Categoria: Fatos da Amazônia

  • Fatos da Amazônia – 2026

    Fatos da Amazônia – 2026

    O Fatos da Amazônia 2026 reúne e atualiza alguns dos principais indicadores ambientais, sociais e econômicos da Amazônia, oferecendo um panorama amplo das transformações recentes da região. Produzida pelo Projeto Amazônia 2030, a publicação sistematiza dados de diferentes instituições públicas e da sociedade civil sobre temas como território, população, desmatamento, queimadas, produção agropecuária, bioeconomia, segurança pública, progresso social, pobreza e economia. O objetivo é facilitar o acesso a informações essenciais para compreender os desafios e as oportunidades da Amazônia e contribuir para políticas capazes de conciliar desenvolvimento econômico, melhoria da qualidade de vida e conservação dos recursos naturais.

    O Fatos da Amazônia 2026 é de autoria de Daniel Santos, Arthur França, Manuele Lima, Agatha Vilhena e Beto Veríssimo. A nova edição mostra uma Amazônia marcada por contrastes. Indicadores ambientais importantes apresentaram melhora recente, com redução do desmatamento e forte queda dos focos de calor em 2025. Ao mesmo tempo, a região continua enfrentando desafios estruturais relacionados à pobreza, violência e qualidade de vida. A Amazônia Legal possui quase 29 milhões de habitantes, mas apresenta desempenho no Índice de Progresso Social inferior ao restante do país.

    Principais destaques

    • Território e população: a Amazônia Legal ocupa cerca de 5 milhões de km², equivalentes a 59% do território brasileiro, e reúne 28,5 milhões de habitantes em 773 municípios — aproximadamente 13% da população do país.
    • Cinco Amazônias: a região pode ser dividida de acordo com suas características ambientais e de ocupação em Amazônia florestal, que representa 39% do território; florestal sob pressão, 29%; desmatada, 11%; e não florestal, predominantemente Cerrado, 21%. A maior parte da população, 76%, vive em áreas urbanas.
    • Desmatamento: a taxa de perda de floresta primária caiu de 13.038 km² em 2021 para 5.731 km² em 2025, o menor patamar desde 2015. Apesar da redução recente, a Amazônia Legal já perdeu aproximadamente 863 mil km² de floresta, equivalentes a cerca de 21% de sua cobertura florestal original.
    • Queimadas: depois de registrar quase 194 mil focos de calor em 2024, a Amazônia Legal contabilizou 71.276 focos em 2025, uma redução de 63% e o menor número registrado desde 2000.
    • Agricultura e pecuária: a área destinada à agricultura na região passou de pouco mais de 8 milhões de hectares em 2000 para 30 milhões em 2024. No mesmo período, o rebanho bovino cresceu de 47 milhões para 107 milhões de cabeças, fazendo com que a Amazônia Legal concentrasse 45% do rebanho brasileiro em 2024.
    • Bioeconomia: o valor da produção de açaí nativo na Amazônia Legal mais que dobrou em uma década, passando de R$ 480 milhões em 2015 para mais de R$ 1 bilhão em 2024. O Pará permanece como o maior produtor do país.
    • Progresso social: a Amazônia Legal obteve 58,18 pontos no IPS Brasil 2026, abaixo dos 64,21 pontos registrados no restante do Brasil. Palmas (TO), Cuiabá (MT) e Araguainha (MT) aparecem entre os municípios amazônicos com melhores resultados.
    • Desmatamento e qualidade de vida: os municípios que mais desmataram recentemente também apresentam, em geral, baixos níveis de progresso social. Entre os 20 maiores desmatadores entre 2020 e 2025 estão Altamira (PA), São Félix do Xingu (PA), Lábrea (AM), Porto Velho (RO) e Apuí (AM).
    • Pobreza: cerca de 37% da população da Amazônia Legal estava em situação de pobreza em 2025. Pelo critério internacional de Paridade de Poder de Compra de US$ 4,20, quase 14% da população regional permanecia abaixo da linha de pobreza.
    • Violência: a taxa de homicídios caiu do pico de mais de 42 mortes por 100 mil habitantes, registrado em 2018, para 27,7 por 100 mil habitantes em 2024. Apesar da redução, diversos municípios amazônicos ainda registraram taxas superiores a 70 homicídios por 100 mil habitantes.
    • Economia: o PIB real da Amazônia Legal alcançou cerca de R$ 1 trilhão em 2023, representando quase 10% da economia brasileira. Mato Grosso, com R$ 285 bilhões, e Pará, com R$ 266 bilhões, lideram a economia regional.

