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  • Rematamento Produtivo, Conservação e Desenvolvimento Econômico na Amazônia Brasileira

    Rematamento Produtivo, Conservação e Desenvolvimento Econômico na Amazônia Brasileira

    A Amazônia enfrenta um paradoxo. Ao mesmo tempo em que abriga um dos ecossistemas mais importantes do planeta para a estabilidade climática global, a região convive com indicadores de emprego, renda e qualidade de vida inferiores aos do restante do Brasil. Diante da falta de oportunidades econômicas, cresce o apoio local a iniciativas que prometem desenvolvimento, mesmo quando associadas a custos ambientais.

    É a partir desse diagnóstico que o estudo “Rematamento Produtivo, Conservação e Desenvolvimento Econômico na Amazônia Brasileira”, do pesquisador Salo Coslovsky, propõe uma nova estratégia para a região: o rematamento produtivo, conceito que busca transformar áreas já desmatadas e pastagens degradadas em sistemas produtivos baseados em espécies perenes, capazes de gerar empregos, renda e conservar recursos naturais.

    Segundo o estudo, o debate amazônico tem sido marcado por um descompasso crescente. De um lado, a sociobioeconomia contribui para a conservação e a valorização de comunidades locais, mas enfrenta dificuldades para alcançar escala. De outro, o financiamento climático tem ampliado os recursos destinados à proteção ambiental, mas nem sempre prioriza a geração de empregos e oportunidades econômicas para a população amazônica.

    “O resultado é uma guerra de desgaste que não entrega plenamente nem conservação ambiental nem prosperidade econômica”, apontam os autores.

    A proposta do rematamento produtivo parte da premissa de que a Amazônia já possui os elementos necessários para impulsionar uma nova economia baseada na recuperação produtiva de áreas abertas. O conceito engloba atividades como sistemas agroflorestais, reflorestamento para produção de fibras, madeira e biomassa, restauração florestal remunerada por créditos de carbono e agricultura de alto valor agregado.

    Diferentemente das estratégias tradicionais de restauração, o rematamento tem como principal métrica de sucesso a geração de emprego e renda.

    Potencial econômico

    O estudo destaca que existe demanda consolidada para produtos associados ao rematamento. Consumidores no Brasil e no exterior movimentam cerca de US$ 230 bilhões por ano em mercados relacionados a produtos como cacau, açaí, óleo de palma e frutas tropicais. Além disso, empreendimentos sediados na Amazônia já movimentam aproximadamente US$ 7,2 bilhões anuais na produção e comercialização dessas mercadorias.

    Outro ponto ressaltado pelos pesquisadores é a disponibilidade de terras. A pesquisa aponta que a intensificação da pecuária em áreas já abertas poderia liberar cerca de 37 milhões de hectares para novos usos produtivos, sem prejuízo à produção de carne.

    O potencial de geração de empregos também é expressivo. Segundo estimativas citadas pelo estudo, a restauração de dois hectares pode gerar, em média, um emprego direto. Em sistemas produtivos permanentes, esse potencial tende a ser ainda maior.

    Conservação com prosperidade

    Além de apresentar uma proposta econômica, o estudo faz um alerta sobre a crescente distância entre as prioridades da população amazônica e a agenda ambiental tradicional.

    Os autores argumentam que grande parte dos moradores da região vê o desenvolvimento econômico como uma necessidade imediata, enquanto temas ambientais costumam aparecer em segundo plano diante de desafios como emprego, renda, segurança e acesso a serviços públicos.

    Nesse contexto, o rematamento produtivo é apresentado como uma estratégia capaz de aproximar objetivos frequentemente tratados como conflitantes: conservar a floresta e gerar prosperidade econômica.

    Quatro frentes para avançar

    Para transformar o rematamento em política pública de escala, o estudo propõe quatro grandes frentes de atuação:

    • Criação de um regime regulatório adaptado à realidade amazônica;

    • Construção de acordos comerciais favoráveis a produtos e serviços associados ao rematamento;

    • Mobilização do sistema nacional de inovação para aumentar produtividade e competitividade;

    • Fortalecimento das Mesas Executivas como espaços de coordenação entre setor público e iniciativa privada.

    Segundo os autores, a Amazônia já dispõe de instituições e instrumentos capazes de impulsionar essa agenda, como Embrapa, BNDES, Plano Safra, Finep, Fundo Clima e EcoInvest. O desafio passa agora por direcionar esses mecanismos para uma estratégia que combine conservação ambiental, competitividade econômica e geração de oportunidades para a população da região.

