – por razões variadas – têm dificuldade em identificar e valorizar o potencial de sua região. Somente quando saem para algum intercâmbio ou visita, é que as oportunidades potenciais da Amazônia ficam mais explicitas. E o mesmo vale para pessoas de fora que não conseguem identificar ou sequer apoiar oportunidades e modalidades de negócio por desconheceram a região”, diz o estudo. 

    Na maioria dos casos, esses encontros acontecem de maneira pouco planejada. Os pesquisadores avaliam que a criação de programas de intercâmbio, que pudessem estimular e viabilizar esses encontros, ajudaria a impulsionar o ecossistema de negócios na Amazônia. 

    Autores: Salo V. Coslovsky, Roberto Smeraldi e Manuele Lima dos Santos

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202111.ed16

  • Dinamismo de Emprego e Renda na Amazônia Legal: Ocupações Qualificadas e de Liderança

    Dinamismo de Emprego e Renda na Amazônia Legal: Ocupações Qualificadas e de Liderança

    As vagas de trabalho que exigem alta qualificação e profissionais especializados estão em declínio na Amazônia Legal. Uma nova pesquisa, conduzida pelo projeto Amazônia 2030, mostra que em sete anos, entre 2012 e 2019, a região demitiu 23,2% de seus cientistas, engenheiros, dirigentes e gerentes de empresa — entre outros profissionais que ocupavam cargos de liderança. Em números absolutos, 152901 desses postos de trabalho foram fechados. No mesmo período, a região experimentou um aumento tímido no emprego: nesses sete anos, foram criadas  pouco mais de 537 mil novas vagas, um crescimento de 5,3% no número de profissionais ocupados na Amazônia.

    Os números são indício de um problema: sugerem que a Amazônia Legal tem dificuldades para atrair e reter talentos qualificados. A conclusão é parte do relatório Dinamismo do Emprego e renda na Amazônia Legal: ocupações qualificadas e de liderança. O documento é o quarto — e último — de uma série que examina a evolução recente do emprego na região. A pesquisa é conduzida pelos economistas Gustavo Gonzaga, Francisco Cavalcanti e Flávia Alfenas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

    A análise do grupo se concentrou em um conjunto restrito de ocupações: administradores e analistas; cientistas e engenheiros; dirigentes e gerentes de empresas. Num mercado de trabalho marcado pela alta informalidade e pelos salários baixos, essas ocupações destoam. Elas apresentam alto grau de formalização: 66,4% dos profissionais têm carteira assinada, muito acima da média de 43,8% registrada na Amazônia. Além disso, são ocupações bem remuneradas: o salário médio fica em torno de R$ 4.461, contrastando com a média de R$1.692 para a região.

    Mas essas são ocupações em declínio. Em 2012, as ocupações qualificadas e de liderança correspondiam a 6,5% do total de 10 milhões na região. Em 2019, esse percentual caiu para 4,8% do total de 10,6 milhões de ocupações na Amazônia Legal.

    Jovens são mais afetados

    A retração afeta especialmente os profissionais mais jovens, que têm entre 18 e 29 anos de idade. Para esse grupo, a queda do emprego em ocupações de liderança foi de 34% entre 2012 e 2019, o que corresponde ao fechamento de 51.965 vagas.

    No período analisado, as únicas ocupações que escaparam dessa tendência de queda foram as de administradores e especialistas em gestão, que cresceram 31%. Mesmo aí, há uma má notícia: a renda média da categoria registrou a maior queda entre as ocupações analisadas, com redução de 15,9% no mesmo período.

    Enquanto as vagas que exigem profissionais com alta qualificação fecham, relatórios anteriores do grupo mostraram que, na Amazônia, despontam hoje as ocupações do setor de serviços. Sobretudo a de vendedor, que cresceu 62,7% nos sete anos da análise.