     

    O estudo reforça que não existe uma única Amazônia. A região reúne realidades muito diferentes em termos de conservação florestal, produção econômica, urbanização e condições de vida. Os dados mostram avanços importantes em indicadores ambientais recentes, mas evidenciam que reduzir o desmatamento precisa caminhar ao lado de políticas capazes de gerar prosperidade, segurança e melhores condições sociais para a população amazônica.

  • State of the Brazilian Amazon

    State of the Brazilian Amazon


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    The State of the Brazilian Amazon is an unprecedented compilation that brings together some of the main findings of the Amazônia 2030 Project, organized specifically to mark the UN Climate Conference taking place in Belém do Pará. More than just a statistical snapshot, this edition aims to serve as a guide for those seeking to understand the heterogeneity and richness of the Amazon, gathering essential data on the region’s territory, population, environment, and economy at a decisive moment for the planet’s future.

    The 30th United Nations Climate Change Conference (COP30) will bring together leaders from nearly 200 countries, as well as scientists and civil society representatives, to discuss commitments and actions to tackle the climate crisis. For the first time, the event will be held in the heart of the Amazon, underscoring the biome’s central role in the planet’s future.

    Key Highlights

    Territory and Population: The Legal Amazon covers 59% of Brazil, with 5 million km² and 26.7 million inhabitants (13% of the national population) distributed across 773 municipalities.

    Five Amazons: The report classifies the region into five distinct zones — forest (39% of the area), under pressure (29%), deforested (11%), non-forest/Cerrado (21%), and urban (76% of the population).

    Deforestation: Although declining since 2021, it remains critical. The total deforested area reached 857,000 km² by 2024, equivalent to 20.6% of the original forest cover. States such as Maranhão (65.9%), Mato Grosso (35.3%), and Pará (26.4%) have lost significant portions of their vegetation.

    Fires: In 2024, the region recorded 192,700 fire hotspots, the highest number since 2014 — a 52% increase compared to 2023, driven mainly by Mato Grosso (+133%) and Roraima (+102%).

    Emissions: The Legal Amazon accounted for 1.1 billion tons of CO₂ in 2023, nearly half of Brazil’s emissions. Net emissions were 602 million tons, representing 36% of the country’s net total.

    Bioeconomy: The 10 main products of the region generated billions in 2023. Açaí led with R$ 8.9 billion, followed by canephora coffee (R$ 2.5 billion), banana (R$ 2.4 billion), cocoa (R$ 2.1 billion), and Brazil nuts (R$ 172 million).

    Poverty: In 2024, around 10 million people were living in poverty in the region, equivalent to 36% of the Legal Amazon’s population — above the national average.

    Violence: The homicide rate remains high, reaching 32.9 per 100,000 inhabitants in 2023, still above the national average.

    The study shows that the Amazon is not a single reality but multiple Amazons combining different levels of conservation, land use, and social conditions. Recognizing this diversity is essential for formulating policies that reconcile environmental conservation, social inclusion, and economic prosperity.

    The COP30 Edition of Fatos da Amazônia was supported by Fundo Vale, Instituto Itaúsa, the Institute for Climate and Society (iCS), and the Gordon and Betty Moore Foundation.

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  • Fatos da Amazônia – Edição COP 30

    Fatos da Amazônia – Edição COP 30

    O Fatos da Amazônia 2025 – Especial COP30 é uma compilação inédita que concentra alguns dos principais achados do Projeto Amazônia 2030, organizada especialmente para marcar a realização da Conferência do Clima da ONU em Belém do Pará. Mais do que um retrato estatístico, a edição busca servir como guia para quem deseja compreender a heterogeneidade e a riqueza da Amazônia, reunindo dados fundamentais sobre território, população, meio ambiente e economia da região em um momento decisivo para o futuro do planeta.

    A COP30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas) reunirá líderes de quase 200 países, além de cientistas e representantes da sociedade civil, para discutir compromissos e ações contra a crise climática. Pela primeira vez, o evento acontece no coração da Amazônia, reforçando a centralidade do bioma para o futuro do planeta.

     

    Principais destaques 

    • Território e população: a Amazônia Legal cobre 59% do Brasil, com 5 milhões de km² e 26,7 milhões de habitantes (13% da população nacional) distribuídos em 773 municípios.

     

    • Cinco Amazônias: o relatório classifica a região em cinco zonas distintas — florestal (39% da área), sob pressão (29%), desmatada (11%), não florestal/cerrado (21%) e urbana (76% da população).

