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  • O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global – 2ª Edição

    O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global – 2ª Edição

    O agronegócio brasileiro, que já é responsável por grande área de conservação por meio de Reserva Legal, pode ser um dos principais vetores da expansão das florestas no país nas próximas décadas. Essa é uma das conclusões da segunda edição do estudo “O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global”, que traça um panorama completo sobre conservação, restauração florestal e silvicultura no país, com recomendações sobre financiamento e políticas públicas. O documento, que será apresentado este ano nas três Conferências das Partes da ONU (as COPs do Clima, da Biodiversidade e da Desertificação), defende que a produção agropecuária, a conservação e a expansão florestal não são agendas opostas, mas complementares.

    Segundo o estudo, além de parte importante da conservação ambiental brasileira estar dentro das propriedades rurais – por meio das áreas de Reserva Legal e das Áreas de Preservação Permanente (APPs) -, há um volume significativo de áreas privadas pouco aptas para a agricultura ou pecuária que podem ser destinadas à restauração florestal. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por florestas plantadas para a produção de bioenergia.

    A segunda edição da publicação foi realizada por uma coalizão de instituições formada por Instituto Arapyaú, Instituto Itaúsa, Agroicone, Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Instituto Clima e Sociedade (iCS), Imazon, Amazônia 2030, CEBDS e Uma Concertação para a Amazônia. Um dos objetivos é influenciar a UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática) para que reconheça as florestas como centrais para remoção e armazenamento de carbono.

    A nova versão recebeu o apoio formal da presidência da COP30. O material também serviu de insumo para as contribuições técnicas das organizações para o Mapa do Caminho para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030, proposto pela presidência brasileira durante a COP30.

    A primeira edição do documento, lançado durante a conferência em Belém, revelou que o Brasil pode inverter a curva do desmatamento e expandir florestas até 2035, passando de 517 milhões para uma cobertura florestal de 525 milhões de hectares em dez anos. O avanço de 8 milhões de hectares, equivalente a duas vezes o território da Suíça, teria impacto direto na ampliação dos estoques de carbono e reforçaria o papel estratégico do país no equilíbrio climático global.

    Com uma visão abrangente das paisagens florestais do país, o documento tem o objetivo de mostrar os desafios e apontar os caminhos para que o Brasil reverta a perda histórica de cobertura vegetal e volte a ampliar suas florestas. A análise está organizada em três frentes (conservação, restauração florestal e silvicultura) e utiliza o conceito de “contínuo florestal”, adotado internacionalmente para compreender diferentes formas de uso e manejo das florestas ao longo do território. Nesse modelo, coexistem desde áreas preservadas e manejo sustentável até sistemas de restauração e florestas plantadas com espécies nativas e exóticas, voltadas à produção econômica. Segundo o estudo, todas essas modalidades podem gerar benefícios ambientais e econômicos, seja pela preservação da biodiversidade e dos recursos hídricos, seja pela captura de carbono e pelo abastecimento de cadeias produtivas.

    Nesta edição, os autores ampliaram o escopo da análise para incorporar informações sobre todos os biomas terrestres brasileiros. Além da Amazônia e da Mata Atlântica, o levantamento inclui Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa e Zona Costeira, pela importância dessas paisagens para remoção de carbono, proteção dos solos, regulação do ciclo hidrológico e conservação da biodiversidade.

    O relatório também destaca o papel estratégico dos povos indígenas e das comunidades tradicionais na conservação das florestas brasileiras. Segundo dados do Imazon, as terras indígenas registraram apenas 3% de todo o desmatamento da Amazônia entre 2012 e 2024, o menor índice entre os diferentes tipos de territórios monitorados. Para os autores, fortalecer a governança territorial e ampliar o reconhecimento dessas populações como guardiãs das florestas será fundamental para avançar em conservação, restauração e produção sustentável.