    “A trajetória recente tem custado à Amazônia sua floresta sem trazer prosperidade. O rematamento produtivo busca justamente romper esse ciclo”, conclui o estudo.

  • Para Proteger a Floresta Amazônica, Precisamos Rematar as Áreas Desmatadas

    Para Proteger a Floresta Amazônica, Precisamos Rematar as Áreas Desmatadas

    A conversão de áreas já desmatadas em sistemas produtivos sustentáveis pode gerar empregos verdes, ampliar a renda regional e reduzir a pressão sobre a floresta, aponta um novo estudo que revela que a Amazônia possui 35 milhões de hectares disponíveis para rematamento e hoje captura apenas 3% de um mercado global de US$ 233 bilhões em produtos da floresta. Assinado por Salo Coslovsky e Beto Veríssimo, o trabalho do projeto Amazônia 2030 detalha como essa estratégia pode reconciliar proteção ambiental e desenvolvimento econômico, propondo um programa nacional baseado em coordenação estatal, tecnologia e segurança fundiária.

    A Notas de Políticas Públicas (Policy Brief), “Para proteger a floresta amazônica, precisamos rematar as áreas desmatadas”, apresenta uma proposta ampla e factível para enfrentar simultaneamente dois desafios históricos da região: a falta de oportunidades econômicas e a fragilidade da conservação ambiental. O estudo mostra que o rematamento produtivo, a recuperação de áreas já abertas e hoje subutilizadas por meio de sistemas agroflorestais, silvicultura e restauração, pode gerar empregos de qualidade, ampliar a renda dos amazônidas e reduzir o avanço de atividades ilegais que pressionam a floresta.

    Entre as principais mensagens do documento estão:

    • Rematar áreas degradadas é a chave para quebrar o impasse entre desenvolvimento e conservação.
    • A Amazônia tem cerca de 35 milhões de hectares disponíveis para rematamento, sem necessidade de novo desmatamento.
    • A região movimenta US$ 7,2 bilhões por ano com produtos compatíveis com a floresta, mas isso representa apenas 3% de um mercado total de US$ 233 bilhões.
    • Sem empregos verdes, a proteção ambiental é frágil, e retrocessos recentes mostram que só conservar não é suficiente.
    • Um programa nacional de rematamento produtivo pode gerar renda, capturar carbono, restaurar ecossistemas e fortalecer cadeias produtivas já consolidadas.

     

    O estudo destaca que, entre 2013 e 2024, a Amazônia perdeu 4,6 milhões de hectares a mais de floresta do que teria perdido se o desmatamento tivesse permanecido no piso histórico de 2012. A criação de áreas protegidas estagnou e a grilagem de terras públicas voltou a crescer, enquanto legisladores federais e estaduais enfraqueceram mecanismos de proteção.

    Esse cenário é agravado pela escassez de empregos e negócios verdes, que leva parte da população a depender de atividades predatórias como garimpo, grilagem e pecuária extensiva. Para os autores, não haverá conservação duradoura sem prosperidade local, e a saída está nas áreas já abertas.

    Por que o rematamento produtivo funciona

    O estudo demonstra que o rematamento produtivo reúne as condições necessárias para ser implementado em grande escala:

    • Existe demanda real e crescente por produtos como açaí, cacau, banana, mandioca, fibras e palmáceas.
    • A agricultura moderna se tornou intensiva em tecnologia, gerando empregos qualificados no campo e nas cidades.
    • O mercado de restauração florestal e captura de carbono está em expansão, oferecendo novas fontes de renda.
    • A Amazônia já tem empreendedores experientes nessas cadeias e exemplos concretos de sucesso.
    • O país acumulou lições importantes sobre como desenhar políticas produtivas eficazes.

     

    Os autores propõem um Programa Nacional de Rematamento Produtivo estruturado em cinco pilares:

     

    1. Resolver a questão fundiária, protegendo florestas públicas e regularizando áreas antigas de desmatamento.
    2. Ampliar o financiamento de longo prazo, usando contratos futuros, inclusive de carbono, como garantia.
    3. Desenvolver tecnologia e capacitação local, com foco em operações rurais tecnificadas e agroflorestais.
    4. Reorientar políticas de desenvolvimento produtivo para apoiar cadeias já consolidadas e competitivas.
    5. Coordenar a ação estatal, garantindo previsibilidade, escala e metas claras.

     

    O Brasil tem condições de avançar rapidamente em um programa com impacto econômico, social e ambiental simultâneo. “O rematamento produtivo aumenta a produtividade, gera empregos verdes e fortalece a conservação. A Amazônia pode prosperar sem derrubar mais floresta, e o país precisa agir agora”, afirmam os pesquisadores.