     

    • Desmatamento: em queda desde 2021, mas ainda crítico. O acumulado chegou a 857 mil km² até 2024, o que corresponde a 20,6% da cobertura florestal original. Estados como Maranhão (65,9%), Mato Grosso (35,3%) e Pará (26,4%) perderam parcelas expressivas de sua vegetação.

     

    • Queimadas: em 2024, a região registrou 192,7 mil focos de calor, o maior número desde 2014 — aumento de 52% em relação a 2023, puxado principalmente por Mato Grosso (+133%) e Roraima (+102%).

     

    • Emissões: a Amazônia Legal respondeu por 1,1 bilhão de toneladas de CO₂ em 2023, quase metade das emissões brasileiras. As emissões líquidas foram de 602 milhões de toneladas, equivalentes a 36% das emissões líquidas nacionais.

     

    • Bioeconomia: os 10 principais produtos da região movimentaram bilhões em 2023. O açaí liderou com R$ 8,9 bilhões, seguido por café canephora (R$ 2,5 bi), banana (R$ 2,4 bi), cacau (R$ 2,1 bi) e castanha-do-brasil (R$ 172 mi).

       

     

    • Pobreza: em 2024, cerca de 10 milhões de pessoas estavam em situação de pobreza na região, o equivalente a 36% da população da Amazônia Legal, acima da média nacional.

       

     

    • Violência: a taxa de homicídios segue elevada, alcançando 32,9 por 100 mil habitantes em 2023, ainda acima da média nacional.

    O estudo mostra que a Amazônia não é uma realidade única, mas sim múltiplas Amazônias que combinam diferentes níveis de conservação, uso da terra e condições sociais. Reconhecer essa diversidade é essencial para formular políticas que conciliem conservação ambiental, inclusão social e prosperidade econômica.

    O Fatos da Amazônia Edição COP30 contou com o apoio do Fundo Vale, Instituto Itaúsa, Instituto Clima e Sociedade (iCS) e da Gordon and Betty Moore Foundation.

  • Fatos da Amazônia – 2025

    Fatos da Amazônia – 2025

    O estudo Fatos da Amazônia 2025 apresenta um retrato abrangente e atualizado da Amazônia Legal com base em dados públicos e confiáveis sobre o território, a população, o meio ambiente e a economia da região. A publicação mostra que a Amazônia Legal concentra 59% do território brasileiro, abriga 26,7 milhões de habitantes e enfrenta desafios urgentes ligados ao desmatamento, pobreza, urbanização precária e violência.

    Segundo o estudo, o desmatamento acumulado até 2024 já atinge 857 mil km², ou 21% da cobertura florestal original do Bioma Amazônia. No mesmo período, foram registrados cerca de 2 milhões de focos de calor, com destaque para os estados do Pará e Mato Grosso, que lideram os registros de queimadas.

    As emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE) da região ultrapassaram 600 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2022.

    A publicação também destaca o peso da Amazônia na produção de alimentos e produtos da bioeconomia. Em 2023, a produção de açaí gerou R$ 8,9 bilhões em valor, seguida pelo cacau (R$ 2,1 bilhões) e castanha-do-brasil (R$ 173 milhões). No mesmo ano, o rebanho bovino na região chegou a 106,7 milhões de cabeças, e as pastagens ocuparam 76,8 milhões de hectares — mais do que o dobro da área plantada com agricultura.

    Problemas ambientais persistem, como a mineração ilegal, que já ocupa 246 mil hectares, com forte presença em áreas sensíveis como a Terra Indígena Yanomami. Além disso, a superfície de água da região encolheu quase 9% entre 2022 e 2024, impactada por eventos extremos como secas severas.

    Em termos sociais, a Amazônia Legal concentra 36,2% da população em situação de pobreza, acima da média nacional. Embora a maioria da população (76%) viva em cidades, o acesso a infraestrutura básica ainda é limitado: apenas 19,3% das moradias cadastradas no CadÚnico contam com rede de esgoto, contra 60,2% no restante do Brasil.

    A violência também é uma preocupação crescente. A taxa de homicídios na região chegou a 32,9 por 100 mil habitantes em 2023, permanecendo acima da média nacional, mesmo após leve recuo em relação ao pico de 2017.

    O relatório propõe que, diante da diversidade e complexidade amazônica, é necessário compreender as múltiplas “Amazônias” que revelam diferentes níveis de conservação e uso da terra.