    Agronegócio e transição florestal 

    A conexão entre o agronegócio e a transição florestal se dá por muitos caminhos. Parte importante da conservação ambiental brasileira, por exemplo, está dentro das propriedades rurais privadas, por meio das áreas de Reserva Legal e das Áreas de Preservação Permanente (APPs) previstas no Código Florestal. A publicação reforça que o Brasil já demonstrou capacidade de reduzir o desmatamento sem prejudicar a produção agropecuária. Entre 2004 e 2012, a taxa de desmatamento da Amazônia caiu 80%, enquanto a produção agropecuária da região praticamente dobrou. No período, mais de 55 milhões de hectares foram protegidos por unidades de conservação.

    As florestas também são essenciais para manter as condições climáticas que sustentam a agricultura brasileira, especialmente por meio dos chamados “rios voadores”, correntes de umidade que levam chuvas da Amazônia para o Centro-Sul do país. A publicação cita um estudo internacional divulgado em 2026 na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, segundo o qual a Amazônia Legal brasileira gera precipitações avaliadas em cerca de US$20 bilhões por ano para a agricultura.

    Outra oportunidade para a produção agropecuária está na restauração florestal. Segundo o documento, há um volume significativo de áreas privadas pouco aptas para a agricultura ou pecuária – como terrenos muito inclinados ou degradados – que podem ser destinadas à recuperação florestal. Além de gerar benefícios para o clima e para a biodiversidade, a restauração ajuda produtores rurais a regularizar passivos ambientais previstos no Código Florestal e ainda cria oportunidades de geração de créditos de carbono e novas fontes de renda no campo. Até 2050, de acordo com uma projeção feita pela WRI, a restauração pode gerar US$141 bilhões no Brasil, montante que inclui carbono, alimentos, biomateriais e bioenergia.

    Um levantamento preliminar conduzido pela Agroicone em parceria com o movimento Floraz, iniciativa empresarial criada para estruturar o setor de restauração florestal no Brasil, identificou milhões de hectares com potencial para projetos de restauro em áreas ligadas ao agronegócio, especialmente em pastagens degradadas. O estudo cruzou bases públicas e privadas de dados geoespaciais para mapear regiões aptas à recuperação com espécies nativas, considerando critérios como baixa aptidão agrícola, ausência de desmatamento recente, tamanho das propriedades e distância de polos industriais de madeira. Em um cenário mais conservador, o trabalho identificou cerca de 2,6 milhões de hectares aptos para restauração distribuídos em aproximadamente 8 mil propriedades rurais.

    O avanço do etanol de milho no Brasil tem aumentado, em algumas regiões, a demanda por biomassa florestal — especialmente eucalipto e pinus — utilizada para geração de energia térmica nas usinas, fortalecendo a interface entre silvicultura, bioenergia e estratégias de descarbonização. Na safra 2024/2025, a produção de etanol de milho representou 22% da produção total de etanol do país, alcançando 8,2 milhões de metros cúbicos. A previsão do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) é de que o volume chegue a 22,55 milhões de metros cúbicos até 2034/2035.

    Adaptação: florestas para além do carbono

    A agenda florestal global começa a passar por uma mudança de foco. Se nos últimos anos o debate esteve concentrado na captura de carbono e na geração de créditos negociáveis, agora os impactos físicos das mudanças climáticas colocam a adaptação no centro da discussão econômica. Os autores destacam que secas prolongadas, incêndios florestais, eventos extremos e crises hídricas já afetam diretamente cadeias produtivas, infraestrutura e finanças públicas. Por isso, as florestas passam a ser vistas como uma espécie de “infraestrutura natural”, capaz de reduzir riscos climáticos, regular regimes de chuva, proteger solos e dar estabilidade à produção agrícola, energética e logística. Segundo o documento, o valor econômico das florestas vai além do carbono e está cada vez mais ligado à capacidade de garantir resiliência e continuidade econômica em um cenário de maior instabilidade climática.