    Autores: Gustavo Gonzaga, Francisco Cavalcanti e Flávia Alfenas

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202110.ed15.puc 

  • Dinamismo de Emprego e Renda na Amazônia Legal: Serviços

    Dinamismo de Emprego e Renda na Amazônia Legal: Serviços

    O setor de serviços é o maior empregador da Amazônia Legal. É também o que mais cresce. Uma nova análise, conduzida por pesquisadores do projeto Amazônia 2030, constatou que , em sete anos — de 2012 a 2019 — o número de pessoas trabalhando no setor cresceu 28,3%. O grande destaque coube ao grupo de vendedores, cujo número saltou 62,7% em menos de uma década. Os dados, apontam os pesquisadores, soam um alerta importante para a região: hoje, são as atividades urbanas as que geram emprego e renda para a população da Amazônia. Na ponta oposta, ocupações relacionadas ao uso da terra — como agricultura e pecuária — perdem espaço

    As conclusões constam no relatório “Dinamismo do emprego e renda na Amazônia Legal: serviços”. O documento é o terceiro de uma série que examina como se comportou o emprego e a renda nos nove estados da Amazônia Legal em anos recentes. A pesquisa é conduzida pelos economistas Gustavo Gonzaga, Francisco Cavalcanti e Flávia Alfenas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

    Em trabalhos anteriores, o grupo já havia destacado a relevância do setor de serviços para os trabalhadores da Amazônia: em 2019, esse conjunto de atividades chegou a empregar 46% de todas as pessoas ocupadas na região. A nova análise mostrou que o setor cresce ano a ano, e num ritmo muito superior ao verificado para os demais setores. Nos anos analisados, os estados da Amazônia Legal abriram cerca de 500 mil novos postos de trabalho: um crescimento de 5,3%. No mesmo período, as atividades do ramo de serviços experimentaram um avanço quase seis vezes superior, com crescimento de de 28,3%.

    A pujança dos serviços — e de suas atividades eminentemente urbanas — contrasta com a dinâmica observada nos setores que envolvem uso da terra. No primeiro relatório desta série, os pesquisadores constataram que, no mesmo período, a agropecuária demitiu 322 mil pessoas. Uma retração de 16% no número de postos de trabalho.

    Outra análise recente do grupo apontou que, para além do setor de serviços, o setor público aparece na segunda posição entre aqueles que mais abrem postos de trabalho na Amazônia: entre 2012 e 2019, o número de pessoas empregadas pelo Estado na região cresceu 21,6%.

    Em conjunto, esses dados acentuam a relevância das cidades para o mercado de trabalho da Amazônia: “Esse quadro ilustra que o dinamismo econômico da região ocorre, principalmente, nas atividades urbanas, que não estão relacionadas à floresta”, escrevem os autores.

    Emprego em alta, salários em baixa

    No setor de serviços, as atividades que mais cresceram foram as de vendedor (alta de 62,7%) e de serviços e cuidados pessoais (avanço de 23,5%). O avanço do emprego se deu, sobretudo, em meio àqueles com maior grau de escolarização: os dados mostram que o número de pessoas ocupadas no setor de serviços que tinham pelo menos o ensino médio completo cresceu 62,3%. O quadro pouco mudou para a população menos escolarizada, que tinha estudado até o ensino médio: avanço de 2%.

    O crescimento do emprego em serviços, no entanto, veio acompanhado pela redução dos salários no setor. A renda média desses trabalhadores caiu 0,5% de 2012 a 2019. No último ano da análise, o salário médio do trabalhador do setor era de R$1426,00 — inferior à média salarial para a Amazônia, de R$1692. A taxa de formalização do setor também é baixa, com 63,4% dos trabalhadores na informalidade. “Os dados mostram que, para melhorar a qualidade de vida das populações na Amazônia, é preciso encontrar formas de qualificar —e remunerar melhor — esse trabalho feito nas cidades”, afirma Gustavo Gonzaga, que coordenou a pesquisa.

    Autores: Gustavo Gonzaga, Francisco Cavalcanti e Flávia Alfenas

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202110.ed14.puc

  • Dinamismo de Emprego e Renda na Amazônia Legal: Setor Público

    Dinamismo de Emprego e Renda na Amazônia Legal: Setor Público

    Em sete anos, entre 2012 e 2019, a Amazônia Legal viu disparar o número de profissionais de segurança e saúde empregados pelo Estado.  Uma nova análise, conduzida por pesquisadores do projeto Amazônia 2030, mostra que, em menos de uma década, o setor público na região cresceu: uma alta de 21% no número de pessoas contratadas. Hoje, o Estado é o segundo maior empregador da Amazônia. A alta foi protagonizada pela contratação de policiais, bombeiros, profissionais das forças armadas, médicos, paramédicos e enfermeiros — dentre outros profissionais de saúde.