  • The Amazon in The New PAC: Recommendations to Promote Sustainable Infrastructure

    The Amazon in The New PAC: Recommendations to Promote Sustainable Infrastructure


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    In August 2023, the federal government launched a new edition of the Growth Acceleration Program (Novo PAC), promising to boost the national economy through infrastructure investments aligned with the Ecological Transformation Plan. However, a new analysis by the Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio), in collaboration with the Amazônia 2030 project, warns that the program risks repeating past mistakes and exacerbating inequalities if it fails to incorporate a strategic and tailored vision for the Amazon.

    Authored by researchers Joana Chiavari (Research Director, CPI/PUC-Rio), Gabriel Cozendey, and Luiza Antonaccio (Senior Legal Analysts, CPI/PUC-Rio), the study assesses how the planned investments under Novo PAC affect the Amazon region across four crucial sectors: logistics, connectivity, sanitation, and energy.

    The research highlights that, despite the broad presence of projects in the Legal Amazon, the distribution of investments does not reflect the real needs of the local population. States like Acre and Amapá, which rank among the worst in infrastructure indicators, receive little attention from the program. Moreover, there is a disconnect between Novo PAC and the national deforestation reduction goals set in the Action Plan for the Prevention and Control of Deforestation in the Legal Amazon (PPCDAm).

    According to the study, Novo PAC still follows an investment logic conceived outside the Amazon and for areas beyond the Amazon. “It is essential to develop infrastructure that respects regional diversity and contributes to improving the lives of the local population,” the analysis states.

    The study also criticizes the inclusion of high environmental impact projects—such as the Ferrogrão railway and the paving of the BR-319 highway—in preserved forest areas, without considering less harmful alternatives that are more aligned with efficient land use and the promotion of the bioeconomy. The authors argue that long-term plans, such as the National Logistics Plan (PNL), should begin to incorporate socio-environmental criteria and a strategic vision for the region.

    Among the recommendations are the creation of a specific development plan for the Amazon, with tailored solutions for the region’s diverse contexts—such as Forested Amazon, Deforested Amazon, and Amazon Under Pressure—and improved transparency and qualification of public investment decision-making processes.

    According to the researchers, aligning Novo PAC with sustainability goals and the real needs of the Amazon is not only a matter of social and environmental justice but a fundamental condition for the program’s long-term success.

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  • A Amazônia no Novo PAC: Recomendações Para Impulsionar a Infraestrutura Sustentável

    A Amazônia no Novo PAC: Recomendações Para Impulsionar a Infraestrutura Sustentável

    O governo federal lançou, em agosto de 2023, a nova edição do Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), com a promessa de impulsionar a economia nacional por meio de investimentos em infraestrutura alinhados ao Plano de Transformação Ecológica. No entanto, uma nova análise do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio), em colaboração com o projeto Amazônia 2030, alerta que o programa corre o risco de repetir erros do passado e ampliar desigualdades se não incorporar uma visão estratégica e específica para a Amazônia.

    Produzido pelos pesquisadores Joana Chiavari (Diretora de Pesquisa, CPI/PUC-Rio), Gabriel Cozendey e Luiza Antonaccio (Analistas Legais Seniores, CPI/PUC-Rio), o estudo avalia como os investimentos previstos no Novo PAC impactam a região amazônica em quatro setores cruciais: logística, conectividade, saneamento e energia.

    A pesquisa aponta que, apesar da ampla presença de projetos na Amazônia Legal, a distribuição dos investimentos não reflete as reais necessidades da população local. Estados como o Acre e o Amapá, que figuram entre os piores indicadores de infraestrutura, são pouco contemplados pelo programa. Além disso, há uma desconexão entre o Novo PAC e as metas nacionais de redução do desmatamento previstas no Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm).

    Conforme o estudo, o Novo PAC ainda repete uma lógica de investimentos pensada fora da Amazônia e para fora da Amazônia. “É preciso desenvolver infraestrutura que respeite a diversidade regional e que contribua para melhorar a vida da população local” aponta a análise.

    O estudo também critica a inclusão de projetos de alto impacto ambiental, como a Ferrogrão e o asfaltamento da BR-319, em áreas de floresta preservada, sem considerar alternativas menos danosas e mais alinhadas ao uso eficiente da terra e à promoção da bioeconomia. Os autores defendem que os planos de longo prazo, como o Plano Nacional de Logística (PNL), passem a incorporar critérios socioambientais e uma visão estratégica para a região.

    Entre as recomendações apresentadas estão a criação de um plano de desenvolvimento específico para a Amazônia, com soluções sob medida para os diferentes contextos da região — como a Amazônia Florestal, Desmatada e Sob Pressão —, e a maior transparência e qualificação dos processos de tomada de decisão dos investimentos públicos.