    Os autores alertam, no entanto, que o financiamento da agenda florestal ainda está muito aquém da necessidade global. Embora exista um maior reconhecimento sobre o papel estratégico das florestas para estabilidade climática, segurança hídrica e biodiversidade, o capital privado ainda se concentra em mercados considerados menos arriscados, deixando projetos florestais subfinanciados. A publicação aponta que ampliar o fluxo de recursos não será suficiente sem mudanças estruturais na forma de financiar a agenda florestal.

    O documento defende modelos de blended finance (que combinam recursos públicos e privados), além de mecanismos de “de-risking”, garantias financeiras e estruturas inspiradas em project finance para tornar os projetos mais atrativos aos investidores. Um destaque importante é a crescente atenção a fundos destinados a povos indígenas e comunidades locais, reconhecidos como atores centrais para resultados ambientais duradouros. O relatório aponta que o futuro do financiamento florestal dependerá da combinação inteligente desses instrumentos, e não da aposta em uma única solução.

  • O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global

    O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global

    O Brasil reúne as condições mais favoráveis do planeta para liderar a agenda climática global por meio da conservação, restauração florestal e silvicultura. Essa é a principal conclusão do estudo O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global, que apresenta dados consolidados sobre o papel estratégico das florestas brasileiras no enfrentamento da crise climática.

    Segundo o documento, as florestas estão entre as soluções climáticas mais escaláveis e custo-efetivas disponíveis atualmente, sendo responsáveis por absorver cerca de um terço das emissões globais anuais de gases de efeito estufa provenientes da atividade humana. Sem florestas conservadas, manejadas e restauradas, o cumprimento das metas do Acordo de Paris torna-se inviável.

    O Brasil ocupa posição central nesse cenário. O país detém a maior área contínua de florestas tropicais do mundo e concentra o maior potencial global de restauração florestal. Atualmente, são cerca de 500 milhões de hectares de florestas nativas, o equivalente a quase 60% do território nacional.

    Dois cenários para 2035

    O estudo projeta dois cenários para 2035. No cenário base, mantidos níveis médios de desmatamento, o país registraria perda aproximada de 1% no estoque de carbono das formações florestais.

    No cenário potencial, com desmatamento ilegal próximo de zero até 2030, expansão da restauração e crescimento da silvicultura, o Brasil poderia gerar um ganho líquido de aproximadamente 1% no estoque de carbono, revertendo a curva histórica de perda florestal.

    Esse avanço seria possível sem competir com a produção de alimentos. O levantamento indica que há extensas áreas desmatadas subutilizadas aptas a atender a expansão agropecuária e, simultaneamente, permitir a restauração florestal e o plantio comercial de árvores.

    Código Florestal e instrumentos de mercado

    O país já dispõe de arcabouço legal robusto para proteção das florestas, com destaque para o Código Florestal, que assegura Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais em propriedades rurais. Estima-se que 215 milhões de hectares estejam conservados ou reflorestados em imóveis rurais voltados à produção de alimentos.

    O estudo também aponta mecanismos financeiros promissores para escalar a conservação, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, TFFF, e o REDD+ Jurisdicional. Ao lado desses instrumentos, políticas de comando e controle combinadas com ordenamento territorial já demonstraram eficácia histórica, como ocorreu entre 2004 e 2012, quando o desmatamento na Amazônia foi reduzido em 80%.

    Restauração e silvicultura em expansão

    A restauração florestal com espécies nativas desponta como nova fronteira econômica, atraindo capital privado e podendo alcançar milhões de hectares até 2035.

    Já a silvicultura de espécies exóticas, considerada a mais competitiva do mundo, deve expandir sua área plantada de 4 milhões para até 6,2 milhões de hectares na próxima década, sobretudo em áreas anteriormente degradadas.

    Além da captura de carbono, as florestas brasileiras exercem papel crucial na regulação do regime de chuvas, na segurança hídrica, na produção agrícola e na conservação da biodiversidade.

    Para os autores, consolidar o protagonismo brasileiro exige combinar proteção efetiva contra o desmatamento ilegal, ampliação da restauração, fortalecimento da bioeconomia e criação de mecanismos financeiros capazes de transformar o capital natural em ativo estratégico para o desenvolvimento sustentável.