    As conclusões são parte do relatório “Dinamismo de emprego e renda na Amazônia Legal: setor público”. O documento é o segundo de uma série destinada a examinar como se comportaram os empregos e os salários na Amazônia — quais ocupações empregaram mais, e quais mais demitiram — durante o período analisado. A pesquisa é conduzida pelos economistas Gustavo Gonzaga, Francisco Cavalcanti e Flávia Alfenas, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

    Numa análise anterior, publicada no início de 2021, a equipe já havia demonstrado como os estados da Amazônia Legal empregam, proporcionalmente, mais pessoas no setor público quando comparados ao restante do país: 9,1% dos profissionais empregados na região trabalham para o Estado, ante 8% no restante do Brasil.

    O novo relatório mostra que  esse grupo de trabalhadores cresce ano a ano. Entre 2012 e 2019, a categoria de policiais, bombeiros e forças armadas cresceu 45,6% — o equivalente a 31821 novas contratações. Algo semelhante aconteceu com os profissionais de saúde contratados pelo setor público: crescimento de 40,7%, ou mais de 100 mil novas contratações.

    Em terceiro lugar aparecem os profissionais de educação. Eles compõem a categoria mais numerosa dentre os profissionais contratados pelo Estado: são quase 520 mil profissionais. Mas seu avanço em anos recentes foi mais tímido: 8,3%, ou quase 40 mil novos contratados.

    Dinamismo do setor público

    Os dados, dizem os pesquisadores, soam alguns alertas importantes. De um lado, há uma aparente boa notícia: “O trabalho traz pistas de que houve um aumento expressivo na capacidade do governo. É uma condição necessária mas não suficiente para a melhoria dos serviços públicos “, afirma Juliano Assunção, diretor executivo da Climate Policy Initiative (CPI) Brasil e um dos coordenadores do Amazônia 2030.

    De outro lado, há motivos para preocupação. A preponderância do setor público no mercado de trabalho da Amazônia é um indício de que o setor privado encontra dificuldades para crescer e gerar empregos. Por fim, o crescimento acentuado do emprego público levanta dúvidas sobre a capacidade de o Estado sustentar avanço semelhante pelos próximos anos.

    Autores: Gustavo Gonzaga, Francisco Cavalcanti e Flávia Alfenas

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202110.ed13.puc

  • Conhecendo o Sistema Comida na Amazônia

    Conhecendo o Sistema Comida na Amazônia

    O sistema de produção de alimentos – conjunto das atividades de pré-produção, produção e pós-produção da comida – constitui um tema estratégico em todo o mundo pelas suas repercussões em diferentes esferas: na economia, em especial, na geração de renda e emprego; socialmente, ao atuar na segurança alimentar; na agenda climática, ao interferir nas emissões de gases de efeito estufa. Esse conjunto passou a ser chamado Sistema Comida por organismos como a Agência das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e o Banco Mundial, que nele incluem produção, processamento, distribuição, consumo e descarte de comida.

    O objetivo deste estudo é apresentar um perfil do Sistema Comida na Amazônia Legal. Para tanto, analisamos indicadores de ocupação e renda a fim de compreender com maior profundidade as peculiaridades desse sistema e propor abordagens mais eficazes no que tange a políticas públicas.

    O Sistema Comida tem um peso considerável no mercado de trabalho da região. Existem hoje mais de 3,5 milhões de pessoas – ou um terço de todos os ocupados – que nele trabalham. Esse resultado é superior à proporção no resto do Brasil, onde os ocupados no sistema representam 23% do total. Nas áreas rurais amazônicas, o Sistema Comida chega a empregar 69% da força de trabalho.

    A taxa de informalidade dos ocupados no Sistema Comida alcança 71%, na região amazônica. A incidência da informalidade é, portanto, muito maior do que aquela obtida em geral para todos os setores econômicos na Amazônia (50%). Já a participação dos ocupados do Sistema Comida no total do mercado de trabalho informal atinge mais de 41% na Amazônia, versus 29% do resto do Brasil. A renda desses ocupados é também inferior à renda média regional, especialmente no grupo dos empregados.

    Apesar desse quadro de fortes disparidades, não se observa hoje uma priorização de políticas públicas relacionadas ao Sistema Comida na região amazônica, o que se traduz em uma oportunidade desperdiçada. Desta forma, este relatório revela uma realidade até agora subjacente, mas de grande relevância para a formulação de políticas públicas sobre o desenvolvimento econômico na região. Trata-se de uma realidade particularmente importante, cujo entendimento poderá auxiliar na implementação de políticas sociais mais focalizadas para públicos vulneráveis e no combate à informalidade.

    Autor: Roberto Smeraldi

    Digital Object Identifier (DOI): http://doi.org/10.59346/report.amazonia2030.202110.ed12