    Segundo os pesquisadores, alinhar o Novo PAC às metas de sustentabilidade e às necessidades reais da Amazônia não é apenas uma questão de justiça social e ambiental, mas uma condição fundamental para o sucesso do programa no longo prazo.

  • Caminhos Para a Transição Energética na Amazônia

    Caminhos Para a Transição Energética na Amazônia

    A expansão da matriz energética brasileira foi baseada em decisões centralizadas, com destaque para grandes projetos hidrelétricos na Amazônia. Justamente por deter 34% de toda a potência hídrica do país, a Amazônia Legal assume um papel central na geração de energia renovável, embora consuma elevada parcela de energia termelétrica cara e poluente, além de depender de fontes inseguras para uso próprio. No ano passado, a região registrou 21% da geração de energia no âmbito nacional, tendo consumido apenas 12%. Hoje, o Brasil assiste a uma mudança de paradigma no vetor de expansão de energia, conforme retrata o novo estudo do projeto Amazônia 2030.

    O relatório “Caminhos para Transição Energética na Amazônia”, liderado pela diretora do Centro de Regulação em Infraestrutura da Fundação Getúlio Vargas (FGV CERI), Joisa Dutra, e pelo pesquisador Diogo Lisbona Romeiro, também da FGV CERI, ressalta a importância de investir em soluções descentralizadas e renováveis complementares ao sistema hidrológico da Amazônia. Para os pesquisadores, direcionamentos como esses não apenas ajudarão a região a descarbonizar sua matriz energética, como também contribuirão para a mitigação de efeitos das mudanças climáticas e maior segurança de suprimento.

    Direcionamentos para a transição energética:
    O estudo revela que a Amazônia tem a oportunidade de percorrer uma transição energética justa, beneficiando-se de energia renovável e acessível, caso cumpra os seguinte passos:

    • Descentralização: promover um modelo energético mais flexível, capaz de atender às demandas locais, sem depender de grandes infraestruturas e interligações;
    • Complementaridade: investir em fontes renováveis complementares ao sistema hidrológico, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e garantindo maior segurança energética;
    • Legalidade: combater as perdas não técnicas com rigor, sobretudo entre consumidores de média e alta tensão, implementando programas articulados com os governos locais para reduzir as perdas na baixa tensão;
    • Competitividade: atrair empreendedores críveis, dispostos e aptos a suportar os custos e os riscos envolvidos no desenvolvimento das soluções locais.

    A pesquisa destaca a contradição: apesar de ser uma das principais regiões exportadoras de energia renovável do Brasil, a Amazônia Legal consome grandes volumes de energia termelétrica, que é cara e altamente poluente. O estudo ressalta a necessidade de investir em fontes renováveis e soluções descentralizadas que reduzam a dependência de combustíveis fósseis e aumentem a segurança energética. A adoção de energia solar e microrredes com armazenamento pode transformar os sistemas isolados, reduzindo custos e emissões de gases do efeito estufa.

    Historicamente, decisões centralizadas priorizaram grandes projetos hidrelétricos, mas a transição energética exige um novo paradigma: modelos flexíveis e descentralizados que atendam às necessidades locais sem grandes dependências de infraestrutura. A pesquisa aponta que a descentralização não só descarboniza a matriz energética da Amazônia, mas também contribui para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e atender ao ODS 7 da ONU, que visa garantir energia acessível e sustentável para todos.

    Perdas e desafios econômicos

    Outro desafio destacado são as elevadas perdas não técnicas (furtos de energia), que comprometem a sustentabilidade financeira das distribuidoras. Em 2023, essas perdas representaram 32% do mercado de baixa tensão na Amazônia Legal, contra uma média de 13% no restante do país. Estados como Amazonas, Amapá, Pará e Rondônia apresentam os índices mais críticos. Combater essas perdas, segundo o estudo, é essencial para equilibrar custos e expandir o acesso à eletricidade.

    Universalização do acesso

    Embora iniciativas como o programa “Luz para Todos” tenham avançado na universalização da energia elétrica, a Amazônia Legal ainda possui cerca de 970 mil pessoas sem acesso à eletricidade, principalmente em regiões remotas. A logística desafiadora para atender essas comunidades exige parcerias entre governos, empresas e organizações da sociedade civil. A adoção de tecnologias renováveis nessas áreas é vista como essencial para reduzir custos e emissões, além de acelerar o ritmo da universalização.

    Oportunidade histórica

    A Amazônia Legal tem a chance de liderar uma transição energética justa, combinando desenvolvimento sustentável com soluções inovadoras para ampliar o acesso à energia. Investimentos estratégicos, parcerias e uma matriz energética descarbonizada podem transformar a realidade local, promovendo maior qualidade de vida e inclusão social para milhões de brasileiros.

  • Ferrogrão (EF-170): Lições Para o Planejamento de Infraestrutura na Amazônia

    Ferrogrão (EF-170): Lições Para o Planejamento de Infraestrutura na Amazônia

    O Brasil tem enfrentado um histórico de desafios na execução de grandes projetos de infraestrutura na Amazônia, caracterizado por retornos sociais baixos e falhas recorrentes na governança dos investimentos. Entre os principais problemas estão a fragilidade no planejamento, baixa qualidade dos projetos, gestão ineficaz na implementação e ausência de avaliações rigorosas de impacto. Como resultado, esses projetos, frequentemente, enfrentam atrasos e gastos excessivos, como demonstrado no caso da Ferrogrão.

    O projeto Ferrogrão, uma ferrovia de 976 quilômetros planejada para conectar Sinop (MT) a Miritituba (PA), exemplifica os desafios mencionados. Desde a sua apresentação à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) até a suspensão de sua implementação pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o projeto tem sido alvo de controvérsias, incluindo subestimação de custos e prazos, além de dúvidas sobre sua viabilidade ambiental e jurídica. O STF interrompeu as obras em razão da contestação sobre a desafetação de áreas do Parque Nacional do Jamanxim, no Pará, levantando mais questionamentos sobre a sustentabilidade do projeto.

    O estudo, produzido pelo economista Claudio R. Frischtak em parceria com o projeto Amazônia 2030, aponta três principais áreas problemáticas relacionadas ao Ferrogrão:

    1. Viabilidade Econômico-Financeira: Os números originais apresentados ao Tribunal de Contas da União (TCU) em 2020 estão muito distantes da realidade atual. Estimativas indicam que o retorno financeiro do projeto, baseado em premissas realistas, é sete vezes menor do que o previsto inicialmente, exigindo uma contrapartida significativa de recursos públicos para viabilizar o projeto como Parceria Público-Privada (PPP).

      Atualizado para junho de 2024, o custo de capital do projeto está estimado em R$ 11,45 bilhões, com prazo de execução de nove anos e uma tarifa de R$ 110,05/mil toneladas por quilômetro útil (TKU). Essa estrutura levaria a uma Taxa Interna de Retorno (TIR) de 11,04%, considerada inadequada para garantir a viabilidade do empreendimento.

    2. Cenário Realista: Com base na experiência de projetos similares, como a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (FICO I), a Taxa Interna de Retorno realista para a Ferrogrão seria de apenas 1,6%. Isso resulta de uma despesa de capital total de R$ 36,86 bilhões, incluindo os desafios impostos pela topografia e geologia da Amazônia, além de riscos sociais e ambientais. O tempo de execução também seria muito maior, estimado em 22 anos, em vez dos nove anos originalmente previstos.
    3. Impactos na Tarifa: O modelo de receita por mil TKU da Ferrogrão, ajustado pelo IPCA, apresenta uma tarifa de R$ 110,05, considerada alta demais para garantir a competitividade da ferrovia frente a alternativas, como a rodovia BR-163, que corre paralela ao traçado da ferrovia e deve ser duplicada nos próximos anos. A necessidade de reduzir tarifas para manter a competitividade pode resultar em uma TIR negativa, elevando a dependência de subsídios públicos para manter o projeto viável.

    Mapa da Amazônia Legal com as Rotas de Integração do Centro Oeste aos Mercados. Essas rotas incluem os trajetos das principais rodovias, hidrovias e ferrovias da região em operação ou construção. MAPA – Rotas de Integração do Centro Oeste aos Mercados

    Diante desses desafios, a necessidade de uma avaliação mais rigorosa dos investimentos públicos em grandes obras de infraestrutura na Amazônia se torna evidente. O estudo destaca que, sem uma contrapartida significativa do governo federal, o projeto Ferrogrão dificilmente se sustentaria, tornando-se um fardo financeiro com poucas perspectivas de retorno econômico adequado. Estima-se que, no cenário mais otimista, o Tesouro Nacional teria que aportar R$ 32,5 bilhões, representando quase 90% do custo total de implantação.

    Esses resultados levantam questionamentos não apenas sobre a viabilidade do Ferrogrão, mas também sobre a sustentabilidade de grandes obras na Amazônia, destacando a urgência de melhorar a governança dos recursos públicos e a gestão de projetos de infraestrutura no Brasil.

  • Fatos da Amazônia – 2024

    Fatos da Amazônia – 2024

    A Amazônia é uma região de dimensão continental com múltiplas formas de ser dividida e interpretada. Compreendendo uma vasta área, pode ser entendida como uma região internacional (Pan-Amazônia), uma região dentro do território brasileiro (Amazônia Legal), um bioma brasileiro (bioma Amazônia), uma bacia hidrográfica (bacia amazônica), macrozonas baseadas na cobertura vegetal remanescente (as cinco Amazônias), além de outras formas derivadas de sua diversidade biológica e cultural. O relatório “Fatos da Amazônia – 2024” sintetiza informações econômicas, sociais e ambientais recentes da Amazônia Legal.

    A Pan-Amazônia abrange aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, compostos por florestas, cerrados e campos naturais, distribuídos por nove países da América do Sul, incluindo o Brasil, que detém 62% desse território. O restante está distribuído entre Peru (11%), Bolívia (8%), Colômbia (6%), Venezuela (6%) e Equador, Guiana, Guiana Francesa e Suriname (7%). A população da Pan-Amazônia está estimada em 47,6 milhões de habitantes.

    No Brasil, dois principais territórios geográficos se destacam na região: o Bioma Amazônia e a Amazônia Legal. O Bioma Amazônia, definido como um conjunto de ecorregiões, fauna, flora e dinâmicas e processos ecológicos similares, possui 4,2 milhões de quilômetros quadrados de florestas tropicais úmidas, extensa rede hidrográfica e uma enorme biodiversidade, representando 48% do território nacional.

    A Amazônia Legal, com aproximadamente 5 milhões de quilômetros quadrados, inclui toda a área do Bioma Amazônia, além de parte dos biomas Cerrado e Pantanal. Abrange todos os estados da Região Norte (Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins), Mato Grosso e parte do Maranhão, representando 59% do território nacional.

    O projeto Amazônia 2030 desenvolveu o conceito das cinco Amazônias, que divide a Amazônia Legal em cinco zonas baseadas na cobertura vegetal remanescente: florestal, florestal sob pressão, desmatada, não florestal (Cerrado e Pantanal) e urbana.

    Segundo o projeto Prodes do Inpe, o desmatamento na região atingiu 850.827 quilômetros quadrados até 2023, ou 16,2% da área total da Amazônia Legal. Considerando apenas a área de floresta nativa do Bioma Amazônia, o desmatamento atingiu 21% da cobertura florestal original. Entre 2010 e 2023, foram detectados 1,8 milhão de focos de calor na Amazônia Legal, sendo 143.066 apenas em 2023. As maiores quantidades ocorreram no Pará (48.457 focos) e Mato Grosso (25.135 focos).

    As emissões totais de Gases de Efeito Estufa (GEE) na Amazônia Legal em 2022 atingiram mais de 1,2 bilhão de toneladas de CO2e, com emissões líquidas de 729,6 milhões de toneladas de CO2e, sendo 76% relacionadas à mudança no uso da terra (principalmente desmatamento e queimadas).

    A produção de cacau em amêndoas, açaí e castanha-do-brasil na Amazônia atingiu valores significativos em 2022, com destaque para o açaí, que alcançou R$ 6,9 bilhões. O rebanho bovino na região atingiu 103,8 milhões de cabeças em 2022, com as maiores concentrações em Mato Grosso (34,2 milhões), Pará (24,8 milhões) e Rondônia (17,7 milhões).

    Os garimpos ilegais, que geram graves impactos ambientais e sociais, atingiram 241.019 hectares em 2022, concentrando-se em regiões como o rio Tapajós e a Terra Indígena Yanomami.

    A superfície de água na Amazônia Legal aumentou 10,3% em 2022, atingindo 11,9 milhões de hectares, um aumento associado ao regime de chuvas intensificado por fenômenos extremos como a La Niña.

    A população da Amazônia Legal cresceu de 7,1 milhões em 1970 para 26,7 milhões em 2022, representando 13% da população brasileira. O Produto Interno Bruto (PIB) Real da região totalizou R$ 916,9 bilhões em 2021, apenas 10% do PIB do Brasil. No entanto, 46,2% da população da Amazônia Legal vivia em situação de pobreza em 2022.

    As cidades amazônicas, que abrigam 76% da população da região, enfrentam desafios urbanos significativos, incluindo padrões urbanísticos irregulares e um déficit na oferta de serviços de saneamento. A taxa de homicídios na região, embora em declínio desde 2017, ainda é muito superior à média nacional, com 34 assassinatos por 100 mil habitantes em 2022.

  • Amazônia 2030: Bases For Sustainable Development

    Amazônia 2030: Bases For Sustainable Development


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    The Amazon 2030 project aims to propose solutions for the economic, social, and environmental development of the Brazilian Amazon. In the first phase (2020-2022), the project – led by Brazilian researchers – engaged over 80 researchers from various regional, national, and international institutions. They published 60 technical reports on topics related to social policies (health, education, public safety, demography), the Amazonian economy (income and employment, public finance, bioeconomy, infrastructure, livestock, and others), environmental conservation (forest restoration, carbon market, anti-deforestation policies, etc.), as well as cross-cutting themes such as land tenure and cities.

    The book “Amazon 2030” (Volume 1) is a synthesis of the studies published in the first phase of the project. It is structured into three chapters:

    1. The Amazon Paradox;
    2. The Five Amazons: Foundations for the Sustainable Development of the Brazilian Amazon;
    3. Zero Deforestation and Land Use Planning: Pillars for the Sustainable Development of the Brazilian Amazon.

    The first chapter addresses the so-called Amazon paradox, in which three serious problems are recast as opportunities for the region.

    Firstly, over the last decades, the Amazon has experienced extensive deforestation, amounting to around 84 million hectares. This has resulted in the creation of vast degraded areas, often abandoned or occupied by low-productivity agriculture or cattle ranching. If productivity were improved, these deforested areas could accommodate all agricultural expansion in the region, creating a surplus of approximately 35 million hectares. This surplus could be utilized for forest restoration involving the planting of native trees for carbon capture or directed towards other land uses.

    Secondly, despite facing excessive deforestation, the Brazilian Amazon retains a vast remaining forest cover that is gaining increasing strategic value and importance due to its environmental services, potential for the bioeconomy, and superlative biodiversity.

    Thirdly, the Amazon has over 8 million working-age adults who are not in the workforce. This serious social crisis can represent an opportunity, heightened by the fact that the region is still benefiting from a demographic bonus. That is, the number of economically active adults is larger than the number of children and the elderly.

    The second chapter discusses the heterogeneity that exists within the Brazilian Amazon. Covering 5 million km2, which is equivalent to 59% of Brazil, the region displays distinct patterns of human occupation and land use. Recognizing the different “Amazons” is a precondition for any feasible sustainable development plan for the region. In this chapter, the Brazilian Amazon is divided into five major zones: “The Forested Brazilian Amazon”, “The Brazilian Amazon with Forest Under Pressure”, “The Deforested Brazilian Amazon”, “The Non-Forested Brazilian Amazon” (the vast majority of this area is covered by savanna-type vegetation and natural grasslands), and “The Urban Brazilian Amazon” (where about two-thirds of the population resides). Policy suggestions vary depending on the zone. For example, intensifying agriculture and forest restoration are critical for the development of the Deforested Brazilian Amazon. In contrast, environmental enforcement carries greater weight in the Brazilian Amazon with Forest Under Pressure, where most deforestation has occurred. The bioeconomy should be encouraged throughout the region, but it is key in the Forested Amazon. The carbon market is fundamental in all zones, but the REDD+ mechanism (Reducing Emissions from Deforestation and Forest Degradation) is even more critical in the Brazilian Amazon with Forest Under Pressure.

    Ending deforestation is crucial for both the environment and climate, as well as for the economic and social development of the Brazilian Amazon. Continued deforestation keeps Amazonian society trapped in a vicious cycle of environmental destruction with low land productivity, high poverty rates, and slow social progress. Moreover, it has contributed in recent years to an explosion of environmental crimes and increased violence in the region.

    In summary, deforestation deteriorates the economic environment and prevents good investments in the region. Land use planning is also imperative, as approximately 29% of the Brazilian Amazon territory remains with undefined land tenure, a significant portion of which consists of public forests not allocated.

    The bases for allocating these lands are already present in current Brazilian legislation. Therefore, it is crucial that land use planning policy in the Brazilian Amazon aligns the procedures for allocating public lands according to the order of priorities identified in the Constitution and national legislation.

    Increasing regional productivity, attracting good investors and entrepreneurs to the region, harnessing opportunities related to the bioeconomy and forest restoration, and ensuring the provision and remuneration of ecosystem services provided by the forest are all impossible without zero deforestation and land use planning.

    Read the full paper here.